Reabitar Lisboa (VIII) – Turismo

5 May, 2009 by  

turismo

Na multiplicidade de interdependências que uma urbe gera, a componente económica que as anima ou que nelas se origina é significativa para a sua sobrevivência ou desenvolvimento.

A capacidade de se auto-sustentar é, pois de fulcral importância tanto a nível individual como geral.

Assim, qualquer política que interfira – quer através da alteração, quer através da anulação ou da criação de actividades – nesse instável equilíbrio, deverá prever (mesmo que de forma redutora, mesmo que com inúmeras incógnitas exógenas) as consequências económicas que dela advirão. Mais ainda, algumas das políticas urbanas a implementar deverão ter como factor decisório primordial os benefícios económicos que irão gerar.

O sector turístico é, desde há muito, um sector considerado estratégico para os gestores urbanos – e Lisboa não foge à regra. Algum esforço tem sido feito, tendo-se especialmente insistido em medidas “óbvias” – hotelaria, eventos internacionais. Especialmente relevante é a acção da ATL – ASSOCIAÇÃO TURISMO DE LISBOA, empresa que congrega os operadores turísticos e o Município.

Parece-me no entanto que, como nos restantes, toda a acção da Câmara neste sector se encontra compartimentada, não relevando as possíveis interacções com a cidade. Gostaria de abordar dois aspectos que me parecem preocupantes no actual – e visível – estado das coisas nas opções turísticas da CML.

1. A HOTELARIA COMO SALVADORA DAS ZONAS NOBRES

Em Lisboa nascem e desaparecem políticas como de moda se tratassem. Sem dados ou factos suficientemente sólidos ou extensos em que se baseiem, parecem saídas de apenas uma boa ideia, uma frase mais bem elaborada ou uma sugestão bem enquadrada, no local e com as personagens certas.

No que respeita à Baixa assiste-se, em discursos e na prática, à aposta (“aposta” é um termo que revela bem a incerteza no resultado que os seus autores têm) na implantação de mais unidades hoteleiras como forma de a revitalizar.

As contas são fáceis de adivinhar e reflectem a ausência de uma visão urbanística abrangente. A solução hoteleira reúne – em teoria… – o melhor de dois mundos: permite satisfazer a oferta de valores do solo inflacionados (como o terciário) e possibilita uma carga de ocupação não pendular (melhor ainda do que a habitação), com a vantagem de – caso as crises internacionais ou as catástrofes naturais não afastem a clientela – gerar receitas suficientes para cobrir os custos de manutenção do edifício.

Acontece que há mais factores nesta equação. Bastará uma classe reduzida de habitantes – sazonais, ainda por cima – para garantir a vivência dum bairro? Veneza é um exemplo paradigmático: apesar das dezenas de milhar de turistas que todos os dias a demandam, Veneza é uma cidade moribunda, com uma percentagem muito pequena de residentes permanentes – precisamente porque os valores imobiliário são impeditivos de tal ocupação-, de edifícios a cair por falta de manutenção, desequilibrada, um parque temático decadente e – é este o futuro que se quer para a Baixa?

escondidinha

A Baixa precisa, a cidade precisa de diversidade. De bons e médios hotéis, de pensões de charme e albergues para estudantes, de fogos para aluguer temporário a famílias em visita, mas também de muitos dos seus prédios habitados por famílias, por jovens e menos jovens, por crianças e velhos, gente que sustente o pequeno comércio que terá de existir para além das lojas de recordações ou restaurantes típicos, gente que sirva de mão-de-obra para o terciário sobrevivente mas também para o apoio ao turismo.

(continua)

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