sem título

14 November, 2011 by  

Um comentário a um artigo com mais de dois anos, e a leitura de outros surgidos na altura, fizeram-me ter vontade de alinhavar umas ideias aqui.

Conheci a Alta de Lisboa em meados de 2005, numa altura em que quis mudar de casa, e pouco depois iniciei este blog/site/whatever. Muitas coisas aconteceram entretanto, umas muito boas, outras menos agradáveis. O percurso do Viver foi sendo feito diariamente, com muito empenho colectivo e, por um somatório de motivos que interessará talvez pensar mas que não me apetece agora perder tempo a escrever sobre eles, definhou e mostra sinais de vitalidade muito ténues. Poderia ter sido diferente, mas essa é a parte mais fácil de dizer. Sempre que tomamos uma opção, pomos de lado infinitas outras. Mas mais interessante do que discutir a vida de um blog, é discutir a Alta de Lisboa.

Há-de um dia, espero, ser escrita a verdadeira história da Alta de Lisboa. Uma das raras oportunidades de fazer crescer uma cidade de forma ordenada e planeada, onde tudo apontaria para dar certo, mas onde quase tudo deu errado. E se há poucos anos eu diria que havia responsáveis materiais para a morte da Alta de Lisboa (basta ler as notícias sobre os embargos que a CML fez a várias obras, o anulamento de decisões de anos para nunca se arranjar alternativa, as obras paradas por falta de resolução camarária para pequenas parcelas de terrenos essenciais para a conclusão), hoje, com a conjuntura económica actual, parece mesmo irrealista pensar na Alta de Lisboa em função do seu plano de urbanização.

Se a Alta de Lisboa já era uma resposta tardia face ao desenvolvimento demográfico da Área Metropolitana de Lisboa desde 1980 (Lisboa, com um parque habitacional envelhecido, perdeu população para os concelhos limítrofes onde havia espaço para nova construção), constituindo-se como um projecto de risco na altura em que efectivamente arrancou, no início do novo milénio, mais dificultada se tornava a sua viabilidade com as sucessivas e inconsequentes alterações por imposição camarária. Já o escrevi várias vezes, mas nunca serão suficientes para serem justas: se o objectivo fosse a sabotagem, as decisões não poderiam ter sido mais acertadas.

E a resposta dos chamados actores locais? População, associações, ONGs e outras instituições dos bairros? Houve tímidos abaixo-assinados, algumas reportagens televisivas. Mas uma resposta única, dos vários integrantes, a uma só voz, nunca chegou a acontecer. Muitas vezes por falta de visão, porque se opta por substituir o raciocínio pela suave fé de que “tudo se há de resolver”, outras tantas por comprometimento político com o poder autárquico por via de dependência de subsídios, conflito de interesses ou apenas por fidelidade partidária. Atrevo-me a arriscar que passará pela cabeça de algumas pessoas que a manutenção da precariedade social de uma população interessa a quem dela vive. A própria entidade construtora, a SGAL, andou demasiado tempo à deriva, silenciosa e sem ser capaz de tomar posição sobre os atrasos burocráticos. Uma vez mais, as teias políticas são deprimentes: Amílcar Martins, ex-Presidente do Conselho de Administração no período em que mais actos de gestão da CML foram nefastos para as aspirações do projecto, pertenceu à Comissão de Honra da Lista de António Costa nas eleições de 2009.

Chegar ao final de 2011 e ver que praticamente tudo continua na mesma dá-me alguma pena. Se já era aposta tardia e ineficaz, como muito bem explicou o Pedro na sua estreia no Viver, temo que a Alta de Lisboa agora se torne apenas em mais um case-study para umas quantas teses de mestrado e doutoramento, tão ávidas de Covas da Moura, Chelas, Bairros 6 de Maio.

Comments

7 Responses to “sem título”
  1. moradora says:

    pensei que iria encerrar o blog/site/whatever. Mas não?!
    A Alta continua viva. Muito longe da realidade dos bairros de que fala. Quanto as boicotes eu não teria escrito melhor. É assim!

  2. pmd says:

    Bem (re) vindo ao Viver.

  3. miguel says:

    Também eu sofro de um misto de frustração e tristeza que decorrem diretamente do contacto que tenho diariamente com este projeto de bairro que teria tudo para dar certo, com uma especie de sonho, que só é alimentado pela meia duzia de pessoas que constroem o eixo central, cuja conclusão vai por a nu, o crime de herario publico, que é a avenida santos e castro.

    Mantenho fé, que as autárquicas, desbloquerão os principais pendentes rodoviários, e espero que as 30.000 famílias que aqui mora, façam o resto.

    Em relação a este espaço, acho que está na altura de respirar fundo e encetar um esforço de recolocar os temas que aqui perseguimos, novamente na agenda do dia. Apresento desde já a sugestao de candidatar o bairro aos perdidos e achados da sic, para mostrar a capacidade de mobilização e de iniciativa que aqui existem, os esforços da comunidade e confrontar a CML.

    Podem contar comigo, para o que for necessário.

  4. JoaoTitoBasto says:

    Quando vim viver para a Alta de Lisboa conhecia superficialmente o projecto, mas gostei da minha casa (bem maior do que eu poderia comprar noutras zonas da cidade) e da proximidade da Quinta das Conchas (espaço para os meus filhos brincarem), foram estes os dois factores decisivos para me mudar. Passados 7 anos não estou arrependido, continuo a sentir-me bem aqui tal como o resto da família, parece-me que esse é o sentimento de a maioria das pessoas que por cá habita.

    Mas vamos ao que interessa, por muito que me tivesse chocado na altura, concordo, hoje, que o Pedro tinha razão, a Alta é um projecto sobre-dimensionado para a cidade de Lisboa e também demasiado ambicioso (isto já sou eu a dizer). Embora haja algum apoio da CML para o desenvolvimento de projectos locais (muito bem aproveitado pelas vária instituições que estão no terreno), o papel da CML e também da SGAL tem sido absolutamente vergonhoso, a população tem sido engana, ignorada e desprezada, vítima de atrasos inqualificáveis e de más decisões de gestão.

    Quanto as "associações, ONGs e outras instituições" penso Tiago, que tens que fazer uma separação, uma coisa é o trabalho específico que todos estão a desenvolver no território, outra é a pressão política para exigir que se cumpra com o que está estipulado ou previsto. O trabalho específico desenvolvido pelas várias instituições, parece-me, salta à vista, há obra e muito tem sido feito em pról da população, acho que o território é um exemplo a seguir. Agora também há o outro lado da moeda, o lado que tu Tiago deste mais ênfase, realmente não tem havido capacidade de "pedir contas", de exigir ao poder político mais honestidade, transparência , exigência e rigor. Aí dou-te razão e digo-te que fazem falta blogs como o "Viver Lisboa" (activos como antigamente) e outros Tiagos informados, com vontade e com disponibilidade para mobilizar, identificar, acusar e também apresentar soluções.

    Da minha parte digo-te que demorei uma hora e meia para escrever este 4 singelos parágrafos, não estou talhado para o fazer, pessoalmente prefiro, junto com outras pessoas e instituições, idealizar e concretizar projectos que acredito fazem sentido para a comunidade, modéstia à parte acho que não o faço mal e essa é a minha contribuição para a Alta de Lisboa. Sinto que como eu há muitas outras pessoas e como tu, também lamento que não haja uma maior mobilização e exigência reivindicativa por parte de quem aqui trabalha e habita.

    Para finalizar (e já vão cinco paragrafos e uma hora e quarenta e cinco minutos), com todos os seus problemas, atrasos e incongruências a Alta de Lisboa é um local óptimo para viver, com gente maravilhosa e com um sentido de comunidade que não se encontra na maioria dos bairros da cidade de Lisboa.

    • Deixa lá, João, o tempo que perdes a escrever compensas a fazer depressa tantas outras coisas bem feitas.

      A minha crítica não é ao trabalho das instituições, que em variados casos é muito bom, mas à quase unânime (salvo raríssimas e honrosas excepções) postura subserviente, calculista e até cobarde em relação à CML. Critico a postura desinformada em relação ao que é o Plano de Urbanização, e alguma preguiça intelectual para interpretar as consequências que um urbanismo incompleto tem para a população. E para assinar um documento, para dar apoio a um protesto, para fazer de um grupo comunitário verdadeiramente um grupo de pressão e não um somatório de instituições, não é preciso que todos percam horas a escrever. Basta dizer: li e concordo. Mas, como tu muito bem sabes, isto nunca aconteceu.

      O resultado, quando ainda havia esperança que a pressão pudesse desemperrar os engonhanços da CML, foi deixar arrastar as coisas até chegarmos a uma situação de colapso econónimo em que me parece complicado disponibilizar as verbas necessárias para limpar os pontos negros.

      Quanto ao prazer de viver na Alta, também estou contigo. Gostei muito, apesar de ser um conceito urbanístico longe dos que me dão mais prazer. Fui feliz aí, adorei intervir e tentar ajudar a que o bairro ficasse concluído. Gostava de o ver um dia concluído. Seria sinal que em Portugal conseguimos levar os projectos até ao fim. O que eu quis dizer é que face ao presente (que o Pedro já dizia há muito mais tempo, daí ter linkado o texto dele) é que se calhar seria bom agora começar a pensar num plano de urbanização alternativo, definindo como ocupar as malhas baldias, o que fazer às acessibilidades, que equipamentos são ainda necessários e que engenharia financeira é necessária para os construir.

  5. Excelente texto Tiago!
    De facto a Alta de Lisboa é mais uma vítima deste sistema político podre em que vivemos. É um triste exemplo que permite ilustrar a tragédia em que Portugal está metido.
    Concordo inteiramente com a ideia de que este projecto necessita de ser inteiramente reformulado de acordo com as actuais possibilidades de consolidação do espaço urbano de Lisboa. O meu maior medo é que este espaço, cheio de potencialidades, se venha a transformar num amontoado de "ilhas urbanas" com características de dormitório e cheias de insegurança.
    Gostava de ver os responsáveis por esta desgraça urbana chamados à barra do tribunal. Mas, neste cantinho insignificante da Europa é, infelizmente, mais fácil Cristo descer à Terra do que ver o peixe graúdo condenado e pelos crimes que comete.

  6. Filipe Borges says:

    Eu trabalhei bem proximo da Alta de Lisboa, na Regus, e ver uma zona que poderia ser bem aproveitada, ser utilizada como está a ser indigna qualquer pessoa.
    Sou da mesma opniãp do João. espero que nao se transforme em mais um dos "guetos"

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