Amanhã faço gazeta
5 April, 2011 by Hermínia Saraiva

Seja em Sevilha, Salamanca, Santiago de Compostela, Madrid ou Barcelona haverá poucos sítios que me encantem mais do que a Plaza Mayor. Principalmente no Verão depois de quilómetros percorridos, a garganta seca, os músculos a latejar e o corpo inteiro a pedir sombra e descanso depois de longas horas passadas a calcorrear rua atrás de rua, porque só a pé se conhece de verdade uma cidade. É nestes dias que a Plaza Mayor nos surge, na maior parte das vezes de repente, porque depois de tanta volta já nos perdemos várias vezes e o Norte fica para Sul quando pensávamos que íamos para Leste, como um pequeno oásis. Chapéus-de-sol, esplanadas, uma ‘cana’ bem fresca, as pernas esticadas na cadeira da frente, e o calor dissipa-se num retemperar de forças para mais algumas horas.
E é numa qualquer Plaza Mayor, habitualmente a de Salamanca ou a de Santiago, que me lembro quase todos os dias quando apanho o 18 ou o 15 mesmo no Terreiro do Paço. Principalmente se o dia está de sol e só apetece fazer gazeta. A ideia nunca passa disso mesmo, porque o Terreiro do Paço, apesar do rio, mesmo ali a dois passos, é uma desilusão na brancura de uma praça central que reflecte o sol por todos os lados, mas não convida a coisa nenhuma. Sim, é verdade, há o Martinho da Arcada, mas fica tão recuado que quase não se sente o Terreiro Paço. Até hoje.

Hoje, logo pela manhã, com a sol a bater no rio, a água transformada em reflexos cor de prata, a vontade de fazer gazeta foi ainda maior do que o costume, quando vi, no canto direito, de quem está de costas para a Rua Augusta, e do lado de fora das arcadas da Praça do Comércio não uma, mas duas esplanadas com mesas de metal, chapéus-de-sol e sofás plásticos. O convite não poderia ser mais directo, mas o eléctrico já estava em andamento quando me apercebi, já era tarde para faltar ao trabalho, para voltar atrás, mas a vontade ficou.
Com o computador à frente descubro que as esplanadas pertencem a uma geladaria e outra a um restaurante e os horários são tão abrangentes que tão dão para um pequeno-almoço como para uma ceia. Encostadas às arcadas, junto à esquina com a rua do Arsenal, estas são as primeiras esplanadas a abrir no Terreiro do Paço após a renovação e a Câmara Municipal de Lisboa promete muitas mais. Talvez um dia o Terreiro do Paço seja tão convidativo como uma qualquer Plaza Mayor. Por mim, faço gazeta amanhã e passo lá umas horas a trocar olhares com um livro e o rio.



Que post tão bonito!
E que óptima notícia 🙂
Por acaso reparei nestas esplanadas um destes dias e tenho que as experimentar brevemente.
Só lamento é que o pavimento e as paragens dos transportes no lado terra da praça estejam uma confusão pegada!
Sim, Ângelo têm toda a razão. É uma espécie de gato escondido com gato de fora. A praça toda arranjadinha desde que vista do lado do Tejo. Quando se chega à continuação da Rua do Arsenal até mete dó à desorganização e mau aspecto, a estrada esburacada, faixas mal pintadas, tudo com um ar sozinho que dói. É lamentável que para a CML a renovação do Terreiro do Paço tenha terminado no final do ‘tabuleiro? [não me ocorre melhor expressão] central da praça.