Uma realidade que esconde pessoas e percursos “invisíveis”…

3 March, 2011 by  

Em 2007 fui ver ao DocLisboa o documentário ‘Lisboa Dentro’. Neste documentário reflectiu-se “sobre o universo assustador dos 10.000 prédios degradados que existem na capital. Ao serviço da Câmara Municipal ou das Sociedades de Reabilitação Urbana, arquitectos, juristas e assistentes sociais vistoriam os imóveis em mau estado e encontram-se com proprietários, inquilinos e promotores. Em torno das casas, o filme testemunha o diálogo (ou a falta de diálogo) entre estes mundos diferentes.”

Na altura, este documentário permitiu-me fazer uma pequena incursão por uma amostra da realidade edificada da cidade de Lisboa. Mas levei um murro no estômago que doeu! Fiquei a pensar sobre quem está e o que está por detrás das fachadas para as quais todos os dias olho. Se calhar não olho… passo apenas todos os dias por aqueles edifícios sem olhar. Talvez seja isso! Talvez seja o que a maioria de nós faz todos os dias, olhamos mas não vemos nada!

Nos bairros da cidade de Lisboa há pessoas que vivem em casas sem condições. São edifícios antigos que já não sofrem obras há muitos anos e que começam a deteriorar-se. Aí vivem pessoas idosas com problemas de saúde, pessoas desempregadas, pessoas com baixos recursos financeiros, pessoas que têm rendas de 3€, pessoas com rendas de mais de 150€,… aí vivem pessoas. Vive a Dona Maria, vive o Sr. António, a menina Gustava, a Dona Vitória e tantas outras Donas e Senhores.

Encontramos edifícios degradados, inquilinos de baixos recursos económicos que pagam rendas baixas e senhorios que não têm capacidade económica para recuperar o seu património. Encontramos jogos de poder e violência silenciosa. Encontramos negócios mal explicados e com pouca visibilidade. Encontramos processos de reabilitação e de realojamento.

Durante os processos de reabilitação os residentes dos edifícios em obras são, frequentemente, realojados em bairros sociais. As suas rotinas são alteradas, os seus percursos quotidianos desviados, as suas realidades tornam-se outras. O vizinho do lado de há 30 anos deixou de ser o mesmo. A mercearia já não está à porta. E a Dona Vitória deixou de estar à janela para um dedo de conversa com a Dona Maria.

Através do Decreto-Lei n.o 104/2004 de 7 de Maio, legislou-se sobre a possibilidade do Estado, através dos municípios, intervir em situações de “degradação das condições de habitabilidade, de salubridade, de estética e de segurança de significativas áreas urbanas do País”. Assim, foi concedida aos municípios a possibilidade de constituírem Sociedades de Reabilitação Urbana, “às quais são atribuídos poderes de autoridade e de polícia administrativa como os de expropriação e de licenciamento”. Mas não quero agora falar de Sociedades de Reabilitação Urbana pois parece-me que há muito para entender e para escrever…

Durante as obras de reabilitação dos edifícios, os inquilinos são realojados. E depois? Estas pessoas voltam às suas antigas casas? E têm capacidade económica para a actualização das rendas? Não sei… tenho dúvidas que estas pessoas regressem mas não sei, nunca o consegui saber. Procuro e procuro e não encontro. Não encontro estatísticas sobre o número de antigos arrendatários que regressa à sua antiga residência. Porque é que estes números não aparecem? Os edifícios são reabilitados e ficam no mesmo local. E onde estão a Dona Maria, o Sr. António, a menina Gustava, a Dona Vitória e tantas outras Donas e Senhores?

Em 2007 levei um murro no estômago que doeu. Agora, de olhos abertos espreito pela janela e vejo…

Comments

6 Responses to “Uma realidade que esconde pessoas e percursos “invisíveis”…”
  1. moradora says:

    E que tal a D. Maria viver numa casa que pode pagar em condições de salubridade?
    Porque será que tem que ser o Senhorio a quem lhe congelaram a renda há 30 anos a subsidiar a renda da menina Gustava?
    E porque é que a D. Antónia tem de ser realojada em prédios da Gebalis?
    Não deveremos nós mudar o paradigma e tornar nossa a responsabilidade de procurar condições de salubridade para educar os nossos filhos e envelhecer?

  2. maria says:

    concordo com a moradora.

  3. Ana Estevens says:

    Eu não sei que condições de salubridade para educar os seus filhos e envelhecer procura. Certamente não os quererá enfiar num destes bairros sociais cheios de salubridade localizados à margem da cidade de Lisboa. No entanto, sei que a população de Lisboa está a envelhecer, tal como os seus edifícios. Sei também que os senhorios não têm capacidade financeira para reabilitar o seu património e que jogos de poder alteram a estrutura da cidade e tentam transformá-la num território bonito e higienizado. Na maioria dos casos este território é irreal ou melhor, como se costuma dizer, é para 'inglês ver'! No meio destes jogos pouco claros ficam aqueles que por serem invisíveis desaparecem!

    • moradora says:

      "Certamente não os quererá enfiar num destes bairros sociais cheios de salubridade localizados à margem da cidade de Lisboa."
      Pois! Por um acaso quiz, e "horror dos horrores" adoro viver cá, trabalhar cá, educar os meus filhos cá e sim envelhecer também cá!
      Também passei parte da minha adolescência num desses bairros ainda mais à margem de Lisboa. E "inadmissivelmente" saí de lá uma mulher saudável, competente e feliz!
      Vivi e vivo porque escolhi viver cá ou outrem escolheu por mim porque era aqui e lá que havia condições de salubridade e Podiam/os Pagar!

  4. Ana Estevens says:

    Ainda bem que a sua experiência é boa! Infelizmente nem todos podem dizer o mesmo. Primeiro por não ser uma escolha para a maioria das pessoas mas sim uma "obrigação", uma falta de opção. A maioria dos realojamentos feitos em Portugal não têm em conta as características das pessoas. Têm como único objectivo limpar espaços, empurrando e fechando pessoas em espaços isolados da cidade. E depois porque muitos deles não têm condições para se viver, para se trabalhar, para estudar e para envelhecer…Infelizmente é esta a realidade portuguesa! Se fosse apenas por escolha económica, também eu queria viver num espaço saudável!

  5. moradora says:

    Portanto a Sra. D.a Ana Estevens defende que as pessoas deveriam poder escolher onde viver, o que pagar e as "características" dos vizinhos!
    Parece-me bem!
    E considera uma coisa terrível as pessoas coitadinhas terem de se sujeitar a viver em casas pouco dignas, em bairros periféricos, com vizinhos com características estranhas!
    Percebi bem?
    Onde viveriam as pessoas com as ditas características? e o que se faria às casas pouco dignas? e já agora se os bairros periféricos se sublimassem o centro passaria a perifério e o centro seria o quê?
    Como alguém me dizia há dias " Lisboa é só do Marquês para baixo".
    Serei um Alien ou há mais gente por aí que considera isto tudo um absurdo?

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