Uma cidade à beira rio

14 March, 2011 by  

O rio tem uma cor acizentado-metálica, ou talvez apenas reflicta o cinzento do céu de uma Primavera que quer, mas ainda não consegue. Nas beiras desta parte do rio, espécie de zona marina industrial, estão encostados barcos que é difícil dizer se estão abandonados, ou apenas muito usados. Sobre as margens, elevam-se edíficios alguns desses, sem dúvida, ao abandono: janelas partidas quando as há, um outro aparenta ter sido uma construção de compromisso lasso – a estrutura feita, e agora casa de despojos e montes de pneus. As gaivotas esvoaçam, por vezes mergulhando a pique. São bonitas, as gaivotas; e dão vida a este cenário quase apocalíptico: cedo de manhã, quando ainda não se vê mais ninguém, é possível imaginar que a cidade (qualquer cidade) poderia ficar assim, ter exactamente este aspecto, algumas semanas, ou meses, depois da extinção da espécie humana. Pensamento assustador. Mas não, lá vai um corredor vespertino na outra margem, ali vem uma senhora com um cão passear para onde eu estou com o meu.

Vejo o vapor da respiração do corredor (ou imagino ver, como espelho da minha), admiro-lhe o ritmo ágil sobre roupa preparada para o frio. A relva sob os meus pés está queimada pela neve. As árvores nuas debruçam-se e e reflectem-se no rio. Junto a um dos barcos há uma película de gelo, como ilha. A senhora do (outro) cão dirige-me palavras e um sorriso, e eu só compreendo metade. Estou em Praga, a viver no bairro Holesoviče, que de algumas maneiras me lembra a zona onde moro em Lisboa, perto das docas de Santa Apolónia, onde também corro e passeio com a minha cadela.

Mas tenho sido assaltada principalmente pelo sentimento de estranheza, não o de familiaridade. Há qualquer coisa na cultura eslava que me parece dura, agreste como este Inverno de que eu só vejo os resquícios. Não sei dizer o que é; e será, pelo menos em parte, o clássico “people are strange when you’re a stranger”, intensificado pela barreira da linguagem – as pessoas são intensamente estranhas, sentimo-nos particularmente vulneráveis quando não percebemos o que estão a dizer (basta pensar no cochichar de um segredo no qual não estamos incluídos). Mas mesmo esse “estar à parte” que começo a sentir se vai dissipando aos poucos, não dá conta de qualquer coisa mais substancial. Esta cultura é realmente diferente: estou no centro da Europa e sinto uma diferença enorme entre estar aqui, ou em Espanha ou França. O aspecto, os olhares, os modos das pessoas são diferentes; aquelas coisas que parecem superficiais mas que indicam qualquer coisa de profundo, de tal maneira que a sua visibilidade transparece nos actos em que não se pensa mas que se é, como a expressividade de um corpo. Mas ainda acabei de chegar; tudo isto são impressões. Por agora, alegra-me a perspectiva de voltar a ver, pela segunda vez este ano, os primeiros brotares da Primavera.

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