Os suspeitos do costume
Hesitei antes de retornar a este tema. Por vezes a insistência é contraproducente. Ter razão antes de tempo, ainda que satisfatório a posteriori, não leva a grandes resultados. Mais do que as vozes esclarecidas, é usualmente o tempo – esse grande escultor – que acaba por criar condições para as mudanças de opinião. Por outro lado, água mole em pedra dura et al, também a insistência acaba por se constituir num zumbido de fundo que, se não convence, pelo menos mantém a chama acesa. E assim, aqui vai.

Andamos há mais de duas semanas a ser consumidos pelas vagas incessantes das imagens vindas do sismo, do maremoto que o sismo provocou, da destruição provocada pelo maremoto que o sismo provocou, da central nuclear danificada na sequência do sismo, ocorrido no Japão. Somos solidários porque é o que naturalmente fazemos perante a adversidade de outros seres humanos e somo-lo porque, lá no fundo, também sabemos que existe a possibilidade de, um dia, aquilo também nos poder acontecer a nós.
A questão é: quando acontecer um sismo de magnitude elevada – e diz-nos a estatística e a probabilidade que ele irá acontecer… – perto da nossa costa ou mesmo no continente, como será a intensidade do mesmo na capital? Ou seja, que efeitos terá?
Graves, na melhor das hipóteses, apocalípticos na pior.
Como se sabe, pela exaustão com que é repetido, o sismo de 1755 despertou as consciências para a necessidade do emprego de soluções técnicas na construção de edificações que garantissem um mínimo de segurança aos seus habitantes durante a ocorrência de um sismo, dando origem ao que ficou conhecido como “construção pombalina” ou “gaiola pombalina”.
Sendo curta a memória do homem e não tendo ocorrido, por parte da natureza, chamadas de atenção suficientemente fortes, foi-se perdendo a urgência da utilização dessas medidas, abastardando-se os métodos – os prédios não caíam no dia-a-dia! – e piorando-se os materiais.
Já na segunda metade do século XX – e porque, finalmente, os engenheiros (os a sério e, infelizmente, os de aviário) passaram a ter um maior papel neste país – designadamente na construção -, a introdução de regulamentos específicos para a área estrutural e, nestes, de regras cada vez mais definidas e rigorosas no que concerne a soluções passivas “anti-sísmicas”, permite encarar com algum descanso a ocorrência de fenómenos sísmicos intensos. Vejam-se as assombrosas imagens de Tóquio, filmadas a partir de edifícios de grande porte, onde tudo abana mas nada (de importante) cai.
A panorâmica é, assim, esta: edifícios com menos de 45 anos com fortes probabilidades de ter danos médios a reduzidos; edifícios com mais de 45 anos com fortes probabilidades de ter danos médios a elevados ou mesmo derrocarem.
Perante uma carta de Lisboa e com algum conhecimento da cidade, é fácil identificar onde cada um destes grupos se insere. Se se cruzar esta informação com o tipo de urbanismo subjacente, isto é, tipo de arruamentos, sua largura e pendente, bem como a distância ao rio, será fácil obter uma caseira carta de risco da cidade a qual não será muito diferente das cartas oficiais que os Serviços de Protecção Civil deverão (espero eu) ter afixadas em permanência na parede e na memória.
O que há a fazer? Bom, dado que deitar metade da cidade a baixo para a reconstruir, parece inaceitável, recuperá-la decentemente é, dados os valores em causa, inviável, e abandoná-la (mais que ela já está) fora de questão, há que viver com a situação. E viver com ela é estar consciente dos perigos que acarreta esta vivência com edifícios mal preparados. Ora esta consciência só existe se fôr trabalhada – que é o que os nossos vizinhos japoneses fazem – através do conhecimento profundo quer do modo como se prevê que a cidade reaja quer da melhor atitude a tomar perante a situação.
É precisamente isso que me preocupa. Não sabemos como se comportará a cidade – porque esse conhecimento não é divulgado em profundidade pelo Estado – nem sabemos como nos comportarmos – porque os exercícios de protecção civil são inexistentes.



Eu tambem sou da opiniao que de facto pouco se tem feito e talvez ainda se tenha piorado a situacao com a ligacao do metro a Santa Apolónia, a CML tem feito intervencoes? tambem nao sabemos, eu nao sou especialista da area por isso gostaria de ler o que o governo via CML tem feito, sei que a protecao civil fez algumas intervencoes a nivel de informacao ás populacoes nomeadamente em Alfama, enfim esperar para ver.