Geração à rasca: o dia em que os deixaram passar
14 March, 2011 by Hermínia Saraiva

Liliana vai a meio da coluna, longe da faixa que marca o início do protesto, braços caídos ao lado do corpo. À frente do rosto leva um megafone que outra jovem segura. É Liliana que durante minutos marca o ritmo da manifestação: “Deixa passar, deixa passar. Eu sou precário e vim aqui para lutar!” É ela que dá o mote às poucas centenas de pessoas que seguem pela Rua da Prata, em Lisboa, depois de ter dado a volta pelo Terreiro do Paço, quando o dia já se faz noite. Anda nisto desde as três da tarde.
Aos 26 anos, Liliana Neves é há um ano estagiária numa instituição bancária. Não sabe sequer o que são recibos verdes porque o estágio não é remunerado. Licenciada em Ciência Política diz que teve “que se adaptar ao que o mercado oferece”. Como não recebe continua a morar em casa dos pais. Só não sabe por quanto tempo: “Não muito mais”, assume. Alternativas? “Provavelmente fazer como todos os meus amigos e ir trabalhar para um call center.” E Liliana, o retrato tirado a papel químico da “geração quinhenteurista”, da “geração à rasca”, segue rua acima de novo até ao Rossio.
[Fotografias de Tiago Figueiredo]
A manifestação da “geração à rasca” transformada no protesto de todas as gerações. Ainda os manifestantes se organizavam no Marques de Pombal e já David, quatro anos, segurava o cartaz negro com grandes letras brancas onde se lê “não aos recibos verdes da mamã”. Mesmo que David não saiba explicar o que é isso dos recibos verdes ou da precariedade. A mãe, arquitecta a recibos verdes há quinze anos, bem tenta lembrar-lhe o que explicou em casa, mas a timidez vence e da boca de David não saí nem um som.

São 14h56 é o trânsito é cortado na Avenida. Os manifestantes ocupam as quatro faixas junto ao Marquês, mas ninguém mexe e as primeiras palavras de ordem que saem dos megafones – “Nós só queremos ver os recibos verdes a arder” – saem tímidas e sem réplicas. A Avenida vai enchendo e quando um grupo de gaitas de fole, bombos e pandeiretas salta para o meio da estrada está dado o mote para começar a descer. Passam 25 minutos das três.

“Deixa passar, deixa passar. Eu estou na rua e o mundo vai mudar.” Délio Figueiredo, 29 anos, dá agora voz ao protesto. Atrás dele uma faixa onde se lê “esta é a nossa mossa de censura”. Délio é professor precário, está este ano a substituir um professor que se reformou e quando o ano lectivo chegar ao fim logo se vê como pagará as contas. Por agora divide a casa com cinco colegas. Todos na mesma situação.
A manifestação pára no cruzamento da Av. Alexandre Herculano, metros acima do cinema S. Jorge, onde mais manifestantes estão concentrados. António Chora, presidente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa vem a subir a rua. “Também há muitos precários no parque [industrial da Autoeuropa]. Nas empresas em que não há comissões de trabalhadores há precários”, diz para justificar a presença e fala em mais de 70% de precários num universo de 3.200 trabalhadores.

Entre milhares de anónimos – a organização fala de 200 mil pessoas presentes, a PSP contrapõe com 100 mil – umas quantas figuras públicas, Carvalho da Silva, Helena Roseta, Fernando Tordo, Daniel Oliveira. A escritora Rita Ferro está entre eles. “Estou cheia de orgulho dos jovens do meu país”, diz, “porque a crise não é justificação para todos os crimes, sobretudo o peculato”. Rita Ferro, para quem esta marcha “é uma maneira legítima de cuspir nesta gente”, junta-se de novo aos manifestantes. Repete as palavras de ordem em plenos pulmões, acompanha os manifestantes que recuam quando gritam “com este governo andamos para trás” e que no momento seguinte arrancam em corrida porque, gritam, “com a nossa luta, andamos para a frente”.
É um protesto multi-geracional e dizer que vai dos oito aos oitenta é muito mais do que uma frase feita. Os jovens por eles, “por um país mais justo, por melhores condições”. Os mais velhos porque estão cansados dos filhos que não têm um emprego estável, que recebem mal, que não há meio de saírem de casa. “Somos todos uma geração à rasca”, diz Carla Campos, 45 anos, mãe de filhos “que vão ser o futuro da actual geração à rasca”.

Passou uma hora e do metro da Avenida saem pessoas às golfadas, ao ritmo de cada carruagem que chega. Há famílias inteiras, muitos carrinhos de bebé, pais com crianças às cavalitas, reformados, desempregados, trabalhadores por conta de outrem com vínculo estável. E muita gente de máquina fotográfica na mão. Não faltarão registos do dia em que Lisboa se encheu em nome de uma “geração à rasca”.

A marcha continua lenta, enche a Praça dos Restauradores e lá ao fundo, junto ao Marques, não há meio de se ver o asfalto quando a dianteira há muito que entrou no Rossio. Pior será quando a carrinha de caixa aberta com os “Homens da luta” ali parar. Nada mexe, os manifestantes cantam com Jel e Falâncio, acompanhados por Fernando Tordo e Vitorino, “luta, luta, camarada luta”.
Os manifestantes chegam com dificuldade ao Rossio. Joaquim Sousa vai no meio da multidão. Tem 62 anos, é reformado e diz que ali está pela filha. Aos 35 anos continua a morar em casa dos pais, mesmo com um emprego de técnica de fisioterapia. Voltamos a lembrar-nos do que os manifestantes cantavam lá atrás, duas horas antes: “Salários a descer, em casa dos pais até morrer.”

A manifestação devia subir para o Largo Camões, eram pelo menos essas as indicações iniciais da organização do protesto, mas a frente da manifestação é parada pela PSP no Rossio. Aos poucos as pessoas chegam, sentam-se nos passeios, com ar de quem não sabe o que se segue. Depois começam a dispersar enquanto aumentam as filas na Ginginha e enche o McDonalds mesmo ali ao lado. No centro da praça, Paula Gil, uma das organizadoras do protesto, está no cimo de uma carrinha de caixa aberta. Praticamente sem voz, vai recebendo da mão dos manifestantes folhas A4 em que cada um diz ao que vai, conta a sua história, diz o que quer mudar. “Vamos fazer a vossa voz ser ouvida”, diz Paula à multidão com a ajuda de um megafone. Pede que não desistam.

A manifestação devia ficar ali. Eram as ordens da polícia que barrava o acesso à Rua do Ouro. Três horas depois do protesto começar, a polícia vai-se afastando. Com o caminho aberto, os manifestantes continuam em direcção ao Tejo, gritam palavras de ordem, entoam o hino nacional. À cabeça, Maria João, 50 anos, funcionária pública. “Eu terminei a minha manifestação, vou apanhar o barco para o Seixal, desloco-me da forma que eu quero e desloco-me em protesto”, diz entre palavras de ordem. Em frente à entrada para a Moda Lisboa, onde manifestantes e convidados se misturam, está um grupo de polícias. Perguntamos afinal como é, porque é que o protesto continua, porque é que os manifestantes enchem agora o Terreiro do Paço. “Dever, devia” responde o comissário Tiago Gonçalves com o encolher de ombros. “A manifestação é um direito. A nossa obrigação é garantir que as pessoas se manifestam em segurança”, conclui.
Maria João já vai a caminho do barco, antes disso reconheceu que tem sorte, tem um emprego, tal como a filha de 25 anos que também não está em situação precária. Está ali “por todos os jovens precários do meu país, pelos velhos que não têm dinheiro para comprar os medicamentos, porque há fome nas escolas… O que está a acontecer é o genocídio de um povo”.

[Adaptação da reportagem publicada na edição do Diário Económico de 14 de Março de 2011]



SHAME ON YOU MR. POLITICIAN!!! Vergonha, é a palavra que me vem à ente quando leio este post.. Há cinco anos atrás, já revoltado com a situação de podridão politica de Portugal, decidi ir morar para o chamado "terceiro mundo", para o Brasil… E encontrei um país que me recebeu melhor do que qualquer emigrante é recebido em ortugal; Um país que paga aos seus jovens salários melhores do que os de Porgual; Um país que trata os seus velhos e deficientes melhor do que em Portugal… E fico a pensar: Onde está mesmo o terceiro mundo???
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