A vista das grandes janelas que Costa está a colocar no seu gabinete do Intendente
9 March, 2011 by Diana Ralha
Rua dos Anjos/ Almirante Reis.
Uma pobre alma cai ao chão, lá ao fundo (não, não é entulho, nem lixo; é mesmo uma pessoa), na esquina com a Almirante Reis. Calças para baixo, rabo à mostra, poça de vómito junto à cabeça. São oito horas da noite. Estão nove graus. Cai uma cacimba e é só mais uma alma que assombra a avenida e o Intendente. Ninguém pára, ninguém vai chamar o 112. É todos os dias assim.
Já o disse – e volto a dizer: viver no Intendente é um privilégio.
Não preciso ter António Costa e a sua comitiva do outro lado da rua, quase janela com janela, para ter a certeza disto que escrevo, que tenho vindo a escrever, muito antes de qualquer decisão política populista que me viesse fazer mudar de ideias e inflacionar o preço do metro quadrado da zona.
Viver no Intendente é, também, por vezes, um inferno, mas o corpo habitua-se e ganha calo. António Costa, meu futuro vizinho da frente, na sua nova sede decidiu, por estes dias, pôr grandes janelas, alterando os perfis originais dos vãos do prédio que irá albergar a presidência da autarquia, e apesar da opção estética duvidosa, aconselho o meu presidente da câmara a espreitar à sua grande janela muitas vezes, para ver a vida a passar lá em baixo, no Intendente, e para perceber, sobretudo, que viver no Intendente não tem mesmo nada a ver com a muito frequentada Cervejaria Ramiro, na Almirante Reis 1.
Há quase três anos que a minha vida e a vida da minha família decorre entre o eixo Almirante Reis – Intendente – Anjos.
Vivemos no Campo de Ourique dos pobres e dos enjeitados, e perdemos já a conta das vezes que nos forçámos a virar a cara para baixo, olhos fixados na calçada artística maltratada e suja da nossa avenida, porque ali ao lado, mesmo ao nosso lado, jazem corpos caídos nas arcadas, por vezes deitados no próprio vómito, outras vezes tapados por cartões e cobertores imundos, mas muitas das vezes estão simplesmente caídos, seringa espetada no braço, à chuva, ao frio, ao sol cortante. Tanto faz. Ninguém os vê, maioria das vezes. Há mesmo quem já nem force o olhar para o chão, nem é preciso.
Ao longo destes três anos, passaram por nós demasiados mortos-vivos – lidamos com a morte todos os dias; ela está estampada em tantos rostos que por ali deambulam e demasiadas pessoas morreram no Intendente nestes últimos três anos.
Habituamo-nos a eles, aos rostos sem alma, acarinhamo-los até, e eu, que tenho um sono demasiado leve, oiço os seus esgares de sofrimento pela noite dentro (à noite dói sempre tudo mais um pouco) – os alarmes dos carros, as paragens de autocarro e as montras partidas, os pontapés dos caixotes do lixo, e os gritos. Os gritos da puta a quem não pagaram os serviços de aluguer de um corpo quase cadáver, e o mais incrível de todos os gritos que eu já ouvi: o do chulo, ou do namorado, ou do pai – eu sei lá, nem vale a pena pensar muito nisso – de uma puta, a gritar às cinco da manhã, sob uma chuva torrencial: tu és uma puta reles, tu és uma puta reles, como é que chupas piças por cinco euros!
E eu, cá de cima, cinco andares acima do solo, vista magnífica para o castelo, para a colina e para o futuro gabinete do Presidente da Câmara, um tecto trabalhado cheio de florinhas de estuque por cima da minha cabeça, a olhar lá para baixo e a pensar se isto é um Homem, cinco euros por um broche aos pés de minha casa, e se este é realmente o sítio onde quero educar os meus filhos a serem as melhores pessoas que consigam e tenham nascido para ser.
A pensar se é aqui também que quero deitar raízes como uma árvore (três anos depois, o que ainda me custa tanto é não haver pássaros e árvores a chilrear à minha janela, assim que o sol nasce e assim que o sol se deita – só se ouve uma surdina de eléctricos, o metropolitano a fazer tremer os nossos pés, carros, buzinas, sirenes, muitas sirenes e nada de pássaros) e viver feliz para todo o sempre neste quinto andar sem elevador, onde, por sorte, vive todo o amor do mundo.
Há um dia em que eles desaparecem, sem que nada o faça esperar, deixamos de ver os nossos mortos-vivos.
Pensamos: mudaram de sítio, mudaram de poiso, alguém os enxotou, melhor: alguém os internou numa clínica, e estão a melhorar, tentamos acreditar nisso. Eu tento, pelo menos… E ando sempre na esperança de encontrar o Hugo, o heroinómano com cara de Cristo, algures pela cidade – vejo-o amiúde em imagens de arquivo nos telejornais da RTP, no Terreiro do Paço –, ou o núcleo de arrumadores de carros de Rabo de Peixe que, de um dia para outro, desapareceram sem deixar rasto da rua Antero de Quental.
Passa um dia, e depois outro, e sabemos que nunca mais os veremos e que, dificilmente até alguém terá chorado por eles.
Mas é um privilégio viver no Intendente.
Por vezes, há palhaços na rua, sem que seja carnaval, e há pais natais ruivos, embriagados e sozinhos, a um canto do café, sem que estejamos na quadra festiva. Há o Rex, o extraordinário canídeo cujas façanhas e habilidades são enaltecidas pelo seu dono octogenário, já salvo da morte e de vários gandulos pelo seu monumental cão preto, que dá “passou bens” a quem passa pela avenida com a sua pata pesada, e que reza até a lenda que sabe mudar de canal da televisão com a mesma patinha.
Por vezes, não é só desgraças, a sério que não, e eu orgulho-me da minha avenida, quando ela se une e vai atrás do ladrão que roubou a jovem mãe que passeia com o filho ao colo. Por vezes, a avenida esquece-se do que dizem sobre si, e ergue de uma poça de vómito de vinho a martelo o velhote bêbedo que tresanda a uma mistura variada de excrementos e podridão.
Por vezes, até um grupo de mortos-vivos se junta à esquina da rua dos Anjos, num boteco imundo, e ao ver-nos passar, com toda a esperança naquela avenida, comentam, como estando perante uma visão, como se fôssemos anjos, ou quaisquer outros seres a quem se ergue um altar: “Até o cão é lindo nesta família. São todos tão lindos nesta família”.



vivi nessa zona durante 3 anos,mesmo ao lado do ginasio clube ia á igreija dos anjos as vezes ,fui ao ramiro muitas vezes,esse espanhol que esta ca á tantos anos connosco,passei pelos carochos,pelas prostitutas na esquina,quase ao pe da loja eletrodomesticos ,ia ao centro multinacional da mouraria,tanta beleza e ao mesmo tempo tanta degradaçao,mas adorei la estar,so saí por ter comprado casa na alta,estar ali é como se viajassemos pelo mundo inteiro,china,japao,india,russia,parabens pelo post
Vivo na avenida Almirante Reis há 4 anos e adoro vivê-la.
Eu e a minha mulher educamos a nossa filha de 2 anos e meio e o facto de ela conviver com a realidade não suavizada por um condomínio fechado qualquer vai permitir-lhe ser melhor pessoa, adaptar-se e resolver conflitos mais facilmente e ainda ser mais tolerante e compreensiva com o outro.
Adoro o facto dela conviver com todas as raças, feitios ou condições sociais.
Isso vai dar-lhe abertura de espírito e a polivalência tão necessária no futuro.
Se ela se desenrascar aqui, desenrasca-se em qualquer lugar!
Adoro ir à mercearia e a nossa filha saber dizer "olá, como está" em mandarim e a senhora Lin saber o nome dela. Ir ao café e todos a tratarem como uma princesa.
A princesa dos Anjos.
Não tolero faltas de respeito de ninguém e os toxicodependentes entendem isso.
Nunca senti insegurança nos Anjos/Intendente porque ninguém assalta à porta da sua casa e quem vê todos os dias.
Gostava é que a CML tivesse uma preocupação com a limpeza, que não tem. E é pena.
Muitos turistas descem a avenida e tiram fotos aos nossos centenários prédios mas depois vê-se o nojo com que olham para o chão imundo ou a quantidade de sem-abrigos que por lá pululam.
Alguns, tenho a convicção disso, são um perigo para a saúde pública e deveriam ser internados compulsivamente (como o caso do senhor engraxador que dormia ao lado da loja electroluar que se não tivesse sido internado ainda estaria "acamado" com hienas humanas a roubarem-lhe a reforma em troco de "protecção" – muitas vezes de madrugada safei o homem).
Muito poderia melhorar mas nestes últimos 4 anos a evolução foi bastante positiva, mais hotéis, mais lojas, mais pessoas (melhor custo/área/localização de Lisboa).
Vamos acreditar que os próximos anos vão ser ainda melhores.
Eu acredito.
Amo Lisboa.
Sou Tripeiro de coração.