Quem reabilita?

5 January, 2011 by  

O Bloco de Esquerda tem feito, há já algum tempo, uma campanha pela regeneração habitacional da cidade. Em vários edifícios devolutos ora estão penduradas tarjas, ora pintadas paredes, a apelar (“exigir”?) para a reabilitação.

O trinómio escrito só tem vantagens: “Reabilitar a cidade, baixar as rendas, criar emprego”. Quem não concorda com isto? Quem não deseja este sonho em toda e qualquer parte do mundo? E tem lógica. Uma cidade reabilitada, com mais casas disponíveis, aumentará a oferta face à procura, logo, se as regras de mercado funcionarem, baixará o valor das rendas. O emprego será directo e indirecto, pelos trabalhadores que se ocuparão das obras nos prédios e pelo comércio que será alimentado por uma cidade mais habitada, participada e fervilhante.

Mas falta-nos uma variável desta equação. Quem avança com o dinheiro? A Câmara Municipal em obras coercivas que depauperam ainda mais os cofres da autarquia? Os senhorios, sem garantia de ver o investimento compensado por uma subida de rendas?

Comments

22 Responses to “Quem reabilita?”
  1. moradora says:

    Pois!

  2. Para seres justo, devias dizer que a AECOPS (?) e o BPI (?) e o Governo (?) também querem criar 100000 postos de trabalho e investir não sei quantos pseudobiliões para fazer precisamente isso, e que, depois de construírem casas para 30 milhões de pessoas (e as auto-estradas e as criles para as pessoas poderem ir para essas casas de tiquitaca) descobriram a pólvora… Estamos a falar de casas devolutas, desocupadas: supõe um arranjo de 30.000 euros num apartamento, com empréstimo bonificado dos proprietários, e ao fim de 10 anos uma renda de 300 euros dá-lhes uma casa entretanto arranjada à borla e com algum lucro (enfim, mais do que o lucro da maior parte dos senhorios com as rendas congeladas).

  3. …mas é claro que tudo o que seja lucro inferior a 140% num prazo superior a dois anos não agrada a ninguém.

    Há por aí o mito urbano de que as mais-valias imobiliárias em países socialistas (como a Alemanha e a Inglaterra), decorrentes da mudança de solos rurais para urbanos ou da autorização de construção de 20 pisos onde havia 4, são taxadas a 100%, e não a 10 ou a 5…

  4. Tiago says:

    Vamos por partes, João. Em primeiro lugar, referi o BE porque as tarjas estão assinadas. Se omitisse essa questão estaria a ser injusto por não referir. Se refiro, tenho de explicar a quem lê que o erro de raciocínio é comum a vários quadrantes políticos? Não basta passear por Lisboa para se perceber que quase nenhuma política de regeneração funcionou?

    Em segundo lugar, sempre a relação complicada com os "malandros" dos senhorios. Tenho visto várias vezes discutir-se que as rendas são caras e que não há direito. Mas dois cenários se põem: ou a pessoa compra casa ou arrenda. E neste último caso, ou arrenda a um particular ou arrenda ao Estado.

    Eu concordo que o Estado, se fosse bem gerido por pessoas sérias e competentes, conseguiria fazer uma política de habitação que regenerasse os bairros e as cidades, com rendas mais baixas, de forma economicamente sustentável. Aliás, é para isso que o Estado devia existir, para cuidar do bem público, para fazer chegar a quem necessita, depois de esgotadas as possibilidades de o capacitar e autonomizar, a ajuda necessária a uma vida digna. E nesse aspecto, construir casas a custos controlados que fossem arrendadas a preços acessíveis parece-me uma ideia excelente. Mas atirar as culpas dos preços das rendas ou da degradação do edificado apenas aos proprietários parece-me menos bem. Tu estarias disposto a investir 30.000€ numa casa para ver cobertas as despesas só 10 anos depois?

    • moradora says:

      ou nem sequer durante a sua vida? Que é o caso de quem recebe rendas de 20 euros!

      • Como é óbvio, ninguém estava a falar desses casos… As casas que têm rendas de 20 euros estão ocupadas, e logo não são devolutas.

        Como também é óbvio, alguém se devia dar ao trabalho de mudar essa lei, e moralizar a coisa. E só ninguém o fez por (teoria da conspiração) causa do lobby das construtoras e por causa do lobby dos bancos, e do «monopólio rentista» (olha a cartilha outra vez) que lhes foi assegurado pelo PS, PSD e CDS, com a conivência do PCP e depois do Bloco — ao fim e ao cabo, desde os tempos dos kulaks que a esquerda leninista sempre gostou mais dos grandes potentados do que dos pequenos e indefesos proprietários.

  5. 1) Tendo-os abandonado há 10 anos, por ser mais lunático que os lunáticos, eu já me devia ter deixado de defender a cartilha — mas não foi seguramente a política de regeneração do BE que não funcionou (já que nas presidenciais se criou a mania de atacar por exemplo o PC por tudo o que foi aprovado no Parlamento nos últimos 30 anos, como que a pedir-lhes que passem à clandestinidade). Também não sei qual seria essa política de regeneração do BE (a partir do momento em que se defende que as SCUT não deviam ser pagas está tudo dito), e provavelmente não funcionava sem fuzilamentos e um programa máximo.

    2) Depois do prédio na Ferreira Borges que foi construído de raiz por 900.000 euros e que está desocupado há anos, e que só serviria para alguma coisa com mais 900.000 euros de adaptação, acho que a seriedade e a boa gestão e a competência não são de facto as melhores qualidades de quem anda por aí…

    3) Eu não tenho nenhuma casa a não ser a que custará três ou quatro vezes o seu preço e que entretanto é do banco, por isso não sei… Mas se um eventual proprietário o tivesse feito há 10 anos, não teria tido grande lucro, é certo, mas tê-lo-ia a partir de agora. Pedia ao banco, pagava com as rendas. Os que não o fizeram ganharam menos ainda (zero), e as casas continuam a precisar da mesma (de mais) reparação. E daqui a 10 anos continuaremos assim. Ah, é verdade, mas se entretanto a coisa cair faz-se por cima e ganha-se o décuplo — se ainda houver gente para tanta casa nova.

    • Tiago says:

      1) Repara, eu acho muito bem que o BE esteja a fazer este trabalho de inventariar casas devolutas, desocupadas, assinalando-as com as tarjas. É uma forma de pressão para uma chaga urbana que nos salta aos olhos. A questão é se o discurso é realista, se as propostas são exequíveis ou se é apenas um romantismo. A malta é fixe, junta-se toda, faz as obras e põe as casas ao dispor da população. Não sei… Apesar da boa-vontade, as variáveis são mais que muitas e a euforia popular já não é a de 1975.

      Ou então uma cena tipo SAAL, de auto-construção. Uma versão habitacional da reforma operária: "as casas a quem nelas vive!" em que os moradores se comprometiam a restaura-las.

      2) Não conheço o caso. Qual é o prédio?

      3) Continuo na mesma. Ou temos um Estado Social, com planos sustentáveis para a habitação, ou viveremos sempre a achar que quem tem casas para alugar tem de se substituir ao Estado Social.

  6. JP says:

    Alguém ainda se lembra do que era e para que servia a EPUL?

  7. http://www.publico.pt/Local/centro-de-dia-da-cama…

    E não me viste em lado nenhum dizer que tinha de ser o Estado (Social ou não) a fazer fosse o que fosse… (a não ser quando muito a taxar a 100% as mais-valias fruto de alterações de uso injustificadas, como rural-urbano e 4 pisos-20 pisos).

    Os proprietários podiam tê-lo feito, podem fazê-lo, e só não o fizeram ou não fazem porque………

    • Tiago says:

      Esta história do edifício é vergonhosa. É um bom exemplo de como a CML tem sido governada à vista envolta em nevoeiro, há muitos anos e há muitos mandatos. E um bom exemplo de como há muita gente que vive mais de metade da vida em cargos públicos a desbaratar recursos e a tomar decisões irresponsáveis. Depois é engraçado ver que não tratam dos seus rendimentos pessoais com a mesma leviandade.

    • Vasco Bravez says:

      isto é a chamada conversa de penico!

  8. Korn says:

    e da pesada!

  9. utroll says:

    é só trolls!

  10. .U3 says:

    zooooo ropa!

  11. Luis says:

    Porque não são onerados e sujeitos a taxas de manutenção os 'Proprietários' que deixam ao abandono o seu património colocando em perigo a comunidade?

  12. fxgeorges says:

    Pelo que o texto da notícia refere, não há qualquer qualquer fundamento teológico importante que seja posto em causa pelo texto. Provavelmente terão que alterar-se algumas expressões populares, mas não vejo sinceramente que dogmas ou princípis do cristianismo este texto possa contestar.

    E saltou-me à vista na notícia, a questão de o anti-semitismo ter raízes na traição de judas. Parece-me francamente estúpido, principalmente tendo em conta que Jesus Cristo era também judeu, tal como a generalidade dos apóstolos.

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