Antes que cheguem as chuvas
1 October, 2010 by Hermínia Saraiva

Mesmo sem EMEL, o estacionamento em Alcântara pode ser um verdadeiro inferno e, quando pensávamos que não poderia piorar, eis que nos põem à porta um agente da polícia municipal, que desenrola fitas brancas de uma ponta à outra da rua proibindo os carros de estacionar. É difícil de encaixar que seja ainda mais complicado deixar o carro do que nos dias normais, mas, pelo menos desta vez, conseguimos entender a restrição.
É que em Alcântara, pelo menos aqui na Rua Vieira da Silva, e ali ao lado no final da 24 de Julho, tem estado todas as manhãs um camião, barulhento, que empata o trânsito, que incomoda, a limpar as sarjetas. Pelo menos duas manhãs para cada sarjeta. Porquê só de manhã, não sei…
Nesta vida entre a Graça e Alcântara não sei se a prática se tornou comum em toda a cidade, mas quem aqui passou pelo menos um Inverno sabe o que significa ter as sarjetas entupidas. Sabe o que é sonhar quase diariamente com umas galochas, daquelas que usávamos na escola primária, sabe o que é chapinhar em verdadeiros lagos, rua fora, para chegar à porta do jornal e pensar que o melhor é trocar o carro por um barco, nem que seja a remos. Sabe o que é não poder sequer pôr o pé na rua porque a água está a mais de 20 centímetros do chão.

Habituados às alturas do Chiado estranhávamos, nos primeiros dias depois da mudança, que todas as portas, mesmo as que têm um degrau elevado, tivessem pré-instalados suportes para colocar barreiras de metal e borracha, com cerca de metro de meio de altura, daquelas que tantas vezes vi, em reportagem durante as cheias nas zonas ribeirinhas do Tejo, para evitar que o rio entre porta a dentro, sem ser convidado, de cada vez que Espanha resolve abrir as barragens. Estranhámos até ao dia em que o António, um dos empregados do café da frente, gritou ‘olha a onda’. Quem ouviu achou que era brincadeira até ver a água subir a rua, em sentido contrário, sem respeitar sinais de trânsito, entre o Largo de Alcântara e a 24 de Julho.

Com a rua transformada em rio, porque à chuva se juntou a subida da maré, foi preciso esperar longos minutos para poder voltar a atravessar de um lado para o outro. Mas a verdade é que nem é preciso a ‘onda’ para que a rua fique praticamente intransitável para peões, basta que chova um bocadinho. Dizem que é porque Alcântara está instalada num vale e que por isso leva com as águas que descem das zonas mais altas, mas as sarjetas entupidas não ajudam a resolver o problema.
Este ano, pela primeira vez segundo o Sr. Joaquim, uma espécie de porteiro que já faz parte da mobília do prédio onde entro todos os dias, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu limpar as sarjetas antes do Inverno, antes que cheguem as chuvas. Perante a perspectiva de não precisar de um barco ou de galochas para chegar ao trabalho, não ter onde estacionar parece-me de repente um mal menor.



Cara Herminia
Só uma pequena correcção, que aliás não invalida nada do sentido do seu texto: o que se está a limpar são os colectores e não as sarjetas. Por isso é que o trabalho é tão demorado. Por sucção e acedendo através das caixas de visita existentes no meio das vias, vai-se aspirando todo o lodo e detritos acumulados nos diferentes troços dos colectores.
Estou em crer que só se trabalha de manhã devido às marés que nessa zona entram pelos referidos colectores aquando da maré alta.
Não se trabalha de noite porque o barulho seria insuportável para quem estivesse a dormir.
Manuel Ferreira
Caro Manuel,
Obrigada pela rectificação.
De facto o barulho é ensurdecedor mesmo durante o dia, quando se mistura com o barulho do trânsito, nem quero imaginar à noite.
Ainda bem que este trabalho está a ser feito, porque para esta primeira quinzena de Outubro estão previstas chuvas com alguma intensidade, relacionadas com a "corrente perturbada de oeste", como os meteorologistas gostam de dizer.