A Alta e o repovoamento de Lisboa

14 October, 2010 by  

Muito se tem escrito e dito sobre o futuro das cidades portuguesas. Sobre a necessidade de reabilitar. Sobre a necessidade de desacelerar as novas construções. Muito se pensa sobre as vantagens do arrendamento e da aquisição de habitação própria.

O que eu penso é simples: no caso específico de Lisboa há espaço para tudo isto.

Porquê?

Por um lado pela evolução demográfica. Porque as pessoas são diferentes umas das outras e têm, consequentemente, necessidades também diferentes. A família típica – pai e mãe e um par de filhos – já não representa a totalidade da sociedade.

Por outro, porque Lisboa precisa de mais gente para se tornar sustentável financeira, social e ambientalmente.

Há que concentrar mais a população que já vive na área metropolitana e inverter a dispersão para evitar investimentos absurdos em serviços muito dispersos como as redes de transportes que só funcionam, a plena carga, meia hora de manhã e outra meia hora à tarde. Já para não falar da extensão das redes de saneamento e de energia pagas por todos nós. Engane-se quem pense que as taxas urbanísticas cobradas aos construtores cobrem estes custos.

Por isto reafirmo, há espaço para tudo e a Alta de Lisboa, tal como outros bairros menos centrais da cidade, assume uma importância estratégica a par da reabilitação da zona histórica.

Coloco ambas as situações em paralelo apenas do ponto de vista da distribuição demográfica, pois a reabilitação do centro histórico tem de ser uma realidade contínua, pois é aí que reside a parte fundamental da “alma” da cidade. Sem essa “alma” a cidade definha e torna-se desinteressante, igual a todas as outras.

Considero agora 2 evidências, que constam de documentos que serviram de base à revisão do PDM:
-Lisboa perdeu 300 mil munícipes em 3 décadas.
-A taxa de natalidade em Lisboa devido ao envelhecimento da população é negativa, logo não vai haver mais lisboetas só por termos mais filhos.

Então como vamos aumentar o número de munícipes nas próximas décadas?

Do ponto de vista de reabilitação urbana, os planos que me parecem ter maior impacto na habitação serão os da Baixa Pombalina e Av. Da Liberdade, pela sua extensão e número de prédios devolutos.

Os planos de recuperação destas áreas estimam que, se tudo corresse bem, com a ocupação máxima de todos os espaços com capacidade para habitação, existiriam daqui a 10 ou 20 anos mais 20 mil habitantes do Marquês para baixo.

Este valor, extremamente ambicioso, representa menos de 7% dos 300 mil que abandonaram a capital.

Não será fácil, será mesmo impossível, recuperar os restantes 280 mil. Mas Lisboa ainda tem capacidade para atrair novos habitantes, nomeadamente com o desenvolvimento de empreendimentos urbanos de excelência nos bairros menos centrais, dentro da cidade:

+ 5 mil no Parque das Nações

+ 5 mil em Alcântara

e destacadamente
+ 30 mil na Alta de Lisboa

É preciso ter em conta que empreendimentos de excelência não são condomínios privados, mas sim o conjunto habitação que o cidadão comum pode pagar + bons serviços de proximidade + espaço público de qualidade. Este trio é muito difícil de encontrar.

Obviamente, o tecido urbano existente nas zonas históricas será aliciante para jovens e pequenas famílias, que procuram arrendar casa no centro de tudo.

Os bairros menos centrais da cidade, mas ainda assim no coração da área metropolitana, serão as zonas preferidas por famílias mais numerosas e/ou indivíduos que desejam mais sossego e habitações mais modernas, sem descurar as boas acessibilidades.

Por tudo isto, estou convicto de que o futuro da Alta de Lisboa será risonho. Contudo, para que estas imagens se materializem, precisamos de uma CML que perceba o posicionamento estratégico da Alta e doutros bairros semelhantes para o repovoamento da cidade e que seja célere nos processos de loteamento, na tomada de decisões.
Precisamos de uma CML e de uma SGAL com verdadeira vontade de concretizar o PUAL e os inúmeros planos e projectos que teimam em não sair da gaveta, alguns que ultrapassam as fronteiras da Alta integrando-a na cidade:

-Centro Social da Musgueira
-Metro de superfície
-Centro de Saúde
-Escolas, infantários e creches
-Piscinas
-Hortas urbanas
-Bombeiros
-Centro logístico e de mercadorias
-Av. Santos e Castro
-Porta Sul
-Ligação ao Campo Grande
-Plano pormenor da Estrada da Torre
-Reabilitação da Azinhaga da Cidade e respectiva rua particular
-Ligação pedonal ao metro da Ameixoeira

Relembro que para este último, a votação em massa no orçamento participativo pode ser determinante.

Bibliografia:
Baixa-Chiado: Proposta de revitalização – 2006
PUALZE – 2009
PUAL – 1996
REOT – 2009

Comments

4 Responses to “A Alta e o repovoamento de Lisboa”
  1. Pedro Veiga says:

    Gosto especialmente desta frase:
    "Precisamos de uma CML e de uma SGAL com verdadeira vontade de concretizar o PUAL e os inúmeros planos e projectos que teimam em não sair da gaveta, alguns que ultrapassam as fronteiras da Alta integrando-a na cidade".
    Se tivesse havido força e vontade a Alta já estaria hoje noutro plano de desenvolvimento e seria certamente muito mais atractiva.
    Parabéns pelo texto!

  2. nuno martins says:

    Essas fotos são muito interessantes. Era porreiro um post que mostrasse essas e outras fotos que possam existir das diferentes malhas que estão por construir, acompanhadas de um texto que explicasse o que irá ser cada uma delas (e se possível com datas de início de construção/ conclusão). Eu, pelo menos, ficaria agradecido a quem o fizesse.

  3. JOSE RAMOS says:

    lisboa merece ser repovoada ,uma vez que e uma cidade desenvolvida a ninel europeu! mas nao nos podemos esqueçer a baixa pombalina que tem perdido muitos dos seus habitantes por isso a autarquia nao se esqueçer desse problema .lisboa deve continuar a crescer para ser uma cidade de referençia anivel mundial.

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