Crónica de uma morte anunciada – O Prédio Tudor morreu esta semana.

23 September, 2010 by  

Quatro anos depois de ter escrito este texto, no Público [de facto, eu fazia poesia e não jornalismo], o meu devoluto favorito – o antigo prédio da Tudor – foi demolido. Deixo-vos a minha última homenagem, publicada em Outubro de 2006.

É um estranho prédio, com dois andares recuados face ao passeio e que tem, à entrada, um grande jardim selvagem enraizado num fosso. A um passo do Marquês, está entalado entre duas torres de onze andares, na avenida Fontes Pereira de Melo. O seu último inquilino abandonou-o esta semana, deixando à porta mais de cem anos de vida que não cabem no apartamento moderno para onde se mudou. Lá dentro, fechadas e suspensas num tempo em que o Marquês de Pombal era zona residencial nobre, ficam paredes forradas a azulejos pombalinos e tectos com bonitos frescos que parecem ter sido pintados ontem. Por pouco tempo. Crónica de uma morte anunciada. Por Diana Ralha

“Estava sempre à espera que saísse de lá um dragão.” Uma funcionária da empresa de baterias Tudor, que trabalhou durante catorze anos no mais pitoresco e até um pouco bizarro edifício da avenida Fontes Pereira de Melo, com o número doze afixado no portão, recorda-se dele assim – quase mágico, com as suas duas passadeiras aéreas de ferro, pelas quais atravessava, todas as manhãs, por debaixo de uma pérgula de rosas plantadas no quintal, para poder chegar ao seu local de trabalho.

Pelo menos, foi assim que o recortou e afixou na parede das boas recordações; é assim que o descreve, de imediato, quando pedimos para abrir o baú das suas memórias. Há uma década que esta mulher não vê, ou entra no prédio onde o seu imaginário acreditou que se escondiam criaturas míticas. A Tudor fechou os seus escritórios de Lisboa há mais de 15 anos e centralizou a sua operação comercial na fábrica de Castanheira do Ribatejo, onde trabalha desde então.

No portão do número 12 da avenida Fontes Pereira de Melo, porém, a Tudor ainda é relembrada através de um grande reclame de neon da marca de baterias que, certamente, ainda povoa o imaginário de muitas lares portugueses, pelos catitas calendários de cozinha que a empresa distribuía um pouco por todo o Portugal.

O enigmático edifício parece uma pequena moradia, de dois andares e águas-furtadas. Está recuado e “afundado” face à Fontes Pereira de Melo, e apenas se lhe acede por passadeiras de ferro que seguem à altura do seu segundo andar. Mas o número 12 é um falso pequeno prédio – o edifício tem as suas raízes nas traseiras da larga avenida de Lisboa, no Largo de Andaluz, e são cinco altos andares que o sustentam.

Em ambas as frentes do edifício há vidros partidos nas janelas, e quase todas estão fechadas com tábuas de madeira pregadas às portadas. A compor o cenário fantasmagórico, há uma glicínia ainda em flor, que afaga quase toda a largura e altura da fachada do prédio. No gigante quintal, dois pinheiros e um limoeiro crescem sem rédeas numa avenida caótica, entupida pelo trânsito a qualquer hora do dia.

A funcionária da Tudor lembra-se, ainda, de uma Fontes Pereira de Melo diferente, e, nclusive, de um internato de freiras para raparigas que funcionava no lote ao lado do seu local de trabalho, onde há pouco tempo foi erigido e aberto ao público o Hotel Sana.

Não sabe, esta mulher, mas também não estranha quando lhe contamos que o “prédio de antigamente”, onde trabalhou 14 anos da sua vida, tenha sido votado ao abandono e à mercê da pressão imobiliária de uma das principais artérias da cidade, emparedado entre duas torres de onze andares. É dos últimos filet-mignons da avenida.

Finalmente devoluto

Existia, até quarta-feira, um único inquilino do desolador prédio onde a Tudor deixou para trás o seu reclame publicitário luminoso. No Largo de Andaluz, à altura do segundo andar e à largura de toda a fachada, seis janelões pintados de verde e branco, muito brilhantes, rasgados numa fachada estragada e desbotada, denunciam que alguém resistiu a viver na solidão de um prédio que já tem pouco de mágico e muito mais de fantasma.

Vendido recentemente, o número 12 da Fontes Pereira de Melo, assim como o conhece a avenida há pelo menos cem anos, tem os seus dias contados. O seu último inquilino, abandonou-o esta quarta-feira, deixando muito passado para trás, à porta da entrada do Largo

de Andaluz (dificilmente se colocam mobílias de uma casa com mais de uma dezena de assoalhadas de áreas generosas, com pé direito de cerca de quatro metros, num típico T2, situado algures na cidade). No lixo jaziam, também, dezenas de desenhos Arte Nova, assinados e datados da década de 1910, de um artista chamado Francisco Madeira Teixeira.

Com a fachada muito degradada, não se percebe de que magia poderia estar a falar a funcionária da Tudor. E é só aproveitando a oportunidade de a porta do edifício estar aberta, que tudo passa a fazer sentido: uma escadaria de madeira, com arcos de cantaria, e largura de mais de três metros; portas da mesma altura e as paredes forradas a azulejos pombalinos. Do passeio, a janela aberta do último inquilino do prédio mostra tectos com frescos ainda muito vivos, como se tivessem sido pintados ontem.

Na câmara não entrou ainda qualquer pedido de informação prévia ou projecto de arquitectura para apreciação, mas o imóvel não está classificado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar), apesar dos seus magníficos azulejos, cantarias e bizarra configuração.

Neste quarteirão da Fontes Pereira de Melo, o PDM permite, actualmente, a construção de uns oito pisos (25 metros), embora tenham sido autorizados 11 mesmo ao lado. E esta é a mesma avenida onde se estuda o nascimento, num outro quarteirão mais chegado ao Saldanha, em frente ao Sheraton, do maior edifício de Lisboa: a Torre Compave, com 105 metros de altura, da autoria do catalão Ricardo Boffil. Está, aliás, a ser elaborado, pela autarquia, um plano de pormenor para a Fontes Pereira de Melo, tendo sido abandonada a intenção de fazer um plano de alinhamento e cérceas – como aquele que foi feito para a Avenida da República –, que inviabilizava a construção do imóvel da autoria do arquitecto que desenhou o Saldanha Residence.

As zonas da Avenida da República e da Fontes Pereira de Melo – o eixo que liga Entrecampos e o Marquês de Pombal – foram definidas, em 2003, num estudo conduzido por Augusto Mateus (ex-ministro da Economia e actual membro do comissariado que planeia a revitalização da Baixa-Chiado), como tendo condições para se tornar um dos principais centros de negócios da cidade.

Quando a janela do último inquilino daquele prédio se fechar, acaba a história de um dos último resistentes centenários da avenida baptizada com o nome de um dos principais políticos da segunda metade do século XIX, que, provavelmente, ainda chegou a conhecer o edifício. Na memória de uma mulher, aquela será sempre a casa de onde nunca chegaram a sair dragões.

Comments

3 Responses to “Crónica de uma morte anunciada – O Prédio Tudor morreu esta semana.”
  1. Manuel Ferreira says:

    Em frente, na mesma avenida, depois de muitos anos de sobrevivência, também está a ser demolido o(s) palácio(s) da esquina, durante muito tempo propriedade do Banco Pinto e Sotto-Mayor.

    Assim vai a gestão urbanística desta cidade.

    Como é que vamos estar daqui a 3 anos??.

    Será que de seguida vai começar a Torre Compave??

    MAFF

  2. plages says:

    Quando passava a pé pela Avenida, por ali parava sempre um pouco a apreciar o edifício…

  3. ana estevens says:

    De facto, quase me apetece chorar quando olho para os magníficos edifícios desta cidade que aos poucos vão sendo demolidos!

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