Murais no Museu

6 August, 2010 by  

A exposição “Murals. Pràctiques Murals Contemporànies” (Murais. Práticas Murais Contemporâneas) que esteve patente na Fundação Joan Miró em Barcelona, ofereceu um passeio pelas práticas murais de diversos lugares do mundo através das pinturas feitas nas gigantes paredes do edifício concebido por Josep Lluís Sert.

A directora desta instituição, Rosa Maria Malet, refere dois factos que por si só, justificaram esta exposição. Em primeiro lugar, sublinhou a relação que Joan Miró estabeleceu com o muralismo. Como refere a directora, “Joan Miró dava um significado muito especial à obra mural. Para ele tinha um valor de obra colectiva, não no sentido político mas no sentido social, já que é óbvio que a obra mural, devido às suas dimensões, não está destinada a um uso individual”. Em segundo lugar, ela afirma que actualmente o interesse por esta forma de expressão artística possui uma grande vitalidade.

Martina Bernad, a comissária do projecto, afirma que esta exposição foi impulsionada pela “consolidação dos graffitis e de outras formas de arte de rua” que têm tido atenção em instituições artísticas de renome internacional como a Tate Modern de Londres e a Galeria Nacional de Arte Zacheta de Varsóvia.

O muralismo é fenómeno mundial. Imagine-se o trabalho de selecção de apenas algumas das “práticas murais” que existem no globo. Os constrangimentos relacionados com o espaço ou com a vinda dos artistas a Barcelona para pintar os murais obrigaram a comissária a fazer uma selecção reduzida destas práticas, mas não por isso pouco “eclética”.

Nesta exposição pudemos contemplar um exemplar da tradição mural pictórica das mulheres soninke, da África Ocidental ou um mural colorido e geométrico do alemão Lothar Götz, assim como um jogo de peças de graffiti elaborado por Scope One de Singapura e pela UTR Crew de Sarajevo. O mural de hera instalado no jardim da Fundação, da autoria do mexicano Jerónimo Hagerman, pretendia provocar uma reflexão sobre a transformação radical do muralismo mexicano.

Este projecto envolveu a elaboração in loco de todos os murais expostos. A exposição “Pràctiques Murals Contemporanies” é mais uma prova de que as intervenções artísticas de rua usufruem de um interesse e prestígio crescentes no campo da arte. O Centro Cultural de Belém organizou uma exposição de arte urbana com os trabalhos dos fantásticos “Gêmeos” de São Paulo. Mas não será mais urgente reconhecer e desenvolver também estas práticas na rua, o seu contexto por excelência?

Rosa Maria Malet (dir) (2009), Murals. Pràctiques Murals Contemporànies (catálogo da exposição), Fundació Joan Miró, 179 pp.

http://www.fundaciomiro-bcn.org/

créditos das fotografias:
1ª foto

Coopérative Féminine de Djajibinñe Gandega “Djida”
Ganni Bekhindé ado wacha djabandé, 2010
Foto: Pere Pratdesaba

© Fundació Joan Miró, Barcelona

2ª foto
Lothar Götz
Winterreise, 2010
Foto: Pere Pratdesaba
© Fundació Joan Miró, Barcelona

3ª foto
Nuria + Eltono
Diálogo
Foto: Pere Pratdesaba
© Fundació Joan Miró, Barcelona

Comments

One Response to “Murais no Museu”
  1. Graça says:

    Não posso deixar de me lembrar da exposição que ainda está em exibição no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, “Pinturas cantadas: arte e performance das mulheres de Naya”, que mostra longas tiras de papel pintadas por mulheres desta aldeia de Naya, que fica no Estado de Bengala, na Índia. O acto de pintar, neste caso, é acompanhado por históriasque se cantam – como bem se pode ver no belo filme, com o mesmo nome, dos antropólogos Lina Fruzzetti e Ákos Östör, a quem devemos esta recolha. (http://www.mnetnologia-ipmuseus.pt/Exposicao.html…
    Formas de arte colectiva que surgem do interior de grupos e comunidades que, tanto nas ruas de Lisboa ou de Boston, como em aldeias na India, nos desafiam a pensar o acto de criação artística de maneiras mais abrangentes e integradas.
    Obrigado, Lígia, por este post inspirador!

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!