quando havia tempo para criar laços
29 July, 2010 by Tiago Figueiredo

Se quisesse voltar à casa onde vivi 25 anos da minha vida, precisava de ter seguido caminhos diferentes nesse período, devia ter feito opções académicas e profissionais mais calculistas e menos românticas e diletantes. Aquela casa lá de cima à direita, com uma varanda entre duas janelas, foi vendida por “cem mil contos”, disseram-me as vizinhas que ainda me reconhecem e não percebem que respondo evasivo às perguntas que fazem.
Voltar a morar naquela casa de 5 assoalhadas com uma vista maravilhosa para o Tejo está fora de questão, desmentindo os prognósticos que um colega meu fazia por em 90% das tentativas, num raio de uns 500 metros em redor do Conservatório Nacional, ter encontrado lugar para o carro nesta rua, muitas vezes em frente à minha porta. “Isso é um sinal, ainda vais voltar para aqui.”, dizia ele, quando regressávamos a pé depois das aulas. Falhou nas coordenadas.

Há qualquer coisa de gentrificação neste processo. Não ganho menos do que os meus pais ganhavam, mas não posso aspirar a viver numa casa igual, no centro de Lisboa. Onde estão os filhos deste bairro? Donde vêm os casais bem sucedidos que podem pagar cem mil contos por uma casa?
Tudo mudou, de há uns anos para cá, e na minha cabeça estão em conflito estas memórias e vontades de reviver espaços. Nesta rua passava todas as semanas uma carroça puxada por um cavalo, com um senhor que vendia verduras lá do terreno dele, algures nos arredores de Lisboa. Vinha de carroça sei lá donde, talvez ali dos lados do Alto do Lumiar, onde dizem que havia umas quintas, atravessando a cidade entre tubos de escape e buzinas, sem que isso fosse notícia de jornal como seria hoje. E parava na minha rua, as mulheres desciam as escadas dos prédios e regateavam o preço. Às vezes desistiam. “Careiro! Assim vou à mercearia que o preço é mais baixo.” O cavalo que puxava a carroça, entretanto, aproveitava a pausa para largar uma bosta de recordação que ficava ali pelo menos um dia. A bosta de cavalo tem um cheiro curioso, não chega a ser desagradável. Não precisei de fazer equitação, como os meninos mais ricos de hoje, para ficar com a memória do cheiro. E isso é bom.

E depois havia esta rua íngreme, a Rua da Palmeira, onde, nos últimos anos de vida, o 39, um autocarro de dois andares que saía de S. Bento e dava a volta em Moscavide [também isso mudou. era uma gigantesca zona industrial, cinzenta e prateada de tantos ferros e tubos e chaminés a deitar fumo e fogo], se queixava de ter de a subir e parava a meio. O motorista pedia às pessoas para sairem e voltarem a entrar uns metros mais acima, logo a seguir à “Sevilhana”, do falecido Sr. Manel, que uma vez por mês deixava negros os olhos da mulher.
Estes lugares parecem ter um visto de imunidade estética que os faz passar pelas costas dos alfandegários do meu sentido crítico. Estão no baú dos imprintings de infância, aqueles que não questionamos, não julgamos nem testamos, por manifesta incapacidade do hemisfério esquerdo vencer o direito. É um amor incondicional e recíproco. Uma cidade que nos recebe com ternura e nos perdoa os anos de afastamento.

Não sabemos, mas estamos presos a ela, para sempre. As pedras que nos contam histórias, os bancos onde nos lembramos, as ruas que percorremos, um eléctrico ronceiro que nos transporta de uma colina a outra, dando-nos tempo para olhar e criar vínculos afectivos.



belo texto Tiago!
Excelente texto, Tiago! que rua é esta? eu também vivi na Rua da Palmeira…. e vivi mesmo em frente ao Conservatório … e sinto por vezes estes apelos da memória e dos sentidos que tão bem descreves.
Hoje encontrei uma foto na Flama que me parece o teu pai. Vou mandar-ta para confirmar.
É a Rua Eduardo Coelho, diagonal à Academia das Ciências. Pequeno paraíso na Freguesia das Mercês.
Manda-me essa foto, Júlia. 🙂
A primeira casa onde vivi com a minha mulher foi numa mansarda arrendada de 30m2 na Rua Eduardo Coelho. Tinha a mais deliciosa varanda em que já vivi e uma vista deslumbrante sobre a Igreja das Mercês e que ía até ao fim de Lisboa. Foi há 15 anos. Recordo com saudade os jantares na varanda, as compras na mercearia em frente, os pequenos almoços numa padaria da Rua da Rosa, as idas a pé pelo Bairro Alto até aos Restauradores. E sobretudo, os finais de tarde no Verão em que a cor era difícil de definir. Foi um dos melhores paraísos onde vivi.
É verdade, Tiago, estamos presos a esta cidade para sempre. Com este céu tão azul, a sua cor inconfundível, estas ruas, estas casas que falam por si, como poderia ser de outro modo? Numa cidade como esta haverá sempre tempo (e espaço) para criar laços, mesmo em tempos adversos. Sem dúvida.