Eu ouvi e também quero fazer-me ouvir
13 July, 2010 by Luís Magalhães

Depois de ler uma série de comentários ao post “A Alta de Lisboa está a fervilhar. Quem ouve?” fui escrevendo umas linhas e o resultado foi este.
Em primeiro lugar, os parabéns à Ana Barata, ao CSM e ao GCAL por esta e outras iniciativas que tanto dignificam o nosso bairro.
Em segundo lugar, eu próprio não gosto de tudo o que vejo na rua. Teria que ser um pouco cego ou parvo para gostar de tudo. Por vezes também digo que há pessoas que não merecem as oportunidades que lhes são dadas. Mas isso acontece aqui e infelizmente na maioria das zonas urbanas que conheço. E também noutras áreas da vida.
Não podemos tolerar o crime, o vandalismo, a corrupção, a falta de interesse, nem aqui nem em qualquer outro lugar. As autoridades têm de actuar depressa e bem, com todos. Depende de todos fazer chegar as nossas preocupações a quem de direito, pressionar a decisão.
Mas, em terceiro lugar, a Alta não é um bairro qualquer. É mesmo especial. É um bairro gigante, com 300 hectares e cerca de 30 mil habitantes, dos quais metade é pobre e na sua maioria sofreu um processo de realojamento sem acompanhamento e formação no final da década de 90.
Com estas premissas, gostaria que seguissem mais estes três pensamentos:
– Imaginem que a maioria da população realojada era mal comportada e provocava má vizinha.
– Imaginem toda a população a viver nas mesmas condições de pobreza e ostracismo. Eu por vezes imagino-me e não gosto do que me vem à cabeça. Seria eu a mesma pessoa? Teria eu os mesmos comportamentos de urbanidade que tanto prezo? Se calhar não e tenho a certeza que muitos dos menos pobres em dinheiro seriam iguais ou piores. Basta olhar à nossa volta, uma falta de civismo generalizada.
– Imaginem o que seria viver num bairro assim sem o empenho de pessoas e instituições como o CSM e outras que fazem parte do GCAL.
Já imaginaram a desgraça que seria?
Eu teria medo de sair à rua, mas não tenho.
Eu não quereria morar aqui, mas hoje compraria casa aqui de novo.
Nas questões sociais é difícil separar o preto e o branco com uma linha estreita. Há anos que se discute porque é que existem bairros problemáticos. Há anos que se chegou à conclusão que a mairia dos problemas surge na forma como estes são pensados, implantados e acompanhados. Se calhar é mesmo assim, o Homem, fora de um contexto de conforto, bem estar e integração social, assume comportamentos desviantes. A sociedade em geral tem que fazer um sacrifício para minimizar esses comportamentos. É o custo que temos se queremos um estado social. Senão implementamos um sistema totalmente liberal e depois, depois logo se vê se a desgraça vier-nos bater à porta.
Os nossos desejos chegarão aos ouvidos certos, mais cedo ou mais tarde, porque temos no bairro pessoas que se fazem ouvir.
Eu ouvi o que o Grupo Comunitário da Alta de Lisboa disse no dia 29 de Maio e retribuo, reclamando e levantando os problemas a quem de direito, quantas vezes for necessário.
Mais uma vez, parabéns às instituições que estão empenhadas a melhorar a nossa vida.



Quando as pessoas sentem que o seu destino esta nas suas maos e nao nas maos de um despota camarario, nao temos o caos temos LIberdade!
A maioria das pessoas do nosso bairro nao sao pobres. Tem na verdade mais cash flow que eu!
Um dos dramas do estado social e termos muitos beneficiarios e poucos contribuintes.
E por favor nao me venham dizer que os ricos que paguem, porque o unico rico em portugal e vendedor de chouricas e nem sequer monta uma banca aqui no bairro.
Temos uma fortuna no bairro: potencial humano!
As pessoas que compoe o nosso bairro sao todas migrantes. Houve uma selecao natural/social. As pessoas que moram aqui esvolheram viver aqui e isso implica risco, ser afoito, aventureiro. Uns imigraram nos anos 70, outros nos anos 80 e outros ja nesta decada.
Mas ha uma coisa que todos temos em comum. Escolhemos este territorio porque acreditamos que aqui dariamos um futiro melhor aos nossos filhos.
Outro as pecto interessante e a omnipresenca das mulheres.
Nas escolas, no pequeno comercio, nas organizacoes de base local, na rua.
Temos muitos ingredientes para o sucesso. Deem-nos liberdade e operaremos milagres!
Se fosse humanamente possivel ja tinhamos concluido a santos e castro. O eixo central. Replantado as arvores mortas ou arrancadas pela forca do vento.
Se nao me apavorasse o empreendorismo ( heranca de uma formacao socialista) ja tinhamos aberto varios negocios.
Pavimentado as ligacoes do parque oeste a ameixoeira. Criado um autocarro que nos levasse a piscina da ameixoeira.
Infelizmente todas estas pequenas coisas dependem de pessoas pagas por mim mas que preferem nao me ouvir e estonteantemente continuam a ganhar eleicoes.
Um pouco fora de contexto mas…onde fica a piscina da Ameixoeira?
Ola
Fica na rua professor carlos adelino da palma.
Tem uma paragem de autocarro em frente e fica no mesmo alinhamento que a pista de atletismo mas do outro lado do eixo norte sul.
Quase que da para ir a pe! De autocarro temos sempre que apanhar 2
As instalacoes sao maravilhosas e os servicos prestados perfeitos.
Os meus alunos e o meu filho enquanto aluno da 34 praticaram la natacao durante 6 semanas.
Uma maravilha!!!!!!!!!!!?
o meu obrigada tb a todos os que se preocupam e participam para que o nosso bairro evolua e continuo a afirmar,nao tenham medo de sair á rua,eu tb nao concordo com a politica atual de muitos benefeciarios e pouco contribuintes,tenho pena de nao poder tomar o pequeno almoço no cafe todos os dias de manha e ficar num dolce faire niente e paggar 5 ou 10 euros todos os dias,pois tenho de contar os tostoes para conseguir pagar minha renda de casa comprada e nao de realojamento,mas posso beber um cafe num dia de folga e tentar fazer o mesmo que os outros,e perceber que sao pessoas simples,humildes,simpaticas e muito prestaveis,eu sintome quase como numa aldeia pois eu saio á rua e tenho gente a darme a saudaçao e a perguntarme pela minha filha,pesoas que eu nem me lembro de as ver e muito menos falar,á 5 anos isto era muito mau sim,mas cada vez esta a melhorar mais depende de todos nos,seja aqui pelo viver ou apenas a nossa visita ao cafe para comprar pao,as pessoas estao cada vez mais a unir-se….
Obrigada, Luís!
É esse o espírito: “reclamar e levantar os problemas a quem de direito quantas vezes forem necessárias”. Nunca desistir e quantos mais formos, mais depressa seremos ouvidos.
Como tu, também eu não gosto de tudo o que vejo. Nem na Alta nem noutras zonas de Lisboa. A questão é saber como nos posicionamos perante isso. Podemos só rezingar e achar que “não merecem nada”. Ou podemos tentar mudar o que está ao nosso alcance mudar. É essa a opção do CSM e do GCAL, onde mais de 30 instituições não se conformam.
A Alta tem clivagens sociais, sim. Tem pobreza também, Ana. E tem desocupados, “beneficiários”, mas também tem muitos contribuintes. Os primeiros serão mais visíveis do que os segundos, mas também é aí onde poderemos todos concentrar maiores esforços para contrariar isto. Porque esses esforços estão muitas vezes ao nosso alcance e porque, tal como dizes, temos potencial humano para o conseguir.
Tal como disse no outro post, no dia 29 foi feito um protesto e um estender de mão. Estendemos todos a mão para dizer que estamos dispostos a não desistir e a fazer a nossa parte e reclamámos que as entidades competentes façam a sua. Até porque se todos se concentrassem na resolução dos problemas com igual empenho, muitos deles estariam já ultrapassados.
Teremos então que gritar mais alto ou com mais vozes. Vigilando, participando, exigindo, envolvendo-nos na mudança e levando outros a envolver-se. E esta vontade terá de ser de todos, independentemente da bolsa ou da ocupação de cada um, e provavelmente terá de ser teimosa.
Até que enfim alguém começa a perceber o porquê de tanta revolta e destruição, sem apontar logo o dedo.
Só assim com esta linha de pensamento se muda mentalidades, não é estar sempre contra tudo e todos que vamos lá.