Um casamento de t-shirt
9 June, 2010 by Carlos Moura-Carvalho

Dois casais homossexuais uniram-se pelo civil, ontem, no dia em que entrou em vigor a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Teresa e Helena, às 09.40, em Lisboa e dois homens, na 4.ª Conservatória do Registo Civil do Porto, por volta das 15.00.
A lei promulgada pelo Presidente da República, Cavaco Silva, a 17 de Maio, entrou ontem em vigor fazendo de Portugal o oitavo País do mundo a permitir as uniões gay.
Helena e Teresa, que celebraram a cerimónia na 7.ª Conservatória de Lisboa, casaram rodeadas de câmaras de televisão e um batalhão de jornalistas, como convinha.
Não penso que faça sentido este espalhafato todo numa altura como esta que vivemos. Não faz sentido tanta notícia, tanta preocupação, tanta opinião, tanto show mediático.
Há uma inversão tão grande dos valores. Do que é essencial e do que é acessório. Do que vale a pena lutar e do que não vale a pena perder um minuto.
No meio de tudo, estranhei a forma “discreta” como as noivas iam vestidas. O casamento costumava ser um dia em que os noivos caprichavam, se aperaltavam, punham o melhor de si. Queriam que o dia de casamento, em pequenos pormenores, ficasse marcado, fosse único, memorável, exclusivo. Ainda mais, naqueles casos em que o casamento era muito desejado, como é o caso.
Agora, até isso é diferente no casamento lésbico.
Devo estar a ficar velho e conservador, mas nada disto me convence. Eu nunca casaria com uma mulher de t-shirt.



Li o título e pensei "Olha que bom! Agora podemos voltar a concentrarmo-nos a discutir o que é realmente importante?"
Mas uma das coisas importantes que é sempre bom discutir – quanto mais não seja para ninguém se esquecer – é o tipo de sociedade que estamos interessados em ajudar a construir e o modo como nela podemos e devemos intervir. E sim, estou deveras interessado em viver numa sociedade que respeita as opções de vida de cada um, sem discriminação e em respeito pelos direitos dos seus concidadãos. Nesse contexto, aceito que discutir o alargamento do direito do casamento a casais monossexuais se inclui nessa discussão. Coisa que não tem acontecido, servindo o tema mais para ataques politicos, religiosos ou comportamentais – de parte a parte – do que para outra coisa qualquer.
Preferiria que o tempo gasto nestas esterilidades tivesse sido aplicado na discussão sobre o futuro de Lisboa – não nas tontices comerciais do tipo "uma cidade melhor", "uma cidade onde se viva bem", "uma cidade de rosto humano" que não levam igualmente a lado nenhum, antes na quantificação de alguns objectivos: o número de habitantes a atingir no ano 2020, a densidade populacional desejável, globalmente e por bairro, o sistema de gestão da cidade, o número de freguesias a atingir, quantas e quais fundir, os sistemas de transporte na cidade, o número de viaturas a nela circular, entre muitos outros. Por estas e outras quantificações se passaria a estratégias e destas a políticas e programas.
Do mesmo modo se poderia fazer isso para o país – para nos evitar este jogo burlesco do "estão a ver como a nossa economia hoje está a crescer ainda que ontem estivesse mal porque nas últimas três semanas o mundo deu uma cambalhota".
Mas haverá jornalistas, editores e directores com capacidade intelectual para tudo isto promover (sim, porque dos actores políticos já eu sei que a incapacidade é geral e total) e cidadãos em número suficiente para os secundar? Oh dúvida…
É, evidentemente, mais simples preocuparmo-nos em conjunto com o ombro do Nani, os bigodes da selecção ou as opções sexuais dos noivos de agora.
(Para não me acusarem de fugir ao tema do post, acrescento que não percebo a incoerência de quem tanto se bateu pela importância de um acto o desvalorizar quando lhe surge a oportunidade para o realizar. Afinal o que está em causa é o direito de assumir urbi et orbi um sentimento ou apenas a vontade de obter vantagens materiais de um acto administrativo? É que para este bastava o alargamento das uniões de facto.)
(Declaração de interesse: Serei, em breve, padrinho de um dos noivos num casamento homossexual. Com muita satisfação por assistir ao compromisso público de um grande amor)
Ao que o Pais chegou, temos uma classe politica miserável, com tantos problemas graves para resolver, andaram entretidos com os gays e as lésbicas, problema deles se querem viver juntos.
A classe politica está infestada de gays e foi esse o motivo para tanta preocupação….
O espalhafato que se fez é o mesmo que se tem feito em relação ao TGV, ao metro na alta de lisboa, á conclusão das obras na santos e castro, etc etc. São decisões que dizem respeito a minorias, mas minorias que também têm os seus direitos (ou querem ter). Gostava que me dissesse qual o interesse para o país na construção de uma rotunda de não sei quantos milhoes (porta sul) neste contexto economico (é so um exemplo)?
Não percebo a razão da pergunta? Aliás, não percebo por que razão se auto intitulando morador_indignado me faz tão surpreendente pergunta? E também não percebo o que isso tem a ver com o post? Mas enfim…. Por delicadeza perguntarei, será que 60.000 pessoas residentes, mais 20.000 flutuantes, mais dezenas de milhares de postos de trabalho criados, mais desenvolvimento urbano, social e cultural, não justificam um investimento de vários milhões de euros? Para mim, justificam. Como justifica fazer um centro cultural de vários milhões. Porque se trata de investimentos. Um na criação de condições de circulação, de competitividade, de dinâmica de crescimento, de retorno económico e financeiro e por arrastamento valorização social. O outro, porque só uma cidade e um país com boa oferta cultural, em vez de concertos popularuchos no Porque Eduardo VII, se distingue e se prepara para ser competitivo.
Nada fazer, não investir gera, atrofia, estagnação, morte.
Aceito, que em situações de crise como a que vivemos, se devam repensar diversos investimentos. Mas a lista antes da Porta Sul tem 20 outros, bem menos importantes e que, contudo, não pararam.
Ainda há dias, o Presidente da Câmara de Lisboa insistia na importância para a cidade de uma terceira travessia do Tejo (!). Outro ex. o investimento na Casa dos Bicos também me parece absurdo só para satisfazer José Saramago.
A terminar, se me quiser fazer mais perguntas, faça-o frontalmente e não a coberto de um nome infeliz. É mais correcto.
O anuncio publico do cancelamento da porta sul foi feito em Janeiro 2007. Bem antes da crise do subprime (2008), da falencia da Lehman (setembro 2008) ou da crise da divida soberana-pigs (ultimos meses).
Claro que mais uma desulpa, por mais esfarrapada que seja, da sempre jeito.
Carlos, estamos de acordo que o circo mediático e a atenção das pessoas se vira quase sempre para o que menos interessa, fugindo aos problemas que nos irão afectar as vidas a sério.
Mas não estamos de acordo em agarrar neste casamento de t-shirt como bode-expiatório para tudo o resto. Eu quero viver num país onde todos tenhamos os mesmo direitos. Eu tenho o direito de casar e o direito de prescindir desse direito. Tal como tenho o direito de ter o gosto que me apetece, de me casar com t-shirt, de calções e chinelos ou fato e gravata. E quero que todos tenham essa liberdade. Quero que tenhamos o direito de gostar de Schubert ou Bee Gees. E já vi casamentos em igreja com tiques tão informais que talvez também te chocariam.
A possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo terem direito a casar, como qualquer heterossexual, é uma notícia importante. Um avanço civilizacional deste país. O primeiro casamento seria evidentemente noticiado. O segundo já não será, como não serão provavelmente os restantes.
Falar de inversão de valores aqui parece-me absurdo. Conotar qualquer casamento homossexual com um casamento de t-shirt também.
Seria fácil agarrar nos podres que têm as instituições que mais invocam os valores, para os atacar de forma análoga. Mas seria injusto para todos o que defendem sinceramente esse valores. A diferença aqui é que a t-shirt não faz mal a ninguém.
Abraço,
Tiago
O que e Tiago é falares de direitos a propósito de uma t-shirt. Eu também quero um país com direitos iguais para todos. Luto há muitos anos para que isso aconteça. E sou favorável ao reconhecimento de direitos a duas pessoas do mesmo sexo que queiram se unir. Discordo é que esses direitos sejam iguais ao do casamento. Porque quem ter os mesmos direitos que um contrato chamado casamento confere, tem que fazer esse contrato. Se não quer fazer esse contrato, não tem direito ao pacote "direitos iguais ao casamento". Questão diferente é duas pessoas do mesmo sexo quererem casar-se, ao que sou favorável moralmente e por principio, embora juridicamente não se devesse chamar casamento. Mas se há vontade em celebrar esse contrato por parte de um casa gay, não tendo havido outra forma jurídica melhor, sou favorável ao casamento.
O que eu discuti foi não só o circo mediático (nisso estamos de acordo) mas também a falta de aprumo e respeito pelo acto. E isso é que cada vez se perde mais. Qualquer dia temos deputados de sandálias e calções no Parlamento, ministros de fita na cabeça e percing, noivos nus. Why not?
Têm esse direito…
Num tribunal, num órgão de soberania, numa igreja, em certos locais e em certas ocasiões os nossos "direitos" têm um limite. Há um limite, seguramente subjectivo, mas traçado pelos costumes de uma sociedade e que variam com os tempos e os lugares, que não se deve perder.
Não se imagina num tribunal, um advogado sem toga ou entrar de calções. Não se imagina uma pessoa entrar de tronco nu numa igreja ou de chapéu, não se imagina um deputado de t-shirt no parlamento. Porque lhe apetece e tem "direito".
Eu não imagino, uma noiva, ou um noivo de t-shirt. Eu nunca casaria com uma mulher de t-shirt. O direito dela esbarraria com a minha intolerância. A sua liberdade seria posta em causa pelo meu conservadorismo. O acto casamento exige solenidade. Para mim, claro.
Há inversão de hábitos sim, há perda de valores sim, há banalização dos actos e das instituições, sim. Há ligeireza nos trajes e nas atitudes, sim.
Mas claro, eu tenho imensos podres, imensas contradições. Assumidos.
Por isso é que tenho a liberdade e o direito que criticar quem casa de t-shirt.
Carlos, não há razão para reagir assim. Não quis que a conversa resvalasse para considerações pessoais nem lhe vou dar continuidade. Eu percebo o que dizes da adequação da indumentária à solenidade dos actos. Mas uma coisa são questões de gosto, divergência de gostos, outra são atribuições de ausência de valores.
E falar de valores a propósito de indumentária, sem observar o âmago dos problemas, faz-me lembrar as idas à Gulbenkian para assistir a concertos. Vou de t-shirt (como sabes, gosto muito de t-shirts – o que não implica que eu fosse de t-shirt para um casamento. Meu, sobretudo.), e vejo, de facto, a maioria do público vestida de forma mais solene, adequada à sala e à instituição. Mas saio sempre com a certeza (sim, certeza) que a roupa não faz o ouvinte. Gente bem vestida com baixos níveis de concentração, a mexer-se na cadeira, impaciente pelo intervalo, pelo fim do concerto, enfadada com a música, seja uma sinfonia mal dirigida pelo Foster ou a Winterreise genialmente cantada pelo Goerne. Não distinguem. Vão lá pelo acto, pretendem-no solene. Solene, mas aparente. Passa-lhes completamente ao lado o fenómeno mais mágico, mais sagrado, que devia servir de motivo para aquele encontro. Não vejo também que os problemas de Política ou Justiça tenham a ver com a escolha da roupa dos seus representantes. Mas sim, tens razão, de facto é um problema de valores.
Nao reagi mal Tiago. Contra-argumentei, sustentando o meu ponto de vista. Náo fiz qualquer consideração pessoal. Nunca a faria. Dei exemplos não só de questões de gosto mas tb de distorção dos valores. A propósito de uma coisa tão simples como uma t~shirt. E especulei.
As coisas simples são muitas vezes um bom mote para isso e foi isso que procurei fazer quer no post quer na minha resposta.
E dei exemplos de como "liberdade" e "direito a" duas palavras que tu usaste para argumentar, devem em certas ocasiões e áreas ceder perante outros valores.
Eu também gosto muito de t-shirts e gosto de andar de t-shirt. Mas nunca casaria de t-shirt e fico feliz por saber que tu também não. Mas vou de t-shirt aos concertos da Gulbenkian, como tu vais. E nos concertos da Gulbenkian vejo cada vez menos gente preocupada com a indumentária e mais concentração, respeito e apetite pela música. Não sinto portanto esse ambiente que descreves.
A passagem disto tudo para a Política e para a Justiça é um delírio meu, pois como sabemos há cada vez mais valores, bom senso, respeito, profundidade, solenidade e decência nessas áreas. Por isso não ligues.
Bom, infelizmente não posso colocar aqui a foto do meu casamento heterossexual, cuja indumentária era vestido dos Storytailors com Havaianas a condizer. Só não vesti o biquini para o mergulho, porque depois dava muito trabalho vestir o vestido de novo. Mas muito convidados mergulharam por mim.
Ao que parece este Post prende-se mais com a forma como as senhoras foram vestidas para o seu casamento tão mediático, do que propriamente falar daquilo que realmente se devia discutir neste período crítico…
Já assisti a casamentos religiosos com tanto espalhafato formal, que ninguém sabia responder ao Padre, nem mesmo rezar o Pai Nosso, e depois terminavam o casamento passado 1 mês.
Acredito mais nestes casamentos em que fica de lado o formalismo por uma causa maior, o amor, o carinho, a amizade entre duas pessoas que querem ser vistas como família e como uma só.
Não leve a mal o que digo aqui, mas acho que devemos respeitar os gostos e preferências de cada um, por mais que isso nos possa ser difícil aceitar.
Entendo então que este Post seja mais um desabafo que uma indignação.
Cumprimentos.
Fico satisfeito por a Susana querer falar daquilo que realmente se devia discutir neste período crítico… Eu também quero. Falei da t-shirt para ver se conseguíamos isso.
Também eu já assisti a muitos e muitos casamentos religiosos com espalhafato formal e ninguém a sentir o momento.
E também eu prefiro um casamento menos formal e mais sentido, vivido, com carinho e amizade entre duas pessoas que querem ser vistas como família, sejam elas hetero ou do mesmo sexo.
Apenas sinto, e esse era o sentido do post, que a nossa sociedade em certos aspectos, se está a abandalhar, a tornar mais supérflua, ligeira, displicente. E isso sente-se em muitas áreas.
Há certas coisas, em que defendo a solenidade. Sentida, consciente, verdadeira. Não a da "moda", do "politicamente correcto", do "social".
Isso é possível e desejável par mim.
Obrigado pelo seu comentário.
Estando as duas desempregadas dificilmente teriam meios económicos para fazer um casamento à moda antiga.
Aqueles casamentos em que os noivos se endividam para pagar o copo de água é que são bons casamentos! Sobretudo quando metade da comida vai para o lixo porque já não cabe nas grandes barrigas dos convidados…
Com tanta fome no mundo já devíamos ter mudado de hábitos…
Concordo Pedro Veiga.
Bom, eu sendo mulher tambem nunca casaria de t-shirt, mais a gosto pra tudo, e tambem as possibilidades dos noivos em questao… mais se fosse comigo eu nem casaria…