da memória, da amizade, do amor, dos tempos modernos

15 June, 2010 by  

Não somos o que teríamos sido noutros tempos, nascidos noutros lugares, sem acesso às mesmas coisas. Estabelecemos agora relações pessoais que não dependem do sítio que habitamos, nem das funções que temos. Progredimos da sociedade rural, de uma rede social mecânica, com laços estabelecidos quase exclusivamente nos aglomerados onde o Criador nos decidiu sortear, passámos para cidades industrializadas, com implicações no zonamento, na composição humana dos bairros, com consequências também nas relações pessoais, muito ligadas ao emprego, às funções desempenhadas. E agora vivemos em cidades mais rápidas, com meios de transporte mais eficazes, alargando imensamente os nossos raios de acção, temos ferramentas que não existiam sequer na nossa infância, internet, telemóvel, facebook, que facilitam o estabelecimento de novas relações, aceleram-nas, não as limitando à proximidade geográfica ou familiar, não as fazendo depender da rede social previamente estabelecida. São relações mais fáceis, mais rápidas, mais frágeis também, muitas vezes muito intensas, e capazes de ser tão profundas como as outras.

Lembrei-me disto ontem, por ter passado um dia na faculdade agarrado ao portátil, a esculpir os últimos detalhes da candidatura à FCT, desesperando pela lentidão do site, a falar com quem aparecesse, alternando entre experiências nas viagens pelo sul de Itália, pelas possibilidades da nossa selecção no Mundial, pelos projectos de outros colegas. No portátil iam surgindo também outros amigos, conversas sem dar importância a longos silêncios, com tempo para pensar com mais arte nas piadas a responder, lendo blogs, jornais. E ao fim da tarde, um telefonema (ter telemóvel dá jeito – antes, só quando chegasse a casa é que sabia se havia recados) do meu amigo João Vasco, esse que está aqui pela redacção também, um amigo de muitos anos, dos tempos do piano no Conservatório, daqueles a quem se pode dizer tudo, com quem se tem discussões duras, de ficarmos chateados uns dias e depois tudo passar porque até era verdade o que foi dito e o resto é muito mais importante.

– Meu, vamos a Sintra ver o Sokolov?

Temos também em comum ter visto o Sokolov em Sintra, há mais de oito anos, que mudou para sempre as nossas vidas culturais. Ficámos na 3ª fila e vimos uma sonata de Prokofiev ganhar vida própria, saltar do palco e dar-nos uma tareia de nos deixar aterrados, pêlos eriçados, coração acelerado, com medo que nos desse uma coisinha má. No final, uma emoção incontrolável, a certeza de ter tido a rara sorte de ter vivido algo irrepetível. Dormi mal nessa noite, nos dias seguintes tinha ainda reacções físicas sempre que me lembrava da sonata. Mas o pior veio a seguir. Durante anos todos os concertos a que ia eram comparados com este e ficavam aquém na emoção sentida. Partilhávamos essa experiência, eu e o João. “Merda, pá. Aquilo lixou-nos a vida, Tiago. Nunca mais vamos conseguir sair de um concerto como daquela vez.”, e eu concordava, numa mistura incoerente de tristeza por essa sensação de perda mas alegria de, pelo menos uma vez na vida, me ter passado completamente num concerto.

Fomos então a Sintra. IC 19, conversas de putos, gargalhadas de aleijar a barriga. Passámos primeiro pelo auditório, à hora de abertura da bilheteira, para conseguir os últimos lugares disponíveis, e fomos depois a pé até aos travesseiros, fingir que jantávamos.

– Já viste, pá, levámos meia hora até aqui. O Carlos e a Maria Eduarda levavam um dia.

– Que amor do caraças… Aquelas páginas, quando o Carlos a volta a amar, já a saber, mas a não conseguir resistir, culpado, dividido, reli-as vezes em conta.

– Fiz uma directa para acabar o livro, não o conseguia largar, e no fim, fiquei com tantas saudades deles, tão arrependido de ter sido sôfrego e não ter guardado umas páginas para os dias seguintes.

– É… Ser sôfrego nem sempre é muito saudável, mas às vezes também é irrestível. Eu tive a sorte de me baldar a ler o livro no secundário. Precisava de ter passado por várias experiências para perceber aqueles dilemas, aquelas angústias. Tinha uns 22 anos, quando o li. Se o tivesse feito na adolescência tinha-me passado ao lado.

E continuámos a caminhar, falando do tempo que levam as coisas a acontecer, a passar, das experiências que nos deixam com o ponteiro dos segundos a soluçar, presos às memórias, secando-nos para o resto da vida. No caso do Sokolov e daquela 7ª do Prokofiev, levámos uns anos até que o efeito passasse. Até o próprio Sokolov foi vítima disso, nenhum concerto voltou a ser igual. Depois racionaliza-se, analisa-se o que aconteceu. O repertório ajudou, a sonata é muito empolgante, ter sido escrita durante o cerco a Stalingrado acrescenta-nos emoções doutras memórias, outras vidas emprestadas, o estarmos a tão poucos metros de um ídolo, de quem conhecíamos os cds de cor, uma vontade de ali chegar, de possuir aqueles meios técnicos e intelectuais para exprimir tanta coisa com a música. Foi um cocktail muito feliz de variáveis, todas favoráveis para tornar único aquele momento, que nos lixou a vida nos anos seguintes. Percebido o fenómeno, aos poucos, começa a conseguir-se ouvir um concerto sem lembrar, sem comparar, sem pensar em nada a não ser no momento. A ser mais justo com o momento.

E volta aos poucos a capacidade de nos voltarmos a emocionar, a entusiasmar. Não é a mesma coisa, não, nem faria sentido se quisessemos que fosse, por ser irrepetível. Mas essa é a diferença entre ter 26 ou 35 anos, conseguir viver as coisas de uma forma diferente, aprender a ver a beleza da luz, o encanto do renascer, como uma monção e toda aquela a energia regeneradora. E então é possível amar Pogorelich, Pletnev, o Abbado com a Filarmónica de Berlim.

O concerto de ontem só podia ser do Sokolov. Aquela tão pessoal construção em crescendo em todo o concerto, primeiro com Bach, transformando o piano num instrumento híbrido, uma espécie de clavicórdio humedecido, que destaca a polifonia e um milagroso rendilhado barroco. Depois Brahms, com um ciclo de pequenas peças, de um romantismo contido e tímido, com um som um pouco mais aberto, mais quente. Na segunda parte, a sonata op. 14 de Schumann, agora sim, romantismo assumidíssimo, tocado com todos os meios disponíveis na sala, um pianista da melhor escola do mundo, um piano de cauda inteira, pleno, explorado ao limite da resistência dos materiais. De repente, uma acústica que parecia seca e fria, transformou-se acolhedora e envolvente. Os extras, a premiar as eufóricas exaltações da plateia, quatro prelúdios de Chopin e uma peça de Scriabin, fariam valer a pena pagar um bilhete só para os ouvir. O prelúdio em si bemol menor, deixou-nos aquele sorriso impossível de conter, de prazer, alegria e admiração por estar a viver mais um momento irrepetível, mas ainda com a vida toda pela frente, e com vontade de a viver.

Comments

5 Responses to “da memória, da amizade, do amor, dos tempos modernos”
  1. Gonçalo Dumas says:

    Bravo!

  2. Já tinha saudades tuas Tiago e de um texto assim. É a amizade, o amor, a regeneração e, eu diria, a partilha, que realmente dão sentido à vida. Obrigado por partilhares connosco, e da forma como o fizeste, tanto e tão bom. Um abraço

  3. Diana says:

    Já li este texto umas dez vezes. E ainda cá irei voltar umas outras quantas. Está mesmo muito bom.

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