As Bibliotecas

16 June, 2010 by  

Dando alguma continuidade ao post da biblioteca no Vale de Santo António, escrevo agora inspirado pelas bibliotecas mais pequenas e próximas. Em primeiro lugar a biblioteca do meu bairro, Penha de França, funciona num edifício do Séc. XVI, no cimo da Calçada do Poço dos Mouros, e está aberta das 13 às 19 de 2ª a 6ª e em alguns sábados. No Inverno, o horário é outro e os sábados também são diferentes. Complicado? 🙂

A biblioteca foi restaurada no ano passado e é acolhedora quanto baste para ser funcional e muito importante no bairro. Façam um esforço, passem por lá, aproveitando para trazer um livro vosso velhinho e levar outro para casa. É normal haver uma zona para uma iniciativa do género bookcrossing. No mesmo edifício também podem espreitar a Piscina Municipal da Penha de França.

Recentemente, voltei a lembrar-me dela enquanto estive uns dias em Amesterdão. Lá, as típicas janelas sem cortinas são quase invariavelmente como janelas ao contrário que nos dão ‘vistas’ para pequenas e acolhedoras bibliotecas pessoais. Confesso que senti bastante inveja daquelas casas centenárias no centro de Amesterdão, preservadas com cuidado, com as madeiras nos interiores e janelas impecáveis, bem aquecidas.

Disso e das ruas onde só as grande avenidas circulares têm mais de uma faixa dedicada ao atravessamento automóvel. Nas outras, as vias de bairro, só passa um carro de cada vez e nunca a mais de 30km/h. O resultado? Carros, pessoas e bicicletas nas ruas, pequeno comércio em todo o lado, janelas abertas, crianças mais felizes.

Qual será a parte difícil de entender nesta história?

Esqueçam o parágrafo acima. Aqui tudo é diferente mas também se vendem livros que era onde queria chegar.

Acabei de ler o Diário da Bicicleta do David Byrne, que resultou numa agradável surpresa. Sendo um adepto da deslocação em bicicleta D.B. não perde demasiado tempo a evangelizar o que é bom porque só vai pegar neste livro quem estiver minimamente interessado em bicicletas e portanto não precisa de ser convencido das suas virtudes.

O livro fala da diferença entre circular de bicicleta em estradas partilhadas e em ciclovias. Tema tão actual em Lisboa!

Se por um lado D.B. nos dá conta da alegria de andar entre os carros atascados em Istambul ou Roma, por outro também entende que esse tipo de exercício resulta ‘radical’ para a maioria das pessoas pela sensação de insegurança que provoca. É por isso mesmo que sem as ciclovias dificilmente se conseguem cativar pessoas suficientes para mudar mentalidades em culturas como a nossa.

Nas auto-estradas que são os eixos viários em Lisboa é tal a loucura da velocidade automobilista, a agressividade, que viagens diárias de bicicleta nessas vias são experiências para homens de barba rija com calções de licra e capacete colorido; o que honestamente, arrasa por completo aquele que no fim de contas devia e podia ser o maior argumento para andar de bicicleta, o prazer.

Juntando, como continua a estar previsto em Lisboa, a estas infraestruturas básicas um sistema de bicicletas partilhadas que permita a qualquer pessoa fazer pequenas deslocações gratuitamente, podemos ter, para mais breve do que imaginado por muitos, uma pequena revolução na nossa Lisboa.

Ao mesmo tempo o livro também não é, para nós europeus, alinhado politicamente. Tanto é crítico com algumas das opções da Alemanha de Leste, como arrasador para com a maioria das cidades norte-americanas. É sobretudo disso que trata o Diário da Bicicleta, apontamentos sobre as cidades e as pessoas em vários sítios do mundo. Observações de um artista que, por acaso, na maior parte dos casos foram obtidas a andar de bicicleta. Recomenda-se.

O outro livro que aparece aqui na minha mesinha é um bestseller urbano. O Manual das Cidades de Manuel Graça Dias é um livro de culto na juventude cosmopolita pois colecta pequenos textos escritos para o jornal Expresso que, ao mesmo tempo que discutem soluções aos problemas mais exemplares das nossas cidades, glorificam a cidade como local multi-cultural, de prazer, experiência e alegria onde de forma óbvia se frui da vida e exerce a liberdade tanto quanto nós queremos porque, afinal, a cidade somos mesmo nós.

Referências:

Rede de bicicletas partilhadas em Barcelona, Sevilha, Bruxelas, Paris, Copenhaga, Viena, Berlim, Lyon, Milão, Estocolmo, Lausanne, Oslo, Saragoça, Turim, Shangai,…, vejam este impressionante mapa mundo.

Comments

4 Responses to “As Bibliotecas”
  1. pmd says:

    Inveja, pura inveja!
    Adoraria ter uma biblioteca assim no meu bairro
    (alta de lisboa)
    A nossa biblioteca precisa de ajuda de um genio que a consiga transformar nisso tudo.
    Por agora vive numa loja num enclave entre terras de ninguem.
    Por isso invejo-o!

  2. Ana Rita says:

    E eu gostaria de saber onde fica a biblioteca da Alta de Lisboa.

  3. pmd says:

    Fica no cruzamento da rua maria alice com a rua david morao ferreira.
    E pequenina e fica tal como disse numa loja de res-do-chao.
    O seu foco e a literatura infanto-juvenil.
    Tem uns computadores.
    As pessoas que la trabalham sao excepcionais e conhecem os meus alunos pelo primeiro nome.

  4. Ana Rita says:

    Muito obrigada pela informação, tenho que ir conhecer um dia destes.

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