A Bica é liiiinda!
19 June, 2010 by Graça Índias Cordeiro

Este ano voltei à Bica como quem volta a casa. Desci a movimentada rua do elevador – a Bica Duarte Belo – atravessei a Travessa do Cabral até ao topo das Escadinhas (Calçada da Bica Grande) e pisei, devagarinho os tão familiares degraus que me levaram até ao arraial do Beco (dos Arciprestes).

Para mim, o arraial da Bica é aqui. Nesta rua apertadinha, com as portas das casas a dar directamente para as mesas, que correm ao longo de um muro alto, impenetrável. Nesta rua que prolonga as escadinhas, pedaço de chão plano onde é possível criar um espaço de comida, bebida, conversa, onde amigos e parentes se encontram, os que vêm de longe, pelos santos, visitar a família, os amigos, os antigos vizinhos. É aqui que reencontro e recordo amigos e conhecidos, todos os que me têm ensinado o que este bairro é, com as suas subtilezas, ambiguidades e contradições próprias; e que, cada ano, me confirmam a Bica que conheço.

Para mim a marcha da Bica são os seus ensaios, no recinto da EDP, à rua de S. Luís, são o Fernando e o Américo a orientar esses jovens que, cada ano, me parecem desconhecidos; o rufar do cavalinho a marcar o ritmo, os holofotes a lembrar que ali se prepara algo… Mas a marcha é, sobretudo, a sua emocionante despedida ao fim da tarde da véspera de Santo António, antes de seguir para a Avenida, momento quase sagrado em que as Escadinhas parecem rebentar de som e cor, com o estandarte do Marítimo a esvoaçar. O desfile na avenida, esse, para mim, é sempre o momento da frustração, do espreita que espreita por entre a multidão que nunca deixa ver nem ouvir bem as marcações – paradoxo dos paradoxos, só do lado de lá, dentro das marchas, é possível apanhar a alma do acontecimento!

A Bica faz parte de mim. É uma das minhas muitas Lisboas, talvez a mais querida, aquela que mais fortemente se impôs no meu próprio percurso de aprendizagem ‘urbana’, emotiva e intelectual; uma cidade tão diferente daquela que primeiro conheci, onde cresci e que não cabia num bairro mas sim no final de uma av. de Roma, a dar para uma praceta e um cruzamento de tráfego muito intenso. Era um lugar simpático, esse onde vivi, um pedaço de cidade que também tinha vizinhos que se conheciam e se ajudavam, actividades que marcavam o quotidiano, comerciantes e porteiras que controlavam o espaço público, criançada que brincava na rua até tarde no Verão… no Santo António até se faziam fogueiras, lá atrás, nas ‘terras’, ao pé de uns quantos carros estacionados; lembro-me de as saltar, de mãos dadas com os meus irmãos que me faziam voar sobre elas…
Mas era um lugar diferente desta Bica que conheci e estudei anos mais tarde; diferente destes bairros mais antigos da nossa cidade, que ao longo dos tempos se têm organizado e moldado em torno de um orgulho de serem de Lisboa, de representarem Lisboa. E esta é uma das diferenças que me ensinaram que as cidades são feitas disto mesmo: de muitos pedaços, feitos de tempo, espaço e pessoas que se misturam de formas muito particulares e sempre irrepetíveis. Que produzem lugares com alma própria, como se de pátrias se tratassem. Com uma história que perdura no futuro.

A Bica é Liiiiinda!! – e este grito vai-se continuar a ouvir, qual pregão, por essa Bica fora, escada acima, escada abaixo, em todos os meses de Junho, quando Lisboa se enche de vida, de som e de cor…



Tens razão, a Bica é sempre a Bica. E…nada tem a ver com esse "fim" da Av. de Roma ou desse "fim" da actual Avenida dos EUA que nos anos 1950 se chamava correntemente como Tarrafal
Tarrafal na Av. dos Estados Unidos da América? Nunca me contaste isso, Eduardo, fico muito curiosa para conhecer mais um mistério desta nossa Lisboa; e, afinal, não estávamos assim tão longe, no final dessas avenidas que agora são tão centrais!
Vou tentar contar a história bem e depressa! Onde é hoje a “2ªparte” da Avenida dos EUA, no inicio dos anos 1950 ainda eram quintas (aliás, ao 25 de Abril todas as traseiras da Gago Coutinho ainda eram quintas) e as primeiras construções foram feitas na parte baixa junto à Avenida Gago Coutinho e à Guilhermina Suggia. Era um zona quase sem transportes – os autocarros ficavam no Areeiro e na Praceta dos EUA, com casas modestas que, em termos de área, funcionalidade e de qualidade de "acabamentos", pouco tinham a ver com as que mais tarde se construíram na Avenida e para lá chegar, por exemplo, vindo da Av. de Roma as únicas vias eram a então estrada da Quinta, creio, dos Lagares e a actual Avenida Frei Miguel Contreiras junto à linha de comboio.
Claro, o nome de Tarrafal era dado por quem desdenhava dos grupos sociais da dita classe média remediada – um sugestivo termo da langue de bois salazarista! – que, empurrados pelo aumento das rendas das casas novas nas zonas mais centrais, para lá foram viver.
Estas casas, como mais tarde algumas do “alto” da Avenida dos EUA, eram de “renda limitada “ – devido a um conjunto de benesses fiscais e não só aos construtores/proprietários antes-durante-após a construção as rendas eram fixadas administrativamente.
Ontem como hoje as desigualdades sociais têm “respaldo” no tipo e no local de residência!
Pois isso do Tarrafal na EUA não sabia mas em 58 andei por lá com a minha amiga Maria Clara de Novais Liz e Cruz (que não me deixa mentir) , a sermos perseguidas por um carneiro que até acabou por subir tambem para o autocarro. Lá veio o pastor (com as ovelhas cabisbaixas por o macho nos ter preferido a elas) recuperar o animal .
Pronto, agora já puz isto no sitio certo e aproveito para pedir aos apaixonados da Bica que se encontrarem a Maria Clara de Novais Liz e Cruz lhe digam que estou aqui.
Estes animais são bem o sinal da cidade a invadir o campo: nos anos 80 os rebanhos andavam por Telheiras, mas não sei se perseguiam alguém!
Lindo testemunho, Teresa! Ainda me estou a rir… 🙂
E pronto; eu também estou aqui; só que desde sempre, enquanto que tu fugiste com medo do carneiro e eu, sempre com o ar de atrapalhadinha, tive que ficar a enfrentá-los o mais de frente que fui sendo capaz. Mas estou estupfacta porque esta surpresa é enorme. Quero muito ver-te. Como podemos fazer?
Olá, linda Clarinha do meu coração ! Que grande alegria!
Olha para já, não te quero perder, manda-me um mail para :
terotte@gmail.com que isto aqui é um pouco público demais para te dar todas as minhas coordenadas e vice-versa. Bom, não demores que agora estou em pulgas.
Beijinhos.
Youpiiiiii!
… e ainda nos anos 90 havia um rebanho na Cidade Universitária…e imaginem, o seu proprietário pagava renda à Universidade de Lisboa!
Por coisas do outro tempo, em plena Alta de Lisboa (Musgueira Sul), resiste, em bom estado, no meio de matagal e entulho de construção civil, um antigo “assento de lavoura”, constituído pelo assento propriamente dito, por uma “casa de proprietário” e meia dúzia de outras casas modestas. Vi com os meus próprios olhos na passada sexta-feira!
Ora bem, isso de ter alma própria e de ser uma pátria faz todo o sentido: encavalitada na teia urbana da malha super apertada da Lisboa antiga, a tombar do Bairro Alto para as margens asfaltadas do Tejo, não deixa ainda de ser – mas talvez vá deixando de o ser, como já não é a Madragoa nem Alfama – um lugarejo (como nessa urbe rural que é a aldeia) de pequenas cumplicidades e traições, de intimidades e segredos, de pactos e de rompimentos, tudo feito de porta a porta ou de janela a janela, ou nos degraus das escadas; mas, sobretudo, de solidariedades e identidades nas grandes horas que marcam o contínuo passar do tempo.
Graça, passaste pela Bica pela mão do nosso amigo Quim, com ele aprendemos a gostar deste Bairro, o teu trabalho sobre as gentes deste bairro foi muito bom gratificante trabalhar contigo sem saber que dizer por isso direi somente
Obrigada
Obrigado, Fernando pelo teu comentário que gostei muito. Nunca deixarei de me sentir em dívida para com a Bica e para com todos vós que me continuam sempre a acolher tão bem, com tanto carinho. É tão bom encontrar o Quim de cada vez que vos visito…!