Newcomer

13 May, 2010 by  

Às vezes, a sociologia mais estremada faz-me sentir um bocado como aqueles imigrantes de 2ª geração que vivem acorrentados a um apelido que lhes lixa a integração: Quando nos mantemos nos subúrbios somos suburbanos, quando vivemos no centro histórico somos “newcomers”… Tudo bem, é um estrangeirismo com graça que me coloca algures entre o colonizador burguês e o lisboeta com amor ao pitoresco.

Vimos para os bairros históricos para que os amigos percorram percursos labirínticos quando cá vêm jantar, oferecendo-lhes em primeira mão, o que a “Vida é Bela”, ainda não se lembrou de vender, a experiência da “Gentrificação”. Uma palavra que ingenuamente faz lembrar “centrifugação” aquele processo fabuloso que libertou as mulheres do tanque mas que ainda não consegue garantir que não fique tudo cor-de-rosa.

Ora ao que parece, antes mesmo de procriar num bairro histórico, já eu gentrificacava sem que os meus pais soubessem. Embarquei nesta aventura de vigília sociológica no dia em que achei graça ao caminho das laranjeiras que vai da Sé à Rua do Barão. Procurei um andar simpático, um banco simpático, um gestor de conta ainda mais simpático e contratei uma empresa de mudanças para trazer todo o material de centrifugação até à nova morada de gentrificação.

Tive o cuidado de me recensear na freguesia, casei-me na igreja local, pedi ao padre que aqui mora que baptizasse as crianças, nunca mais comprei frutas que não fosse ao Sr. Zé, a carne toda no Talho Alfama, criei um blogue de clamor ao bairro, avio as minhas receitas no Sr. Brás e oiço fado como se o cantasse todas as 4ªas feiras, mas não à paio… uma vez gentrificando, gentrificado fica.

É uma mácula que fica connosco e que se traduz na definição enciclopédica do termo – enobrecimento urbano.

Aparentemente esta é a parte boa da teoria, a subida meteórica na pirâmide de Maslow. Cá em casa estamos todos contentes e decidimos começar a adquirir propriedades em bairros históricos congéneres. Tudo, para garantir que a nossa extensa prole de burgueses, beneficia da pujança social do termo, e possa gentrificar descomprometidamente, sem que alguém alguma vez se lembre de os acusar de terem nascido lá…

http://pt.wikipedia.org/wiki/Centrifugação
http://pt.wikipedia.org/wiki/Gentrificação

Comments

2 Responses to “Newcomer”
  1. PedroCG says:

    Isabel, temos de fazer uma tertúlia com o "papa" da gentrificação, perdão, da reabilitação urbana – para a menina lhe explicar os benefícios dos malefícios que ele andou a tentar erradicar por mais de uma década enquanto responsável camarário.

    Estou consigo.

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