Cresce e aparece! Porque a Creche não aparece…

20 May, 2010 by  

Das 441 creches previstas pelo Governo em 2006, só 130 foram construídas em todo o país (ler aqui e aqui). Das 76 creches prometidas por António Costa para Lisboa em Outubro passado, nenhuma será na Alta de Lisboa (ler aqui). Aliás, nenhuma será na freguesia da Ameixoeira, nenhuma será na Charneca e nenhuma será no Lumiar.

As três freguesias somam quase 100.000 habitantes e estes correspondem a 20% da população da capital. Além de populosas, têm fregueses jovens e com uma dimensão familiar média superior à do concelho de Lisboa (3,4 indivíduos por família e 2,4 respectivamente) e à do país. (Dados do Diagnóstico da Alta de Lisboa 2009 – CEDRU/K’Cidade)

Desculpem, mas… não entendo!

O incentivo à natalidade deveria ser um desígnio nacional. E parece-me que não é o aumento do abono de família ou do subsídio de gravidez que serena a angústia dos jovens casais.

A quem confiar os filhos durante o dia, em segurança, para poder ir trabalhar? Em que condições? A que preço? Com que dinheiro? Quem já passou por isto não fica com vontade de repetir…

A falta de Creches é um mal nacional. É uma resposta social cara porque requer um elevado número de recursos humanos, de profissionais qualificados, para servir um número muito reduzido de crianças. Para garantir um acompanhamento de qualidade nos primeiros três anos de vida da criança, o ratio é muito exigente.

Por esta razão, as creches são quase um feudo dos privados que, cobrando mensalidades que rondam os 500 euros, conseguem manter um negócio lucrativo.

Os outros, os que não podem pagar esta quantia mensal, agonizam. Os equipamentos sociais são insuficientes, as listas de espera desesperam qualquer um e a alternativa é procurar uma ama de confiança, difícil de encontrar, ou um familiar que, com espírito de sacrifício, assegure a guarda e bem-estar da criança até aos 3 anos de idade, enquanto os pais trabalham. Quando não há, fazem-se contas à vida, e muitas vezes opta-se por abdicar de um salário ao fim do mês e ficar em casa a cuidar dos filhos porque o que se ganha não chega para pagar a ama, a empregada, o apoio improvisado…

Dos equipamentos da Rede Social, comparticipados pelo Estado e mais acessíveis à bolsa do comum dos mortais, a Freguesia do Lumiar conta com três: A Obra Social Paulo VI (com capacidade para 66 crianças), o CAI do Bairro da Cruz Vermelha (50) e a Unidade de Desenvolvimento Integrado do Lumiar (35). Por sua vez, a freguesia da Charneca tem 4 equipamentos: o Centro de Apoio Infantil da Filadélfia (31), o Centro de Promoção Social da Alta de Lisboa (58), a Unidade de Desenvolvimento Integrado das Galinheiras (33) e o Centro Comunitário da Charneca (65). A freguesia da Ameixoeira conta apenas com uma Creche, a do Centro de Desenvolvimento da Ameixoeira, com capacidade para 37 crianças.

375 vagas no total das três freguesias. 375 vagas para 100.000 habitantes…

Que critérios determinarão a construção de uma nova Creche? Onde serão construídas as 76 previstas para a Rede Pública de Creches de Lisboa que integrará a revisão do Plano Director Municipal? Como é que a Alta de Lisboa não é contemplada com nenhuma? Não entendo…

Ter filhos é uma aventura!

* fotografia com direitos reservados

Comments

11 Responses to “Cresce e aparece! Porque a Creche não aparece…”
  1. PedroCG says:

    Acredito que as creches previstas irão para os bairros-bandeira desta cidade.

    Porque, mediaticamente, compensa "apostar" no "recrescimento" destes bairros.

    Porque, ao terem menos população, os ratios serão maiores.

    Porque, verdadeiramente, toda a classe política se está a borrifar para a classe média (que é maioritária nestas três freguesias).

    Obrigado Ana, por ainda outro exemplo – bem fundamentado – de como os actores (e autores) deste regime o estão a enterrar, ao alargar o fosso entre as promessas e a realidade, entre os compromissos e a sua realização.

    Ainda não percebi se o Costa, os seus vereadores e demais entourage política que o cerca foram mal-intencionados nos seus compromissos eleitorais ou se são muito, muito mas mesmo muito ignorantes da cidade que regem.

    (Obviamente que este último parágrafo se estende também a toda a oposição, autora no passado, das mesmas não-acções, não-ideias, não-melhoramentos)

  2. Pedro Veiga says:

    Só por ano deixo 5800 euros na creche onde está o meu filho porque não tenho alternativa. Um local seguro e com qualidade onde deixar um filho enquanto se trabalha é uma prioridade de primeira ordem!
    No entanto, parece que os nossos governantes não entendem isto!

  3. hrelogio says:

    Um excelente e oportuno artigo.
    Parabéns.

  4. Tiago says:

    Bravo, Ana, pelo teu texto de denúnia. A maioria das pessoas (onde me incluo), vive ignorante destes problemas. É preciso mesmo fazer alguma coisa, este texto é um magnífico passo.

  5. Joana says:

    Ana, como sabes tenho 3 filhos entre os 5 e os 0 anos. Posso garantir-te que entre todas as preocupações e trabalho o problema da creche foi até agora o pior de resolver, em todos os 3.

    Já o Jardim de Infância não é um problema para quem mora na Alta, havendo o CSM. Mas tenho amigos que continuam a desesperar até os filhos entrarem na primária onde finalmente, gioste-se mais ou menos da escola, tem que haver vagas.

  6. Miguel says:

    Ana,

    Eu sou um "pagador" destes serviços para as minhas filhas e doi muiiiito no orçamento mensal.
    Por isso concordo com tudo o que escreve.

    No entanto, não encontrei o sitio onde está escrito que nenhuma das creches será para o Lumiar, Charneca ou Ameixoeira. Onde leu isso?

    Infelizmente, para mim, já será tarde visto que não pretendo ter mais filhos… mas o tema interessa-me.

    miguel

    • Ana Barata says:

      Miguel, também não encontro o mapa de localização das creches que a CML se propõe construir. Não sei se foi divulgado. No entanto, há já algum tempo que o Presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, Dr. Nuno Roque, manifesta a sua insatisfação pelo facto de o Lumiar não ter sido contemplado com a previsão de nenhum equipamento. Fez, inclusivamente, uma intervenção nesse sentido na Reunião da Assembleia Municipal do passado dia 2 de Março, onde tem assento como deputado municipal. Pode ler o que disse na página 38 da acta da reunião, aqui:http://www.am-lisboa.pt/media/Acta10.pdf

  7. maria says:

    muito bom este artigo,eu tive de deixar a minha pequena em marvila pois alem de trabalhar na expo foi um dos poucos sitios que consegui vaga sem ter de pagar um balurdio,é uma crexe da igreija,e que ,claro esta,tem sempre filas enormes de espera,e como me disse o responsavel da crexe que fica ao pe do pingo doce do lumiar,se eu fosse drogada,bebada,com dentes podres,e mal vestida.tinha vaga na certa,minha filha seria considerada criança de risco,…

  8. Anonymous says:

    Olha foi a mesma Pessoa que falou comigo! fiquei devastada. lembro-me que fiquei doente quando tive de decidir que andar 50 km por dia seria melhor para a minha filha do que uma loja.
    O dinheiro nem era questao a simples vaga nao existia ou entao havia mas em escolas/lojas.
    nem no Paulo vi! Nem nas escolinhas da Misericordia. Naaaaaaada!l

  9. meio copo says:

    Mas o autor acredita que a CML tem gente assim tão incompetente ou corrupta – ou sei lá – que as creches não estejam a ser colocadas onde é prioritário? há limites.
    Haverá bairros com muita gente que não terá os 5400 anuais referidos acima SÓ para a creche. Aposto que a CML leva isso em conta.

    • Ana Barata says:

      Caro leitor,

      Não qualifiquei a CML com qualquer adjectivo. Apenas digo, e repito, que não entendo as suas opções. E concordo consigo quando diz que há limites.

      Também concordo que há muita gente que não pode pagar 5800 euros anuais pela creche de um filho. É esse o ponto. Por essa razão, considero que a construção de creches da Rede Social é uma prioridade para Lisboa.

      Finalmente, devo informá-lo que há muita gente nessas condições nas freguesias do Lumiar, Charneca e Ameixoeira. Poderá verificar o que digo através da leitura do Diagnóstico Social de Lisboa elaborado pela Rede Social em Setembro de 2009, onde constam os dados das 53 freguesias da Cidade (http://www.cm-lisboa.pt/archive/doc/Informacao_Complementar_Diagnostico_Social_Lisboa_Final.pdf). Aconselho-o a verificar os indicadores de população jovem com menos de 14 anos (pág. 19 e 20) e de beneficiários de RSI (pág. 42 a 45) nas referidas freguesias.

      Com estes dados, também esperava que a CML os tivesse em consideração. Por isso é que não entendo…

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