Animal Farm (I)

22 May, 2010 by  

Em Portugal (eventualmente no resto do mundo será também assim…), pelo menos no que toca ao cumprimento da lei,  somos todos iguais mas há uns mais iguais do que os outros. O Estado por exemplo, dispensa-se de lhe obedecer ou de a fazer cumprir sempre que isso é do seu interesse. Essa lei que laboriosamente promulga para  – supostamente pelo seu cumprimento – nos tornar a vida melhor, mais segura, mais agradável.

O Regulamento Geral do Ruído é paradigmático desta constatação. Quem se der ao trabalho de o ler, verificará o rigor científico que serviu de base ao estabelecimento dos níveis máximos de ruído a cumprir nas mais variadas situações; a pormenorização dos espaços e o seu escalonamento; o rigor das medidas preventivas e a extensão das sanções. Tudo, diria eu, para que se proteja o cidadão, a sua saúde física e mental, o seu bem-estar.

É louvável.

E eu fico contente quando leio, no artigo 14º que “é proibido o exercício de actividades ruidosas temporárias na proximidade de edifícios de habitação aos sábados, domingos e feriados e nos dias úteis entre as 20 e as 8 horas”.

Mas depois leio, no artigo seguinte que o que acabei de ler deixa de ter validade se o presidente da Câmara entender que o direito ao descanso desses moradores pode ser ignorado, tendo a prerrogativa de emitir uma licença especial de ruído.

De facto, há interesses e interesses.

Ontem, utilizei como música de fundo o ruído que me chegava do festival do parque da Bela-Vista. Morando no Lumiar, imagino o que terá sido o serão e princípio da madrugada de quem habita nas suas proximidades. Se considerarmos uma circunferência com centro no mesmo e raio pelo menos igual à distância que vai até á minha casa, percebemos a área onde, grosso modo, será possível ouvir, sem pagar, os decibélicos concertos. Deve ter sido esse serviço público que o presidente tinha em mente quando promulgou a tal licença especial.

Comments

10 Responses to “Animal Farm (I)”
  1. Tiago says:

    🙂 O senhor tem toda a razão.

  2. Miguel says:

    Concordo em absoluto.

    Acontece exactamente o mesmo com o Cineconchas, que deve estar por ai a chegar.
    Durante 1 mês, 3 dias por semana, tenho de esperar até depois da meia noite para adormecer as minhas filhas (1 delas tem agora pouco mais de um ano).

    Se não estou enganado, entre outras coisas, no ano passado responderam-me que era tudo legal porque tinham uma dessas licenças passadas pelo presidente da Camara.

    E quem está incomodado que se mude.

    Diz bem.."animal farm", ou na tradução portuguesa, "O triunfo dos porcos".

    Miguel

    • Tiago says:

      Miguel, se se recordar da conversa que tivemos no ano passado (https://teste-viverlisboa.animoleve.com/?p=5173) verá que ninguém lhe disse para mudar de casa, nem foi invocada a legalidade para relativizar o seu desconforto.

      Recordar-se-á também que notou diferença da edição de 2008 para a de 2009. Efectivamente, a colocação do ecrã em 2009 foi demasiado virada para noroeste, situação que infelizmente, por razões de ordem técnica e logística, não pudemos corrigir nas semanas seguintes.

      Este problema ainda hoje é recordado e discutido pela organização, apesar dos louvores dos moradores terem largamente superado as queixas – para nós, uma declaração de desagrado é para ser levada a sério – de forma a evitar mais situações incómodas como a que infelizmente sentiu no ano passado. Sabemos, pelo seu testemunho, que é possível organizar o CineConchas sem incomodar os vizinhos.

      Tenho alguma pena que apenas veja o lado negativo (ainda por cima não sistémico mas conjuntural, reconhecido por si) do evento, ignorando agora todos os aspecto positivos do mesmo. O nosso objectivo é que o CineConchas tenha apenas vantagens, sem prejuizo de quem quer que seja.

      Se quiser colaborar connosco na busca de soluções cada vez melhores para o CineConchas, nomeadamente na colocação/orientação do ecrã e plateia, por favor envie-nos um email para combinarmos uma visita ao local. Há um sem número de variáveis que obrigam a discussão destas questões técnicas ser feita no local.

      Saudações cordiais.

  3. Carlos Ribeiro says:

    Parece que há aqui um facto indiscutivel: basta haver uma pessoa que se queixe e, terá, obrigatoriamente, que haver soluções… Parece-me que o senhor Miguel tem toda a razão. A organização do CineConchas tb tem razão. Ora o que se coloca aqui é que ao haver uma queixa fundamentada sobre o ruído tem de haver soluções a evitar outras queixas que possam surgir. Eu, p.e. tenho um vizinho que toca piano após as 22h00… Moral: quando for de férias o despertador irá tocar a noite toda pela casa fora… a ver se me aborreço, pois, pois, … eheheh
    cumps

  4. Miguel says:

    Tiago,

    Agradeço a sua atenção nas respostas que sempre tem deixado aqui.
    Por isso mesmo, e porque já no ano passado agradeci a sua atenção, não deve considerar que os meus comentários lhe são dirigidos.
    Por exemplo, na mesma altura em que coloquei comentários aqui, enviei um mail para a CML…ainda estou á espera de resposta. Só passaram 12 meses.

    Começando pelo fim, poderá verificar que nos comentários onde refiro o incómodo que me causou, tambem elogio a iniciativa e o seu interesse para o nosso bairro.
    Portanto, dai nada de novo.
    (continua)

  5. Miguel says:

    O meu comentário, este ano, ligava o post original do seu colega de blog, sobre as licenças de ruido, com o Cineconchas.
    O tema inicial parece-me extremamente pertinente e assinala a incongruência de fazer uma lei cheia de (boas?) regras e, depois, coloca nas mãos de meia dúzia de pessoas fazerem o que quiserem (refiro-me á CML)
    Se reparar, nos seus comentários do ano passado, o Tiago faz referência explicita ao facto de terem as licenças de ruido… Por isso, parece-me pertinente voltar a chamar a atenção para este tema.

    Relativamente ao Cineconchas 2010, deixo o comentário que fiz repetidamente no ano passado. Não sendo técnico de som, parece-me relativamente claro que há zonas melhores e piores para projectar o som dos filmes.
    As melhores parecem-me ser orientar para a "mini-mata" do topo do Parque visto que as árvores devem atenuar o som, ou na direcção da alameda da linhas de torres, onde não tem habitação numa distância considerável.
    (continua)

  6. Miguel says:

    De qualquer das formas, deve ser possivel encontrar uma solução qualquer, visto que em 2008…não me afectou minimamente. Alguma diferença existiu com toda a certeza.

    No entanto, se considerar que posso ser útil numa visita ao local, terei todo o prazer (e interesse..) em fazê-lo. Os meus contactos seguem por mail.

    com os melhores cumprimentos,
    Miguel

    P.S. tive de dividir o comentário..porque estava a receber uma mensagem a dizer que tinha escrito demais…

  7. Tiago says:

    Miguel,

    recebi o seu email, e respondi. Teremos muito gosto em contar com o seu contributo no dia da montagem do equipamento.

    O Intensedebate (o nosso serviço de comentários) dá-se mal com o alguns browsers, nomeadamente o Internet Explorer. Não sei se foi esse que usou, mas com o Firefox não costuma dar problema.

    Quanto ao seu comentário de ontem, peço-lhe que o leia novamente. Quem não conheça as nossas trocas de comentários ou as preocupações da equipa do CineConchas (toda a equipa, já agora, e não apenas eu) ficará a pensar que lhe respondemos de uma forma prepotente, olhando apenas para a legalidade do evento, relevando o transtorno que podemos causar. Não é verdade. Sabemos que não é fácil fazer um evento como o CineConchas, que dá tantas alegrias a tanta gente e faz tanto por um bairro e sua população, sem ter também efeitos secundários indesejados. Tentamos sempre minimizá-los, se não os conseguirmos anular.

    Os melhores cumprimentos,
    Tiago

  8. Tiago says:

    Miguel,

    recebi o seu email, e respondi. Teremos muito gosto em contar com o seu contributo no dia da montagem do equipamento.

    O Intensedebate (o nosso serviço de comentários) dá-se mal com o alguns browsers, nomeadamente o Internet Explorer. Não sei se foi esse que usou, mas com o Firefox não costuma dar problema.

    Quanto ao seu comentário de ontem, peço-lhe que o leia novamente. Quem não conheça as nossas trocas de comentários ou as preocupações da equipa do CineConchas (toda a equipa, já agora, e não apenas eu) ficará a pensar que lhe respondemos de uma forma prepotente, olhando apenas para a legalidade do evento, relevando o transtorno que podemos causar. Não é verdade. Sabemos que não é fácil fazer um evento como o CineConchas, que dá tantas alegrias a tanta gente e faz tanto por um bairro e sua população, sem ter também efeitos secundários indesejados. Tentamos sempre minimizá-los, se não os conseguirmos anular. A situação do ano passado, como já lhe disse, marcou-nos bastante. Basta uma pessoa ficar incomodada para nos sentirmos desconfortáveis. Isso aconteceu no ano passado e tudo faremos este ano para que não volte a acontecer.

    Os melhores cumprimentos,
    Tiago

    • Miguel says:

      Tiago,

      Os comentários e os emails têm este inconveniente de, por vezes, poderem transmitir um "tom" que não traduz o estado de espirito de quem os escreve.

      Tenho tido o cuidado, com frequência, de lhe agradecer a disponibilidade e de louvar a iniciativa do Cineconchas e o seu valor para esta zona.
      Alem de representar o que penso, tinha o objectivo de evitar uma interpretação excessivamente negativa do que escrevo. Parece que falhei esse objectivo.

      Não desistindo de tentar minimizar o incomodo, vou continuar a agradecer-lhe e a elogiar o CineConchas, na esperança que o Tiago tambem leia essas linhas….

      Miguel

      P.S. post escrito no firefox…

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