Alfinetes em Chelas

De palácio passou a fábrica, de fábrica passou a ruína. Das mãos de um banco passou pelas de uma Fundação que ficou sem verbas e acabou às mãos do Município. De local para um projecto de Niemeyer passou a um ermo local. De entrada orgulhosa passou a curioso enquadramento para flores silvestres com “mono” ao fundo.
Caríssimos concidadãos, eis (mais) um exemplo de como é desgarrada a política urbanística em Lisboa, de como existe um fosso enorme entre o declarado amor à reabilitação urbana e as práticas do dia-a-dia, de como são ignorantes das propriedades municipais os nossos eleitos. De como não bastam as palavras nem as verbas, de como não chegam palavras e verbas quando não existe uma visão abrangente e uma política global para a cidade.
Eis o denominado Palácio da Quinta dos Alfinetes, em degradação contínua há décadas, eis um bom exemplar da arquitectura nobre de Lisboa, não aproveitado por incompetências várias. Fosse ele situado num bairro mais central ou mais turístico já teria sido alvo do apetite de privados ou da demagogia pública. Fosse a política da CML mais preocupada com o desenvolvimento equilibrado da cidade, procurasse a autarquia apostar em novas âncoras nos bairros mais desfavorecidos, seria este palácio uma Biblioteca Municipal, um Centro Cultural, uma incubadora de novas empresas. Mas Chelas parece estar reservado, na política de zonamento seguida pela CML e corroborada pela prática de cada executivo, de direita ou de esquerda, a ser bairro exclusivamente de realojados e habitação social.
Assim, resta-lhe ir entardecendo, como tudo neste país.

O Palácio, por volta de 1969, já degradado após o incêndio de 64. Má sorte ter nascido em Chelas (fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)



Realmente é uma pena! Concordo plenamente.
Acho que tem uma arquitectura lindíssima.