A nova biblioteca central, o Benfica e outros campeões.

14 May, 2010 by  

Em 2006, a CML, presidida por Santana Lopes, anunciou a construção da nova Biblioteca Central de Lisboa e Arquivo Municipal, projectado por Aires Mateus e Associados, numa impressionante obra a concretizar no Vale de Santo António (VSA), um vale perdido entre as freguesias da Penha de França e São João.

O projecto da urbanização do VSA incluía também um estádio de futebol desenhado por Souto Moura e habitação a construir pela EPUL, à conta do qual o Benfica recebeu 10 Milhões de euros, história que depois se arrastou num processo sem culpa em que todos perdem tempo e a cidade ganha desleixo.

Achei o projecto interessante, mas sobretudo achava a oportunidade fantástica para transformar o Vale (na altura, e hoje de novo, um verdejante matagal) numa zona que contribuiria para a qualidade da cidade ao renovar equipamentos ao mesmo tempo que encurtava a distância entre Lisboa e a Expo criando um pólo cultural na carenciada zona oriental.

Chegou a existir um daqueles cartazes da CML a dizer algo como: ‘Estamos a construir a nova biblioteca…’ (que entretanto o tempo devolveu ao criador) e com toda a genica iniciou-se uma escavação de 40 metros na encosta onde ficariam os pisos subterrâneos da biblioteca.

Excelente obra de Engenharia que incluiu a sustentação da encosta recorrendo à tecnologia de cortinas de estacas de betão armado, diâmetros 1000mm e 800mm, ancoradas definitiva e provisoriamente ao terreno. Taludes revestidos com betão projectado, pregados e drenados, nos alçados de menor altura.

Mas porque me alongo na descrição das estacas e taludes?

Vista actual sobre as estacas e o campo do Operário Clube de Futebol.

Porque foi isto que a cidade ganhou. Uma interessante e imponente obra de engenharia. Uma cova e um talude são o resultado dos milhões investidos ou oferecidos aos amigos.

A sempre atenta Junta de Freguesia da Penha de França mostra-nos no seu sítio oficial uma maqueta do projecto do VSA. Desde 2006 que esta página está assim. Sempre actual!

outras referências:

CML desistiu de megabiblioteca mas esqueceu-se de o anunciar

Público, 22.01.2009, Ana Henriques
Até hoje, já foram gastos perto de três milhões a preparar terreno onde ia nascer equipamento cultural
A Câmara de Lisboa desistiu da megabiblioteca de 11 andares que prometeu para o Vale de Santo António em 2005, num investimento então calculado em 30 milhões de euros. Quer o vereador do Urbanismo quer o das Obras Municipais dão por adquirido este facto. Esqueceram-se foi de o anunciar à população. Os arquitectos encarregues do projecto, Manuel Aires Mateus e Alberto Souza Oliveira, também não foram informados de que o edifício que desenharam dificilmente verá a luz do dia.

Mais do que uma simples biblioteca, o projecto visava criar nas proximidades da Avenida do General Roçadas, já não muito longe do Tejo, um grande pólo cultural, no qual pudesse ser também alojado o arquivo histórico municipal, com documentos desde o séc. XII, um centro de convenções, com dois auditórios, uma livraria, galerias de exposições e terraços com esplanadas e restaurantes.

A ideia de criar uma biblioteca central vinha já de João Soares, mas foi Santana Lopes quem lançou a primeira pedra, numa cerimónia preparada para o efeito. O projecto não foi isento de críticas: mesmo no departamento camarário de Cultura houve quem o achasse megalómano. Mais tarde, responsáveis camarários haveriam de defender a sua redução.

Mas afinal nem uma versão menor irá por diante. O vereador das Obras, Marcos Perestrello, invoca os elevados custos da obra, que devia ter ficado concluída no final de 2008, para justificar a desistência. Já o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, garante que será construído no local um edifício – mas não uma biblioteca. O PÚBLICO tentou ainda obter esclarecimentos sobre o assunto por parte da vereadora da Cultura, mas sem resultado. “Trata-se de um projecto fundamental para redimir do abandono esta zona da cidade”, observa Aires Mateus. “Se o projecto é reformulável? Claro, mas nunca me pediram para o fazer”.

“É uma pena se o edifício não for construído”, diz também Souza Oliveira. “Este edifício seria uma âncora, tal como a Casa da Música no Porto”. Aires Mateus compara-o ao Centro Cultural de Belém. “Megalómano? Não, de todo. O arquivo foi calculado para os próximos 40 anos, como mandam as normas internacionais”, frisa Souza Oliveira.

Da obra prevista, a única coisa que arrancou foi a escavação e a contenção de terras. Entre isto e o projecto, a autarquia gastou perto de três milhões de euros.

Público 19/10/2005 Projecto de 2003 vai para o lixo.
http://www.publico.pt/Local/camara-de-lisboa-deita-para-o-lixo-plano-do-vale-de-santo-antonio_1236084

Projecto e maqueta:
http://lx-projectos.blogspot.com/2006/09/biblioteca-e-arquivo-municipal-de.html
http://lx-projectos.blogspot.com/2007/01/biblioteca-e-arquivo-municipal.html

Página das bibliotecas de Lisboa com toda a documentação de lançamento da obra:
http://blx.cm-lisboa.pt/gca/index.php?id=1078

Anúncio da CML:
http://www.cm-lisboa.pt/?idc=42&idi=34226

Fotografia cartaz:
http://66.249.128.91/showthread.php?t=254165&page=2

Público 28/01/2010
http://desporto.publico.pt/noticia.aspx?id=1420301
Outra anomalia detectada foi o pagamento de 9,975 milhões de euros pela EPUL ao Benfica em 31 de Dezembro de 2004, pelos eventuais lucros da construção de 200 fogos num terreno no Vale de Santo António

EPUL:
http://www.epul.pt/?idc=4&idi=51

As estacas de contenção da encosta:
http://www.cenga-angola.com/Principal/Portfolio/ForadeAngola/EstruturasFundaçõeseGeotecnia/tabid/81/language/en-US/Default.aspx

Maqueta do projecto VSA:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=497092

Comments

13 Responses to “A nova biblioteca central, o Benfica e outros campeões.”
  1. PedroCG says:

    Exemplar história. A CML 4.1 idealiza o projecto, a CML 5.2 lança a primeira pedra. Da CML 6.1 não se sabe o que pensou. Mas a CML 7.0 acha mal e paralisa. (Normalmente há grandes incompatibilidades entre as versões 5.1 e 7.0 e seguintes – software que funcione com uma, dá-se mal com a outra). Gasta-se dinheiro, aprofunda-se a imagem de incoerência, desperdício e incompetência da Câmara, presidentes e vereadores e funcionários, mas já ninguém se parece importar.

    Tenho uma questão: se a urbanização do Vale de Santo António tivesse avançado e tudo nela anunciado estivesse a ver a luz do dia (15000 m2 de escritórios, 22000 m2 de habitação), como seria o futuro próximo da Alta?

    E ainda outra: os decisores da EPUL e das CML não estão atentos à evolução do mercado imobiliário, avançam com estes mega-projectos sem pensar nas consequências para a restante cidade ou estes anúncios e investimentos são somente o que o "day after" parece garantir: um gigantesco bodo aos…

  2. Tiago says:

    Pois, isto é uma pequena Alta de Lisboa. Vá lá que aqui o engano só custou 10.000.000€ para o Glorioso, mais os custos do talude e dos projectos de arquitectura.

    E também pergunto, se isto tivesse avançado, como avançam agora os projectos do Campo Grande, da Expo e Alcântara, com quem se irá reabitar a Baixa e outros bairros históricos, desígnio tão proclamado em conferências, debates e campanhas?

  3. Manuel Ferreira says:

    Só um pequeno pormenor que está a escapar a muita boa gente. Esta urbanização foi vendida pela EPUL (que é oficialmente a dona do lugar) ao mesmo construtor (João Bernardino Gomes – entretanto falecido num acidente de automóvel) que era o dono dos terrenos do Benfica junto ao estádio da Luz e que foi o primeiro classificado (não tendo impugnado o concurso) da hasta pública da Feira Popular que só não venceu devido ao muito comentado direito de preferência da Braga Parques.

    Resta acrescentar que os escritórios da firma João Bernardino Gomes foram revistados pela P. Judiciária a propósito deste conjunto de "negócios" com a CML. Os resultados? No segredo dos deuses.

    Curioso não é? É que os negócios em Lisboa são sempre feitos pelos mesmos e com os mesmos.

    Sobre o processo de construção do muro e das estacas muito haveria para dizer mas fica para outra oportunidade.

    Manuel Ferreira

    • Tiago says:

      Ah, não vale!! Diga lá agora, Manuel.

      • Manuel Ferreira says:

        Dois pequenos aperitivos:
        – a meio do processo de escavação alguém decidiu acrescentar mais níveis de caves;
        – as ancoragens feitas eram provisórias pois quando o edifício fosse construído "ampararia" o muro. Sem edifício as ancoragens tiveram que ser transformadas de provisórias em definitivas:

        Alguém imagina o custo, todo ele suportado pela EPUL (o mesmo é dizer por todos nós)?

        Fiquemos pois por aqui com mais uma brilhante decisão (do Santana) e contra decisão (do Costa).

        Manuel Ferreira

        • Tiago says:

          Tenho umas dúvidas:

          1º quem decidiu e como pode decidir o aumento dos níveis de cave? E porque decidiu?

          2º Porque não chegou então a haver edifício que amparasse o muro?

        • Benjiita says:

          Um projecto mesmo inearesstnte! Je1 tinha conhecimento atrave9s da Re1dio Comercial, que ajudaram na divulgae7e3o…BjinhosP.S. Ainda ne3o mostrei ao G., mas de certeza que vai gostar, pois o meu menino adora mfasica 🙂

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