Do not cross!
26 May, 2010 by João Ramos de Almeida

Há coisas que devem olhadas com uma visão bem mais ampla.
Uma passadeira de peões não é uma passadeira de peões. é a última barricada da civilização, o respeito do Homem pelo homem.
Um cruzamento de automóveis não é um cruzamento: é um teste quase divino à manutenção do alfacinha como ser Humano.
Tudo tem uma macro intenção que o quotidiano pessoal tende a menorizar, mas que está lá em toda a sua importância. Basta olhar.
Ando a matutar nisto desde que há uns tempos. E tenho vindo a desenvolver a minha tese em silêncio, como o faz alguém que receia que lhe roubem a ideia. Mas há coisas que têm de ser provadas antes de ser defendidas. Passo a desenvolver.
Primeira: Não é por acaso que quem viaja pelos países do norte da Europa se assusta com aquela disciplina dos cidadãos diante de uma luz vermelha. Páram, quase sonâmbulos, e assim ficam enquanto nada muda. Quando a luz verde se acende, acordam e voltam à vida.
Ao princípio, fiquei boquiaberto. Vinha do centro caótico marroquino de Lisboa e não estava habituado. Depois, pensei que era a forma habitual de quem descansava da alta produtivididade. Até eram capazes de aproveitar para pensar em qualquer coisa. Mas depois percebi que era uma forma de auto-disciplina inconsciente, de refreamento sueco contra o impulso humano, natural, de poupar tempo e esforços. Era uma forma de manter uma rotina. E nada mais poderoso do que a repetição. O cérebro funciona assim. Vinca aquilo que se repete todos os dias.
E a questão da passagem de peões funciona nos dois sentidos. Ao conter-se, o cidadão habitua-o à civilidade, ao respeito, à ordem, à regra. Acende luz, apaga luz. E, do mesmo modo, ao conter o seu impulso animal, não abriu a barragem que o levará a fazer tudo para alcançar em primeiro lugar, para acotovelar o vizinho, para esmurrar o parceiro, para atirar pela borda-fora quem venha aproximar-se pela esquerda.
Quem inventou as passadeiras criou um “medicamento” único contra a desordem dos mais descalços.
Segundo: o cruzamento é apenas uma variante do primeiro. Mas mais complexo.
Digo isto porque noutro dia, assisti a algo único. No cruzamento da Avenida das Forças Armadas com a Avenida Professor Gama Pinto (aquela que vai dar à Cidade Universitária), estava um semáforo avariado. É um cruzamento complicado e nada melhor como um teste do que avariá-lo. Foi o caos.
Havia os carros que queriam ir em frente, os que queriam virar, tanto para a direita como para a esquerda. Foi preciso uma boa meia-hora para escoar uns míseros 40 metros de bicha de automóveis em cada um dos lados. Repito: vinte metros são 12 automóveis em linha.
Lembro-me sempre daquela imagem do filme “Patton” em que o general teve subir para um tronco de uma árvore e fazer de polícia sinaleiro de tanques porque ninguém conseguia entender a simples regra de “passo um de um lado, passa um do outro lado”.
Conclusão: é mais fácil civilizar quem anda a pé através de uma luz vermelha. Mas é preciso que a luz nunca se apague.
Nota: esteja atento ao comportamento dos proprietários de BMW e Audi. Também há quem tenha a mesma impressão sobre quem é dono de carros-carrinhas e Jeeps. É que a arrogância social é um mecanismo igualmente poderoso que não vai lá com comprimidos.
Sobretudo porque raramente andam a pé e, se calhar, porque têm luzes vermelhas próprias.



Eu até tenho um Audi…que tem 11 anos…
mas sou nascida e criada no Luxemburgo e à semelhança da Suécia, o povo é civilizado…
Bem-haja!
Catarina Cordeiro
Os comentários feitos não visam, obviamente, a totalidade do universo dos proprietários das marcas. Trata-se de uma apreciação subjectiva, com base numa amostra pouco significativa dos carros que, diante de mim, manifestaram comportamentos arriscados e egoístas.
Não quer dizer que todos os proprietários de carros daquelas marcas tenham tido esse comportamento. Quer apenas dizer que, os que tiveram, eram manifestamente concentrados nessas marcas. Porquê? Não sei.
Para mim, tem que ver com a forma como certas pessoas olham para essas marcas. E isso possivelmente tem a ver como olham a sua vida. E a das outros.
Não é, com o se vê, novidade.
Mas posso desenvolver o estudo e apresentar mais números. Até lá – e mesmo depois disso – ninguém deve se sentir visado ou ferido.