Não há ponta sem nó

27 April, 2010 by  

“Ersília, explica o viajante veneziano ao imperador mongol, é uma cidade notável pelo gigantesco emaranhado de fios coloridos que se estendem entre os seus edifícios. São os próprios ersilianos que vão estendendo esses fios entre as suas casas de acordo com a relação entre os ocupantes de cada habitação. Se o habitante de uma casa é subordinado de outra, estende-se um fio de certa cor; se a relação é de parentesco, estende-se um fio de outra cor; um namoro leva um fio de uma terceira cor; relações de clientela, profissionais, de amizade ou mero conhecimento casual exigiriam novos fios. No momento em que já não se consegue cruzar a rua sem ser detido pelos incontornáveis fios que embaraçam os trajectos dos ersilianos, os habitantes desmontam as suas casas e reedificam a cidade noutro lugar até todo o processo se repetir.”

In Calvino, Italo, “As cidades Invisíveis”

A metáfora é de um simbolismo que apetece plagiar e cuja a expressão mais parecida me remete de imediato para o universo decorativo das festas dos Santos Populares.

Talvez o maior problema de Lisboa fosse entupir a cidade só com os 10 000 fios de funcionários da autarquia e a rapidez com que teríamos de reedificar novamente.

Comments

One Response to “Não há ponta sem nó”
  1. PedroCG says:

    Eu prefiro continuar a pensar que, mais do que nos 10.000 funcionários – com vontades, indolências, capacidade, incompetência, empenho, esquemas – o problema está na fraqueza das vereações e acompanhantes, fracos reis a fazerem ainda mais fraca a pobre gente.

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!