Era mesmo necessário?
8 April, 2010 by João Ramos de Almeida

Devo confessar duas coisas.
A primeira é que sempre estive contra a abertura do Túnel do Marquês de Pombal. E a segunda é que sou utilizador do Túnel e que, como não passo por lá em horas de ponta, até penso que funciona.
Isto é, funciona para o meu uso de automobilista. Venho de um dos extremos da cidade e, de repente, estou no centro da cidade. O trânsito parece escorrer e os semáforos até não constituem uma barreira à fluidez do tráfego.
Mas depois há os efeitos perversos que podem ir contra o meu prazer egoísta de transitar de carro, sem obstáculos, pela cidade inteira.
Primeiro, havia uma questão de princípio que nunca foi discutida como deve ser, quando se projectou o Túnel do Marquês. Foi interessante ver o candidato a presidente da Câmara Santana Lopes defender, por um lado, um menor afluxo de carros à cidade e, por outro, a bater-se com unhas e dentes pela abertura do Túnel que, estava na cara, que iria trazer mais rapidamente os carros para dentro da cidade, com tudo o que isso acarreta. Ou seja, teria sido preferível discutir se, a prazo, o Túnel era realmente o que mais interessava na cidade que se projecta, que se pretende ter a prazo.
Agora é tarde. O buraco está aberto. E começam a sentir-se os efeitos.
O Túnel, dizem, até está bem equipado com equipamento, mas “a única solução passa por restringir o uso do carro”.
Interessante argumento no que respeita ao uso dos dinheiros públicos… Abriu-se um túnel e agora restringe-se o seu uso?
Se a divulgação deste estudo tem um pouco o sabor a vingança disparatada – o estudo foi pedido pela Câmara de Lisboa depois de o dinheiro ter sido gasto – pode ter uma vantagem. A de obrigar à aceleração da discussão sobre o problema dos carros na cidade.
E dou a primeira sugestão para colmatar o diferendo.
Uma sugestão que levará a gastar mais dinheiros públicos. São as mais fáceis – o dinheiro não é nosso. Ser é, mas como não se pode decidir sobre ele, é mais fácil pensar que não é.
Primeira: Tape-se o Túnel. E aproveite-se para reforçar as casas que foram abaladas com as obras de construção.
Segunda, muito mais positiva e construtiva, mas tão disparatada como o processo que levou á construção do Túnel: Construa-se uma enorme piscina municipal com ondas, um gigantesco slalom aquático, ou uma pista para surfistas urbanos.
Provoquei um sorriso? Bom, agora retire esse sorriso e pense nas partículas nos seus pulmões enquanto espera pela abertura do semáforo.



Parece-me que existem alguns equívocos no post, que me permito questionar.
O primeiro, refere-se ao facto, não referido, mas creio insofismável, que se prende com a saída de automóveis da cidade. É que o post só fala na entrada de viaturas, que é o argumento argumentativamente mais fácil. Seja à hora que for, mas sobretudo à hora de ponta, é muito, mas muito mais fácil sair de Lisboa. Estarei errado? Não creio. Objectivamente e sem juízos de valor pré-concebidos, não há um lisboeta que não ache isso. Pergunte-se aos motoristas de táxi.
O segundo, refere-se á poluição. O túnel é poluído. E o ar à superfície na zona que vai do Marquẽs de Pombal às Amoreiras? Melhorou, ou piorou? Desconheço se o estudo mencionado o fez, mas penso que seria interessante comparar a poluição nessa zona, por exemplo, com a Av. da Liberdade. Será que seria idêntica? Também não creio.
Finalmente, não seria mais interessante em vez fazer a piscina municipal com ondas, ou a pista para surfistas urbanos (esta tocou-me…) terminar o túnel na parte referente à Av. António Augusto de Aguiar? Talvez melhorasse o trânsito e o ambiente. E economicamente seria mais sensato. Não?
Apesar disso, estou com um sorriso. É que o mito de que os túneis são negativos porque permitem chegar mais cedo ao centro das cidades (uma evidência) não faz apagar as vantagens da sua existência. Por isso, cada vez mais nas cidades urbanisticamente mais evoluídas e atraentes do ponto de vista sustentável, tẽm mais túneis, retirando os automóveis à superfície e assim melhorando a qualidade do ar. Os exemplos não acabam.
Mas eu sou um não técnico, que não percebe nada de túneis, por isso se calhar o melhor é mesmo a opção da piscina e com muita água e ondas.
🙂
Subscrevo
A questão, a meu ver, não se centra no aspecto específico das vantagens ou desvantagens da existência deste ou de outro túnel rodoviário. A verdadeira questão está no modelo de cidade que queremos ter para o futuro.
E qual é esse modelo, Pedro?
Já perguntaram às pessoas que vivem naquela zona de preferem com Túnel ou sem Túnel!
A resposta será com Túnel! Melhorou imenso a qualidade de vida de quem vive naquela zona porque agora consegue circular à superfície e não têm um engarrafamento constante à porta de casa.
O que vai fazer as pessoas não trazerem carros para Lisboa são bons Transportes Públicos, Parques de estacionamento junto das Estações de Metro/Comboios fora de Lisboa, Parquímetros e boa Fiscalização!
Não são os túneis que vão fazer as pessoas trazer mais o carro, porque essas pessoas sempre levaram o carro para Lisboa com túnel ou sem túnel!
Trabalhei durante três anos na Rua da Artilharia Um. A zona está irreconhecível! Agora até se ouvem pássaros!
http://www.lisboacomsentido.com/?idc=40&idi=4949
Partamos do princípio que vivemos em cidades para melhorarmos a nossa qualidade de vida (conceito que agora não vou discutir), ao termos acesso a mais coisas. E isto resulta da maior partilha de recursos: equipamentos e serviços, acessos, mão-de-obra, etc.
Se isto for assim, pergunto: qual é o sentido que tem utilizar-se na cidade um meio de transporte de uso e propriedade exclusivo e não partilhado? A disponibilidade? A livre escolha dos itinerários? A segurança? Isso pode ser prestado por transportes colectivos/públicos de qualidade e bem geridos, que prestem um serviço cómodo, que seja utilizado por opção e não por obrigação.
Porque é que ninguém discute ou se revolta quanto ao absurdo que é a falta de gestão de transportes colectivos da área metropolitana de Lisboa, ou, ao menos, pelo que é o disparate da rede da carris, que tem sítios onde passam várias carreiras, e por cima do metro, e noutros onde é "ao lá vai um"? No dia em que começarmos a ver buzinões e outras manifestações a exigir mobilidade e acesso adequados à cidade e não para auto-estradas maiores ou por causa dos preços das portagens, então aí a discussão sobre túnel / não túnel deixa de existir e ficarei a achar que subimos mais um degrau na escada da evolução.
Também partilho da ideia que vivemos em cidades para melhorar o nossa qualidade de vida e que as cidades surgem por um questão de eficiência. Juntam-se num sítio o fornecedores e consumidores de serviços e ligam-se todos por uma eficiente rede de transportes.
Isto é a teoria. Na prática essa rede não é eficiente, as pessoas não sentem um aumento da qualidade de vida por viver na cidade e movem-se para fora.
Regressam todos os dias porque o trabalho e outros serviços ainda cá estão. Vêm de carro porque a tal rede não funciona. O aumento de carros aumenta ainda mais a ineficiência da rede de transportes, realimentando o ciclo.
Como é que se resolve? Facilita-se ou bloqueia-se a entrada de carros? Sinceramente não sei.
Sei e lamento que muitos colegas e amigos que vivem fora de Lisboa às vezes em sítios tão "remotos" quanto S.Marcos ou Carnaxide partilham da ideia que isto de viver em Lisboa não traz vantagens. Será que traz?
Tenho de utilizar carro para me deslocar; moro numa casa muito mais pequena e mais cara que outras nos arredores; pago impostos por infraestruturas que servem todos os outros que entram em Lisboa mas um acesso pedonal em condições para a estação de metro mais próxima não tenho. Às vezes a descrença instala-se….