Alcântara – O Mercado
22 April, 2010 by Pedro
Esta é mais uma história paradigmática de como a gestão da cidade é aleatória e do modo como o poder se relaciona com o cidadão.
Em Alcântara, o Mercado Municipal está localizado sob a Ponte.

De vez em quando cai um parafuso, parece que, até hoje, ninguém foi afectado e ele lá continua. Como todos os mercados da cidade, definha, fruto da concorrência desproporcionada das grandes e médias superfícies e do envelhecimento e empobrecimento da população.
Ignorando que a sustentabilidade de uma infraestrutura como esta está irremediavelmente posta em causa pelo decréscimo populacional que se verifica na cidade, alguém terá achado que o negócio feito em Alvalade – onde, a troco de, não se sabe bem o quê, o Lidl se instalou paredes meias com o mercado -, poderia ser um exemplo a seguir. Inventou-se assim um concurso para o mercado de Alcântara onde, a troco da reabilitação do edifício se oferecia um espaço a uma média superfície. Para o jogo ficar menos desequilibrado, impunha-se como condição ao adjudicatário não vender produtos concorrenciais durante as horas de abertura do mercado (das 7:00 às 14:00). O Lidl venceu o concurso, fez as obras e abriu as portas.

Entretanto, como a mão esquerda da CML não sabe o que a direita faz, outro alguém (com certeza desconhecedor destas “parcerias” e dos compromissos públicos e contratuais efectuados) decidiu que a estrutura de Alcântara deveria passar a funcionar de acordo com o novo conceito de MERCADO MUNICIPAL, com um horário de funcionamento extensivo, das 7:00 às 20:00.


Mercado de Alcântara, hoje, às 15:45. Só duas bancas abertas, zero clientes
E contactou o Lidl para o informar que, afinal (coisa pouca…) não poderia vender os tais produtos até às 20:00. O Lidl, naturalmente, recusou-se, alegando que isso seria uma violação das condições do concurso e do contrato estabelecido entre as partes.

Lidl do mercado, hoje à mesma hora: a zona dos frescos (ao fundo) aberta. Na loja, 20 clientes. "Produtos XXL a preços xxs" é a mensagem gravada nos consumidores enquanto se encaminham para a fruta, legumes e carne

Frutas e legumes numa apresentação apelativa, deixando a milhas as envergonhadas bancas do mercado

As carnes. "Mais barato!". Num contexto de crise, não é difícil de adivinhar para onde cairá a preferência dos consumidores
Assim, a partir das 14:00, os comerciantes do mercado sofrem directamente a concorrência do Lidl. E estão a ser confrontados com aumentos de renda que, nalguns casos quadruplica. O tempo se encarregaria de lhes dar cabo do negócio. Não era preciso a CML ajudar.
NOTA FINAL: O PS, na Assembleia Municipal, votou contra uma proposta que propunha uma negociação com o Lidl que levasse à anulação desta concorrência. Não se conhecendo declaração de voto, ficamos sem saber se por achar que a CML deve impôr estas condições ao supermercado ou se por ter consciência de que essa anulação levaria a mais um processo e a um consequente pagamento de indemnizações. Ou se por já ter percebido que a única maneira de evitar esta concorrência é a de voltar a fechar o mercado às 14:00. Assumindo a incompetência que enforma todo este processo.



Situações como esta repetem-se e reproduzem-se gratuitamente em Portugal, por uma simples e básica razão: não existem políticas de ordenamento comercial. Se houvesse, não tinhamos Dolce Vita, Odivelas Parque e Loures Shopping a 5 minutos uns dos outros… e isso reproduz-se também à escala do bairro…quem controla ou aconselha onde que tipo de comércio se deve instalar? Só "as leis do Mercado" – que é o mesmo que dizer "a lei do mais forte".
Em Barcelona alguns mercados municipais são espectaculares e estão cheios de vida!
Em Madrid também.https://teste-viverlisboa.animoleve.com/?p=6483