A casa e a rua

14 April, 2010 by  

Bica, Junho 1991

A casa é o tema da segunda edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa 2010, um evento composto por várias actividades – concursos, exposições, conferência internacional – que se realizará entre Outubro de 2010 e Janeiro 2011. Com inspiração na poesia de Herberto Helder – “Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder tão firme e silencioso como só houve no tempo mais antigo” – este evento toma como fio condutor o habitar e o sentido de lugar como dimensões cruciais do viver urbano.

Apresentar a “prática arquitectónica como uma expressão fundamental da criação do lugar, da construção de uma cidadania integradora e da afirmação cultural” é a proposta; fazer a arquitectura descer à rua, aproximá-la da vivência cívica, política e da democracia (participativa, entenda-se). De certo modo, esta temática surge como simétrica e oposta à que, em 2007, dera o mote para a 1ª edição deste evento: os vazios urbanos.

Desta vez é a casa que é procurada, como base do habitar e dos lugares que dão sentido ao viver na cidade. Viver é, de certo modo, pertencer; e este sentido é algo que se vai, subjectivamente, construindo em várias escalas, ao longo do tempo. Falar da casa implica falar da rua. A casa e a rua são um par inseparável, tal como a rua e o bairro, tal como o bairro e a cidade. As casas fazem as ruas que, por sua vez, compõem bairros que são as pequenas (ou grandes) porções de cidade que nos ajudam a pensar o próprio facto da urbanidade.

Partir da casa e da rua como forma de pensar a cidade é uma boa notícia; é levar a sério a micro-escala da vida quotidiana como motor da vida citadina, na sua imensa diversidade e, também, como fonte do conhecimento. Evocar o sentido de lugar, como elemento fundamental do viver urbano, é igualmente tranquilizador, pois valoriza o lado mais humano das cidades, feito de sociabilidades e solidariedades de muitos tipos. Esperemos que com esta Trienal de Arquitectura que aí vem, vamos, então, falar “…de casas como quem fala da sua alma”, para citar novamente Herberto Hélder, e olhar para as ruas de Lisboa como quem sabe que a cidade se faz por dentro e a partir de baixo.

Para mais informação, clicar aqui.

Bica, Junho 1991

Telheiras, durante o Euro’2004

Comments

2 Responses to “A casa e a rua”
  1. Tiago says:

    Por acaso tem piada que falei com dois amigos sobre isto há pouco tempo, a ausência de peso que tem a identidade do lugar, para muitas pessoas, quando se procura casa para comprar.

    E vendo a maioria da promoção imobiliária apostar nos méritos da porta do apartamento para dentro, desde as questões ligadas à segurança (porta blindada, porteiro com video-vigilância, condomínio fechado) aos extras inúteis e outras coisas tidas como de luxo (vidros-duplos, colunas de som no tecto, aquecimento central), parece-me confirmar que a rua e o bairro, com todas as possibilidades que oferece, são ainda colocadas num plano secundário.

    Estou por isso muito curioso em ir à Trienal.

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