Porta 19
26 March, 2010 by Diana Ralha

A viagem pela avenida maldita começa na porta 19 – eventualmente, depois, recuaremos até ao número 1 e daí em diante, ou talvez não, porque entre avanços e recuos é assim que se conta uma história.
A viagem começa no 19, porque este é o número em cima da porta de entrada do prédio antigo onde todos os dias se desenrola a história da família Ralha, na avenida onde ninguém, no seu perfeito juízo, quer viver.
Porque é também à porta do 19 que as coisas mais extraordinárias acontecem, onde encontro bondade, beleza e amizade no meio do caos, do abandono e da miséria.
Cada qual gere a pressão como pode e o melhor que sabe: há quem roa as unhas ou as peles, quem bata incessantemente com a perna no chão, incomodando os vizinhos da secretária ao lado. Há quem ranja os dentes, quem baloice discretamente o corpo para trás e para a frente.
Há antídotos para a pressão de toda a espécie.
Eu recorro amiúde a todos os enunciados atrás e a mais alguns um pouco mais embaraçosos – quando era jornalista e tudo se me permitia, era recorrente ir à janela lançar bolinhas de sabão, ajudava-me muitíssimo a superar as dores do dia e o Afonso, o louco da Rua Viriato, pulava de alegria quando via as bolinhas irisadas a voarem rua abaixo por entre os plátanos.
Mas agora sou mãe de dois filhos e tenho uma categoria profissional que se expressa em inglês e apenas em inglês – o que é de si só uma grande responsabilidade e uma trabalheira para explicar concretamente o que faço –, e que faz com que a forma como melhor consigo descontrair sem incomodar ninguém, e sobretudo sem dar nas vistas – adiando a rescisão de contrato de trabalho por inadaptação –, é varrendo os classificados de todos os jornais e de todos os portais da Internet.
Foi assim que encontrei a porta 19 da Almirante Reis.
Pegar num caderno de classificados é tão ou mais estimulante e recompensador do que encontrar uma agulha no palheiro, completar um puzzle de três mil peças, ou desemaranhar um novelo desfeito durante a noite pelo gato. A Internet, claro, retirou um pouco o gosto de aventura à coisa – motores de busca, filtros de pesquisa tornam tudo mais simples e, sobretudo, mais rápido, mas acaba por ter menos emoção.
Como em tudo na vida, por vezes, para baralhar as cartas e voltar a dá-las, há que desafiar o destino, levar as coisas aos extremos. Nesse dia de Agosto, mês da silly season, decidi ficar também um pouco tonta e procurar num portal imobiliário imóveis em Lisboa de seis ou mais assoalhadas, com área superior a 120 metros quadrados, e preço inferior a 150.000 euros.
Surpreendentemente, apareceram várias dezenas. E todas elas na freguesia dos Anjos.
A da porta 19 parecia mentira, recuperada, tectos trabalhados, chão de tábua corrida, vista para o castelo, sete divisões assoalhadas por menos de 130.000 euros?
What’s the catch?, pensei eu, ao discar o número da imobiliária com o coração descompassado, como quem pressente que está quase a encontrar uma coisa preciosa. Está construída em cima de um cemitério índio? É paredes-meias com uma pensão de vão de escada? Foi palco de um terrível homicídio descrito meses antes no Correio da Manhã?
Os quartos e os quintos andares sem elevador nunca me assustaram. Na altura morava num quarto andar sem elevador aos pés do Duque de Loulé, na pacata Rua de Santa Marta, e sim, apesar de não ter perguntado, o código de ética do promotor imobiliário informou-me prontamente que se tratava de um quinto andar sem elevador. Na Almirante Reis. Ao Intendente.
Eram esses os defeitos, de acordo com a voz que saía do auscultador do telefone.
Do outro lado da linha, o mediador imobiliário também não acreditava decerto no que estava a ouvir: “Mas diga-me lá por favor qual é o defeito da casa? Assim não perdemos ambos o nosso precioso tempo. Esses que me diz para mim não são bem defeitos.”
“Não me importo com a ausência de elevador, nem com o Intendente, pobre coitado, é verdade que se soubesse o regabofe que se passa no largo baptizado com o seu nome seguia o exemplo do Cândido dos Reis e dava um tiro nos cornos, mas não qualifica só por si como um grande defeito. Há boa gente em todo o lado, certamente há boa gente no Intendente. E, aliás, desde pequena que sonho morar na Almirante Reis, fazia excursões na faculdade, da Rua da Palma até ao Chile, a mostrar aos colegas de fora a Lisboa de que eu mais gostava, que cheirava a caril e a noodles.”
Nem meia hora depois, estávamos à porta do 19. E outra meia hora depois, a casa era nossa.
E foi então que vimos pela primeira vez o Sr. Hussein.
A porta 19 da Almirante Reis não é das mais bonitas, mas é seguramente uma das portas mais coloridas de Lisboa. O Senhor Hussein é um homem com mais de meio século de vida, dentes muito brancos e um sorriso de criança. É, sei-o agora, uma daquelas pessoas extremamente raras, que já não se encontram tão facilmente como antes. É uma pessoa verdadeiramente boa. Incapaz de fazer o mal. De sentir inveja. De reclamar vingança. De mentir ou roubar.
Mas nessa altura eu não sabia nada disso, apenas registei o sorriso, a máquina de costura onde faz pequenos arranjos de roupa – os únicos da avenida – com a bandeira do Paquistão, as fotos dos filhos sentados à frente de um cenário bollywoodesco com o cabelo muito penteadinho, as transcrições do Alcorão atrás de si.
O Senhor Hussein subaluga o vão de escada da porta 19 da Almirante Reis por um balúrdio que o condomínio não chega a ver, porque o contrato original é uma ridicularia. Por debaixo de roupas produzidas algures entre a Índia, Nepal, Paquistão, China (e de vez em quando surgem surpreendentemente umas etiquetas italianas, que ele faz questão de me mostrar), penduradas nas paredes, tectos e ombreira das portas estão as nossas caixas de correio, muito bonitas, e uns azulejos de lastro com relevo de heras, mas eu não me importo de apenas vê-los de noite, quando a “loja” do senhor Hussein está fechada.
É um preço baixo a pagar por tamanha simpatia, por ter um porteiro das 10h às 19h a guardar-me a casa.
À vizinha do primeiro andar, que embirra com ele e insiste em recrutar condóminos para o despejar pelo “mau aspecto” que dá à porta (outra que devia morar em Telheiras, se está preocupada com o mau aspecto da Avenida), o Senhor Hussein diz na brincadeira que é da terra do Bin Laden. Mas seria incapaz de fazer mal a uma mosca, muito menos pertencer a uma célula da Al Qaeda.
É conhecido por vários nomes: já ouvi chamarem-no Hassan e Mohammed. Não sei, na verdade, então, como ele se chama. Sei que não se interessa por política, nem segue a actualidade internacional. Quando Obama ganhou as eleições tentámos explicar-lhe que um Hussein tinha sido eleito presidente dos EUA, mas a euforia da eleição do primeiro presidente negro do outro lado do oceano pouco lhe importava.
Os diálogos são deveras complexos, porque o Senhor Hussein não se habitua à língua de Camões. Comunicamos por conceitos e sorrisos. Sorrimos muito. Eu sou a “prima”. A minha filha mais velha é a “boneca”. O meu filho António é o “patron”. O meu marido é o único que tem direito a ser tratado pelo seu nome, “João”.
O António foi crescendo na minha barriga no decorrer das obras de Santa Engrácia que decidimos fazer depois de escriturarmos o nosso “palácio” no Intendente. Levava seis meses de gravidez quando nos mudámos finalmente para a casa que poderia ser a dos sonhos de tanta gente, acaso as suas coordenadas de GPS fossem outras.
E eu fui-me arrastando escadas acima com o meu barrigão, e fui comprando túnicas freaks ao senhor Hussein, fazendo umas bainhas e outros pequenos arranjos. Al Salaam Aleikum passou a fazer parte do meu vocabulário, ao que o Senhor Hussein me responde Al malekum salaam. E ao fim do dia, quando nos despedimos, ele responde: Allahu Akbar.
Um dia destes, o “patron” António estava muito doente. Quando os meus filhos estão doentes, o Senhor Hussein sopra-lhes para a testa e reza um pouquinho em silêncio quando passamos pela sua máquina de costura a caminho do médico. Nesse dia, aflita, eu não disse Al Salaam Aleikum porque ia para a urgência pediátrica de um hospital.
O Senhor Hussein deteve-me e perguntou o que se passava com o “patron”. “Muito doente”, disse eu. “Outra vez, ainda a semana passada estava doente, temos que ir para o Hospital.”
O senhor Hussein pediu-me para eu esperar um pouco. Tirou o seu cartão UZO da carteira, remexeu uns cartões-de-visita, discou um número e começou a falar em árabe. De toda aquela melodia eu só percebi o seguinte: “Antony” e “Portugalia”. Colocou o telefone em voz alta, ao pé do meu filho. E durante uns cinco minutos, um homem rezou pelo meu filho e acabou com “Allahu Akbar”.
Terminado o telefonema, agradeci e perguntei se quem tinha rezado pelo meu filho há instantes era o líder da mesquita da Mouraria, da qual ele já me tem falado amiúde. Não. Quem rezou pela saúde do meu filho foi o líder espiritual do Senhor Hussein, directamente de Sialkot, a sexta maior cidade do Paquistão, e onde nasceu o meu querido amigo Hussein.
E agora, digam-me lá se eu não fiz bem em viver na Baixa amaldiçoada de Lisboa?



Diana, que delícia de post! É tão cinematográfico, tão Amélie Poulain, tão enternecedor, bolas… Dá-me vontade de colocar o meu T3 à venda e voltar a morar numa casa com assoalhadas, ter vida nas ruas, histórias para contar. Dá vontade de Viver Lisboa.
Obrigado.
Diana, diga ola ao sr. Hussein por mim.Um vizinho assim já não se vê…
mas que bela história. Fico muito feliz por saber que em Lisboa ainda se podem encontrar excelentes vizinhos!
Boa Diana, alegraste o meu serão. 🙂
Diana lá no fundo ainda existe pessoas assim…poucas mas há.
E o facto de se dizer que existe lugares "maus" a verdade é que são as pessoas que os tornam assim. Existem muitos preconceitos…e nunca nos podemos esquecer que á muto boa gente em todos os sitios.
Gostei muito da sua partilha!
Muito bonito, Diana. Acho que mostras muito bem que a bondade, beleza e amizade surge da abertura que cada um tem para ir ao seu encontro, ou para se deixar surpreender por essas qualidades humanas que, mesmo nas condições mais adversas, sempre existem. E penso que elas existem independentemente do décor urbano, do tipo de prédio, de rua ou de bairro em que se vive… e mesmo que não se aninhem em vãos de escada tão fascinantes como o da porta 19.
Lindo artigo Diana. Estou com curiosidade em visitar a porta 19 e conhecer o Sr. Hussein!
Muito bem!
nao moro ao pe da porta 19,mas tenho uma grande amiga que mora no martim moniz e por isso vou la muitas vezes,conheço esse senhor,conheço essas ruas,e conheço algumas pessoas e lojas,é o sitio mais cosmopolita de portugal,talvez um dia eu coloque aqui em palavras a historia do chines que pinta maravilhosamente bem,e que ajudou tanto a minha amiga antes e depois de eu a conhecer,parabens pelo seu post. felicidades
Obrigada a todos pelos simpáticos comentários.
E passem sempre pela porta 19, ela está sempre aberta. É uma delícia a parafernália de calças e túnicas coloridas à venda. Vale a pena!
Olá Diana. Por acaso, meramente por acaso li este teu artigo que acho espectacular! Que bom é vivermos perto de quem gostamos, não é? Um abraço. A tua colega Helena
Lindo!
se consigue toda clase de ropa de 2da a buen estado? Irotama Colombia