Reabilitação urbana – o exemplo de Madrid
13 February, 2010 by Tiago Figueiredo
O centro histórico de Madrid impressiona, à primeira vista, pela magnificência de muitos edifícios e pela grandiosidade das ruas. A seguir, olhando com mais atenção, repara-se na extraordinária conservação dos prédios, na limpeza das ruas, no ordenamento do trânsito e estacionamento automóvel, a quantidade e variedade de comércio e pelos milhões de transeuntes que dão vida aos bairros.
Surgem na cabeça comparações óbvias com outros centros históricos, e a curiosidade de saber porquê e como existe Madrid.


Mas parece que nem sempre foi assim. Em 1994 o Governo Espanhol e o Ayuntamiento de Madrid quiseram inverter a então crescente degradação arquitectónica, urbanística, social e ambiental do centro histórico de Madrid, com muitos problemas de marginalidade, imigração, prostituição, população envelhecida com baixos recursos económicos, edifícios devolutos e desinvestimentento do comércio, lançando vários planos de reabilitação urbana destes bairros, com os seguintes objectivos:
– Recuperar o Centro Histórico de Madrid nos seus aspectos urbanísticos, arquitectónicos, sociais e comerciais.
– Renovar equipamentos urbanos obsoletos.
– Incorporar um novo desenho urbano mais adequado às necessidades da população.
– Apoiar a pequena indústria artesanal e o pequeno comércio.
Foi feita reabilitação do edificado, melhoria das acessibilidades, redução do trânsito automóvel, criação de espaços pedonais de descanso, criação de espaços verdes, criação de locais para pequeno comércio. Além disto, foram promovidas reuniões periódicas entre associações de moradores, associações de comerciantes com outras entidades sociais e de administração pública.
As obras, ou pelo menos a grande parte delas, foram executadas entre 1994 e 2000. Em apenas seis anos, o Centro Histórico de Madrid transformou-se para melhor, atraíndo agora milhões de turistas por ano.


Muitas ruas pedonalizadas, muitas vias de circulação automóvel reduzidas. Comércio pujante, desde mercearias de bairro, pequenas lojas de produtos regionais até grandes superfícies como o El Corte Inglés, a Fnac ou as principais marcas de roupa.
Nota marcante deste processo: todos os partidos políticos apoiaram o plano, formando mesmo comissões conjuntas de acompanhamento dos projectos e das obras no terreno.


O plano de acção foi pensado a partir das praças principais de Madrid, estendendo depois a reabilitação às ruas envolventes.
Conseguiu-se também diminuir a valores residuais o número de prédios devolutos e desabitados. Muitos edifícios históricos são tratados como peças de museu.


E nalguns edifícios as obras de restauro ou manutenção continuam a ser feitas.


Em prédios mais populares, sem importância histórica, não existe o fundamentalismo que tanto se diz travar qualquer política de reabilitação urbana em Lisboa. Por exemplo, é possível camaleonizar uma caixa de ar condicionado.

O investimento foi enorme, como podem ver no gráfico abaixo. Mas uma obra pode também tornar-se fonte de receitas.


Lisboa não é vítima apenas de um partido, antes da menoridade de todos os que pela CML têm passado nas últimas décadas. Lisboa histórica está podre e vazia, mas pouco tem sido feito para a salvar. Ou a reabilitação é baseada em dogmas que saem demasiados caros para os recursos existentes, ou os vereadores eleitos com a pelouro aconselham-se com as pessoas erradas, ou a oposição vive apenas para destruir o trabalho de quem governa, esperando pela oportunidade de subir ao poder nas eleições seguintes. Tem faltado cultura, saber e honestidade.
Um dos benefícios apontados no documento (este aqui) onde podem ver mais dados sobre a rebailitação de Madrid, é precisamente a mudança de mentalidades da população, que passou a respeitar mais o espaço público e equipamentos urbanos, a perceber a importância da diminuição automóvel e utilização pedonal das ruas para a sua vida, e a sentar periodicamente à mesma mesa todos os intervenientes da cidade: população, comércio e entidades administrativas.
Temos ou não temos muito para aprender ainda?



Que maravilha de post, Tiago!
Temos, de facto, muito a aprender ainda.
Transformar a cidade para melhor é possível. Sabemos que é possível!!!!
Elaborar planos consistentes, concentrar esforços de execução e não tirar os olhos (nem o dinheiro) dos objectivos. Até parece simples!
Olha, bem a propósito, no Públio de hoje (http://jornal.publico.clix.pt/noticia/14-02-2010/…
Como se reinventa uma cidade
Porto
Depois da longa agonia, a Baixa do Porto parece estar a renascer em torno do eixo que vai da Praça dos Poveiros à Rua de Miguel Bombarda. Ainda não é o Marais parisiense, o Soho londrino ou o Raval de Barcelona, mas está a ficar com bom aspecto.
Por Jorge Marmelo
A linha recta, diz-se, é a distância mais curta entre dois pontos. No caso da Baixa do Porto, a imaginária (e irregular) linha recta que vai da Praça dos Poveiros ao extremo poente da Rua de Miguel Bombarda descreve o percurso que já se fez entre o centro degradado, desertificado, agonizante, e a nova cidade que parece estar a emergir do vazio que ficou. Casa após casa, as montras vazias, os prédios abandonados e os destroços do que foi o Porto vão cedendo lugar a novas lojas, bares, cafés, centros comerciais ressuscitados. Ainda não é o melhor dos mundos possíveis, mas há vida nova e talvez não seja só uma moda passageira.
"Esta zona estava degradada, vazia e até perigosa. Agora dá ideia que, entre a Rua do Almada e o Palácio, vai ser uma espécie de Soho, uma zona nobre, com malta a viver aqui", diz José Costa, funcionário do Candelabro, da Rua da Conceição, um dos mais recentes fenómenos deste pedaço de cidade: era, ainda há bem pouco tempo, um alfarrabista em declínio, mas refundou-se e, enquanto café-bar-livraria, passou a garantir casa cheia. "Não pensámos que acontecesse tão depressa", confessa.
Sucedem-se os exemplos que parecem demonstrar que a Baixa tinha quase tudo o que é necessário para renascer, sobretudo depois da intervenção urbana levada a cabo aquando da Capital Europeia da Cultura, a qual criou novas praças, alargou passeios, arborizou ruas e cavou parques de estacionamento.
"As obras da Porto 2001 foram mal planeadas, duraram muito tempo e aniquilaram os negócios que ainda subsistiam. Mas a estrutura ficou preparada e o mercado está a funcionar. Os novos negócios, pioneiros, beneficiam de haver espaços vazios com rendas baixas e as actividades nocturnas ganham com o facto de já quase não haver moradores na zona", sintetiza Pedro Balonas, arquitecto que desenhou a nova Praça de Lisboa, um projecto que, porém, ainda não saiu do papel, mantendo uma cratera imunda numa área privilegiada da cidade.
A renovação tem, de resto, avançado mais rapidamente na pequena escala, casa a casa, do que nos grandes quarteirões objecto da atenção da política municipal de reabilitação urbana. As pequenas intervenções, diz Balonas, "são mais rápidas e mais eficazes a alterar a imagem da cidade". "Tem sido um processo espontâneo, o que é uma felicidade", considera.
Havia, por exemplo, espaços vazios na Rua de Miguel Bombarda e bastou que ali se instalassem algumas galerias de artes plásticas para que a zona se transformasse numa referência nacional, se salvasse do esquecimento um centro comercial e se instalassem novas actividades, de delicatessen a lojas de design. E entretanto passaram dez anos.
Um bairro para o livro
Havia três dezenas de livrarias num curto espaço geográfico e bastou que um novo livreiro se instalasse e olhasse em redor para que surgisse a ideia de criar o Bairro do Livro (apesar de o projecto ainda não estar consolidado).
Havia ruas em cujas casas já não havia gente e que agora são enormes bares ao ar livre, ponto de encontro por excelência de uma clientela jovem, urbana e com algum poder de compra. As noites são longas e animadas. Nem parece o Porto. Mas pode ser um novo Porto.
Havia velhos alfaiates, mas instalou-se o estilista Luís Buchinho, o restaurante Alfaiate com uma decoração inspirada no fenómeno da moda e já esta semana abre também uma loja dos Story Taylors nas galerias Lumière – decadentes durante duas décadas e, agora, a viverem um segundo fôlego, com novas lojas, cafés, bares, música ao vivo ao almoço e ao lanche.
Há cinco salas de espectáculos (Coliseu, Batalha, Rivoli, Sá da Bandeira, Carlos Alberto) e duas salas de cinema (Passos Manuel e Sala Bebé) à espera de que a cidade volte a perceber que, para ser viva e atractiva, também precisa de produção cultural.
Anda-se pela Rua de Cedofeita, uma das perpendiculares que cruzam a linha imaginária onde a cidade se vai refazendo, e tem-se a sensação de que só falta um empurrão para que a grande concentração de sapatarias ali instaladas se organize para se transformar num cluster privilegiado da venda de sapatos; ou para que as oficinas de restauro aqui sediadas há décadas passem a ser uma referência para quem queira recuperar um móvel ou dar novo brilho a uma velha tela.
"Mais do que o Bairro dos Livros, esta zona pode ser o bairro de tudo", diz Jorge Afonso Mota, da livraria infantil Era Uma Vez…, autor da ideia de criar um evento mensal ligado ao livro que replicasse, na zona dos Clérigos, a animação conseguida na festa das inaugurações da rua das galerias de arte. Não por acaso, a direcção da revista Time Out Lisboa resolveu antecipar a criação de uma edição portuense da conceituada publicação internacional. "Pareceu-nos que esta era a altura ideal, com a reanimação da Baixa, as novidades na restauração e na vida nocturna, a agitação no meio artístico. É uma cidade que dá muitas garantias de sucesso", disse recentemente ao PÚBLICO o director da Time Out Lisboa, João Cepeda, o tripeiro que vai dirigir também a Time Out Porto.
Daniel Pires, que, em 2001, enquanto criador do espaço Maus Hábitos, da Rua de Passos Manuel, foi um dos primeiros a acreditar no renascimento da Baixa, não tem, hoje, tantas certezas quanto à irreversibilidade do fenómeno de reinvenção do centro do Porto: "Tinha a ideia de que, em dez anos, o Porto ia mudar e ser uma cidade interessante, até por causa do enorme pontapé que seria a Capital Europeia da Cultura. Mas a massa crítica desapareceu da cidade (fugiu para Lisboa) e as casas continuam vazias. Eu imaginei que a Baixa pudesse ser uma coisa diferente, com gente a viver cá em vez de bares e ruas cheias de gente a beber copos. Temo que a animação nocturna seja fogo-de-palha, uma ilusão, e que as pessoas desapareçam assim que houver outra zona nocturna interessante".
"Há sempre o risco de isto ser apenas uma moda", reconhece José Costa. "O mercado para estas coisas é pequeno numa cidade como o Porto, mas, se as coisas forem bem feitas, não será tanto assim", acrescenta o funcionário do Candelabro.
Dificuldades de legalização
Firmino Teixeira, da velha mercearia Casa S. Jorge ("forte em bacalhau", lê-se no toldo), da Rua de Santa Teresa, parece dar razão à necessidade de olhar para o renascimento da Baixa ainda com alguma moderação. Apesar do número crescente de novas e mais modernas lojas que têm aberto portas nas imediações, este comerciante tradicional diz que, se "à noite há mais gente, durante o dia é a mesma coisa" de sempre. Chegou, apesar de tudo, a abrir a mercearia em horário nocturno, para aproveitar a abundância de potenciais clientes que lhe passavam diante da soleira, mas desistiu. "O que ganhava não dava para pagar as multas" por estar a trabalhar fora do horário autorizado, conta.
José Albuquerque, responsável por vários espaços que abriram as portas nos últimos dois anos, do Café das Galerias de Paris à ressuscitada Praça Lumière, também tem queixas. Diz que investiu por ter sido desafiado pelo presidente da câmara a ocupar a Baixa, mas nota dificuldades constantes para legalizar os negócios que vai abrindo, falta de apoio e invejas dos empresários de outras zonas da cidade. "Não é normal ter polícia no Lumière todas as semanas e ver entrar 28 agentes de shotgun pela casa dentro", comenta. "Corre-se o risco de assistir aqui a confusões causadas artificialmente e de a zona acabar por perder o glamour", teme.
Apesar de tudo, e percebendo o "potencial morto" de que esta zona da cidade dispunha, decidiu não ficar à espera de apoios e "avançar por iniciativa própria", com "originalidade", para "fazer alguma coisa pela cidade", "contornando os obstáculos que surgissem" – uma receita seguida também por três companhias de teatro que recentemente resolveram alugar o Teatro Sá da Bandeira para manterem a sua actividade (já que o municipal Rivoli continua ocupado por Filipe La Féria). "Não fiquei à espera de que a câmara viesse pôr baldes do lixo para os copos da cerveja. Pu-los eu. Se, um dia, a câmara achar que deve fazê-lo, tanto melhor", resume José Albuquerque.
"O que está a ser feito, surge um pouco à revelia da Câmara do Porto, que não tem espírito para isto", concorda Daniel Pires. "É preciso um trabalho estratégico e preparar o terreno para que as pessoas venham conhecer o Porto e decidam ficar aqui e acrescentar valor à cidade. São precisas políticas de atractividade, benefícios fiscais, menos burocracia e apartamentos baratos para alugar", diz o criador do Maus Hábitos.
Pedro Balonas di-lo de outra forma: "É preciso sustentar o que já foi feito e criar processos para tornar o fenómeno durável. Vender o Porto fora daqui e atrair gente e o grande consumo qualificado, uma oferta mais elaborada". Balonas acha, ainda assim, que a nova cidade tem tudo para dar certo. Daniel Pires está menos optimista do que há dez anos. "Mas talvez daqui a mais dez anos o Porto possa ser uma cidade interessante", reconhece.
Para já, convenhamos, a Baixa ainda não é o Marais parisiense, o Soho londrino ou o Raval de Barcelona. Mas está a ficar com bom aspecto.
O 3C é o mais recente restaurante-bar da Rua de Cândido dos Reis, paralela da Rua das Galerias de Paris, onde a Vida Portuguesa comercializa produtos tradicionais
Pedro Balonas, arquitecto
Oportuno conviteà reflexão.
Pessoalmente gosto e admiro a cidade de Madrid.
Bom artigo.
Existem diferenças entre Lisboa e Madrid, bem como entre Portugal e Espanha, na sua forma de funcionamento administrativamente falando.
No entanto, em Lisboa falta fazer o essencial – iniciar a recuperação de forma sustentável e ter bons profissionais nas entidades reguladoras, fiscalizadoras e licenciadoras que quebrem de uma vez por todas com os fundamentalismos que existem.
Devemos preservar o que tem valor histórico, mas porquê preservar sem nenhum tipo de critério? Porquê proibir a utilização de novas técnicas reproduzindo as antigas? Porquê exigir manter edificações antigas sem o mínimo de condições para os seus utilizadores, mesmo depois da remodelação/recuperação?
Até resolvermos os problemas de base do nosso "sistema", não conseguiremos estar ao nível dos países mais evoluídos da Europa.
Discussão essencial!
Considero que o mais importante é reflectir e investir na ideia do Tiago "a mudança de mentalidades da população, que passou a respeitar mais o espaço público e equipamentos urbanos, a perceber a importância da diminuição automóvel e utilização pedonal das ruas para a sua vida, e a sentar periodicamente à mesma mesa todos os intervenientes da cidade: população, comércio e entidades administrativas."
As mentalidades mudam-se. E pode não ser assim tão difícil. As pessoas não são parvas.