O RESPONSÁVEL DA OBRA, OLHE, SOU EU

21 February, 2010 by  

Vislumbres realistas depois de ver os filmes “Milagre em Milão”, de Vittorio de Sica, 1951, “Arquitecturas sem arquitectos”, um programa de Manuel Graça Dias, de Edgar Feldman, 1996 e “Vizinhos” de Tiago Figueiredo, 2009.

A promiscuidade que se liberta das várias atitudes expostas lado a lado fazem-nos interrogar sobre um discurso de cidade autoritário que as não tolera e que por todos os meios inventa as regras políticas, jurídicas, mas também de gosto, que enquadrem a excepção, amansando-a, ou que a excluam, cercando-a.

Manuel Graça Dias

As I went walking I saw a sign there and on the sign it said “No Trespassing.” But on the other side it didn’t say nothing, that side was made for you and me.

Woodie Guthrie

Advertência à cidade pela família realojada que entretanto cresceu no espaço e no tempo, tal como a vimos no filme «Vizinhos» do Tiago Figueiredo:

Agora tenho mais filhos do que tinha. E os meus filhos tiveram filhos que são os meus netos. E os meus netos vão continuar a fazer a mesma coisa. Quando a cidade me quis realojar porque tinha outros planos para o sítio onde eu estava deram-me uma casa com dois quartos porque eu tinha dois filhos. Mas agora já não cabemos lá.

Vislumbre da resposta da jovem assistente social:
A senhora devia ter pensado, antes de ter filhos, no tamanho da casa que a cidade lhe atribuiu. Devia ter pensado no plano urbanístico, antes dos seus filhos terem netos. Devia ter pensado na sua presença no mundo. Acha mesmo que a senhora vale tanto? Acha que é a cidade que lhe tem de dar todo o território que pretende ocupar?

Fala do Totó o Bom no filme «Milagre em Milão» de Vittorio de Sica

Está um frio de rachar e quando o sol espreita pelas nuvens vamos todos a correr e até cantamos e saltamos para nos aquecermos. Vivo num bairro de lata em Milão e quando o vendedor de balões já não come há muito tempo começa a levantar voo de tão leve que está e nós vamos lá agarrá-lo e damos-lhe um pedaço de pão. Mas tudo o que precisamos é de um pedaço de chão.

Vislumbre do Morador do bairro clandestino da Pontinha
Construímos as nossas casas nos fins-de-semana para a GNR não vir embargar a obra. Quando eles cá chegavam na segunda-feira já a casa estava feita.

Vislumbre de um GNR durante uma rusga
Mas uma vez apanhei um sujeito a fazer cimento. Cheguei-me ao pé dele e perguntei-lhe: quem é o responsável da obra?

Outra vez o vislumbre do Morador do bairro clandestino da pontinha
O responsável da obra, olhe, sou eu. E pronto, lixei-me. Apanhei uma coima. Com o dinheiro que paguei fiquei mais uns meses com a casa ao sol e à chuva.

Outro vislumbre de um morador do bairro clandestino da pontinha enquanto roda um sinal de proibido de um lado para o outro no programa “Arquitectura sem arquitectos” do Edgar Feldman

Havia ali uma placa que dizia propriedade privada mas o outro lado da placa não dizia nada, esse lado da placa foi feito para ti e para mim.

Fala da família que antes vivia num bairro de lata e agora vive num bairro de alta
Vem-me agora a cidade dizer que eu não devia ter filhos, eu não devia era ter arredado pé da Musgueira, mas depois vinham os polícias e carregavam em nós, e vinham as máquinas e levavam-nos dali à força.

Fala do Totó o Bom

Quando o proprietário do terreno onde vivíamos percebeu que havia aqui petróleo quis-nos despejar, vieram dizer que nos construíam novas casas noutro sítio, queriam-nos realojar, mas nós não queremos ser realojados, e não queremos que nos façam casas porque nós já fizemos as nossas. Então não arredámos pé.

Vislumbre da tal família que já não vive na Musgueira
Nós não devíamos ter arredado pé, mas depois vinham os polícias com os bastões e tivemos medo.

Fala do Totó o Bom
Pois vêm, e vieram, e como nós nos recusámos a sair, eles atiraram bombas de gás lacrimogéneo, ficou uma neblina, mas nós juntámo-nos todos, soprámos com toda a força e o gás foi afastado.

Vislumbre da Citação do arquitecto Manuel Graça Dias no programa “Arquitecturas sem arquitectos”

Falemos de arquitecturas sem arquitectos, falemos de clandestinos, arquitecturas clandestinas na cintura de Lisboa resultantes da consolidação de antigas tendas e barracas, em conselhos limítrofes da cidade. Como a Brandoa, Damaia, Carnide, Pontinha, Ameixoeira, Camarate, ao longo de antigas estradas militares, perto de linhas de caminho de ferro, à beira das vias rápidas.

Fala do Totó o Bom
Depois os polícias trouxeram as mangueiras e começaram-nos a atirar água como se nós fomos prédios a arder, mas nós abrimos os guarda-chuvas e não nos molhámos.

Vislumbre da Citação do arquitecto Manuel Graça Dias
O 25 de Abril de setenta e quatro veio encontrar muitos destes núcleos em perpétuo jogo de nervos com as estruturas do poder e o espaço de liberdade que se lhe seguiu permitiu a consolidação de algumas frentes de arquitectura popular construída com o gosto e o amor que é dado às coisas inteiras, às vidas inteiras, às pulsões mais imediatas, à vontade e ao desejo não reprimido e não condicionado.

Vislumbre de uma habitante de Carnide mas que podia ser aquela que deixou as escavadoras escavarem a Musgueira
A minha casa é aquela ali que tem a roupa estendida, quando a fiz tinha só um quarto, criei cinco filhos num quartinho, depois dali fui fazendo outro bocado

Fala de Totó o Bom
Depois os polícias chamaram mais exércitos e vieram com as espingardas.

Habitante de carnide
Depois dali fui fazendo outro bocado

Fala do Totó o Bom
Mas quando iam dar a ordem de disparar contra nós, em vez de sair a ordem da boca deles saíram cânticos de ópera, e nós gritámos bravo e batemos palmas.

Continuação da advertência da família que cresceu no espaço e no tempo:
A casa que nos deram não chega. E se não me derem uma casa onde possam caber todas estas gerações, então dêem-me um bairro, porque a diferença entre nós e a menina assistente social, é que a menina nasceu num apartamento e nós não, nós experimentámos o que nunca se quer que se experimente, que é tomar a vida nas mãos, mesmo que seja por não termos outra alternativa, construímos as nossas casas e o nosso bairro, primeiro com lata, mas mais tarde com tijolo, e se os senhores da cidade preferiram destruir, em vez de melhorar o que nós tínhamos construído, e se nos preferiu realojar com falinhas mansas numa outra casa já preparada, então o preço, senhora cidade, é dar-nos o que precisamos até ao fim, porque se há coisa que eu não suporto é o olhar arrogante do vizinho comprador a olhar para o vizinho realojado, pensando que o vizinho realojado é um pária que está abusar da boa vontade. Eu não sou pária, sou uma família, quase na terceira geração a quem foi negada uma maneira de viver.

Vislumbre da resposta da assistente social:
Antes de ter filhos devia ter pensado na pegada ecológica,

Vislumbre da citação do arquitecto Graça Dias

Construir a cidade para os outros e agora construir a nossa, mas melhor, porque tendo o que a dos outros tem, tem mais. Mais sinais, mais cor, mais alegria, mais formas, mais azulejos. Proponho que nos deixemos fascinar pela arquitectura popular de hoje, que nela consigamos a inspiração para resgatarmos às leis, às regras, aos métodos, ao amontoado teórico a força da subversão, a força do acto impuro equivalente à força da vida; proponho que nos deixemos fascinar e contaminar pela violência do desejo, pelo vislumbre do sonho, por esta energia que destas casas se desprende. Casas onde as escalas se mudam, invertem, interrogam, casas quase perfeitas, caixas certeiras que se abrem de janelas, olhos, elegância. Já não temos equilíbrio, sistema, inteligência para guardarmos em nós esta emoção do acaso e da vontade. Se não é humor é amor. Como os pedaços de parede descem, como as palas saltam do seu físico lugar deixando buracos, falhas, sobressaltos. São obras de arte contemporâneas. É por serem livres que a experimentação os trespassa. Aqui reside, aqui se exibe.

Vislumbre do morador do sinal de proibido
O lado da placa que não tem nada, estás a ver? É o lado da nossa morada.

A namorada do morador
Onde é que está essa morada?

Morador
Temos de a fazer.

Namorada
Mas não nos deixam.

Totó o Bom
Mas façam na mesma. Depois logo se vê.

Comments

13 Responses to “O RESPONSÁVEL DA OBRA, OLHE, SOU EU”
  1. Tiago says:

    Obrigado, Miguel! Adorei ler-te, conhecer os bocadinhos do Milagre em Milão e entusiasmei-me com o doc do Feldman. Pede-lhe, por favor, a 2ª parte. Quero mesmo ver!

    Já falámos disto, é um post lento, de vai-vem, sempre a sair do texto, a ir aos excertos, a voltar e ler o teatrinho que se inspira, mas que vale muito a pena ver do início ao fim.

    Quanto às feridas dos realojamentos, claro que te lembras da discussão pós-Vizinhos na Casa da Achada. Não tenho uma visão tão romântica do bairro de lata. Claro que o processo de realojamento das Musgueiras foi feito às três pancadas, sem cuidado humano, sem pensar em consequências, e rapidamente as expectativas optimistas de muitos foram destruídas com os erros de quem decidiu na secretária. E claro que assim é fácil lembrar apenas o melhor do passado de bairro, esquecendo tudo o que fazia acalentar o sonho de ter uma casa nova, até num novo bairro.

    Mas também é verdade que o melhor do bairro não dá a cidade. A convivência entre vizinhos, o sair da porta de casa e estar na rua, a partilha e a solidariedade, o "refúgio de aldeia".

    Só que não havendo engenharia financeira que dê casas decentes numa malha urbana similar ao bairro antigo – tal como não há para pagar as rendas de todos os que vivem nos T2 dos subúrbios ou nas casas de 3 assoalhadas nos bairros antigos – a solução de realojar em cidade dotando-a de todas as infra-estruturas e equipamentos necessários, num processo auto-sustentável, parece-me uma hipótese a considerar.

    Foi o que foi feito na Alta de Lisboa? Não. Porque as pessoas – começando pela população realojada – foram enganadas pelo poder autárquico. Não fornecendo condições de investimento exterior no bairro, durante décadas, vão-se perdendo oportunidades de emprego, de negócio, de variadas formas de produtividade. E são gerações que vão perdendo oportunidades, que vão herdando a frustração do realojamento enganador, continuando com as mesmas dificuldades de acesso a emprego e educação.

    Mas se nem doutoras feitas no estrageiro percebem as implicações que o macro têm no micro, como vi há cerca de um mês acontecer, cada vez mais duvido que se alguma vez poderemos perceber se o plano de realojamento teria dado resultado se tivesse sido cumprido.

    • Miguel Castro Caldas says:

      Tiago, o meu texto não é uma defesa nem uma visão romântica dos bairros de lata. É uma defesa do «poder fazer». é distinguir «poder» fazer, de «poder»sobre outro. A nossa capacidade de fazer é uma coisa eminentemente social. Parece-me que o que aconteceu nas Musgueiras foi a negação de um «fazer» que estava em curso, em nome de uma: expansão ordenada da cidade? interesses de especulação imobiliária e de constrrução civil? Porvavelmente isto tudo, mas não em nome de infra-estruturas e equipamentos necessários, porque isso podia ser feito «a partir» do que as pessoas já tinham começado a construir e não em cima da destruição desse fazer colectivo e comunitário. Mas não estou de longe a defender a insalubridade. Mais uma vez dou-te os parabéns pelo teu filme, que teve a capacidade de gerar tanta reflexão.

  2. Miguel Castro Caldas says:

    Tiago, mudei o título do texto. Como te referes a «teatrinho» no teu comentário, que era o título antigo, agora passou para «vislumbres».

    • Tiago says:

      Não percebi. Mudaste por causa do meu comentário?

      • Miguel Castro Caldas says:

        Não, não foi por causa do teu comentário. Foi porque pareceu-me que com as fotos e os filmes não fazia sentido chamar «teatrinho». Disse aqui para não anular o teu comentário. Porque como tinha mudado o título, as pessoas não iam perceber a que te referias quando dizias «teatrinho».

  3. Marta says:

    Eu conheci a Musgueira e penso que seria difícil melhorar o que quer que fosse, sem retirar de lá gente, simplesmente porque a 'malha' de casas era de tal maneira apertada, os caminhos por entre elas de tal maneira estreitos…..e o bairro já não tinha por onde aumentar.
    Também sei que não foi esta a 'desculpa' oficial.
    No entanto gostava de salientar que o mais grave erro dos realojamentos foi não ter em conta a vivência de vizinhos já existentes nos bairros das Musgueiras.
    Realojar, como disse o Tiago, na secretaria, foi desintegrar o bairro, foi desenraizar as pessoas, que na altura queriam ser realojadas.
    Não sei porquê, mas não acredito que as expectativas das pessoas fosse terem serviços ou mercearias próximo, também não tinham nos bairros. Mas de repente acharem-se isoladas, sem ninguém conhecido próximo, sem terem a quem deixar o filho se este ficasse doente, isso sim, isso foi castrar qualquer hipótese de enraizamento.
    Sei que este meu comentário é politicamente incorrecto, mas é isto que eu penso.

  4. Sílvio Rosado says:

    Adorei… Parabéns. Ainda bem que ainda existem "garimpeiros" da verdade…

  5. Nuno says:

    Bairros populares como Alfama e imensas aldeias históricas são agora consideradas património, mas já foram em tempos "bairros de lata", e em certas épocas pouco apreciados pela população em geral, mais endinheirada e erudita. Há 75 anos não se utilizava o betão armado, o alumínio nem tantas cores, mas tal como nestes "bairros de lata" eram as pessoas que construíam as suas próprias casas ao seu gosto e medida.

    O que falta nos "bairros de lata" é o apoio do estado em infraestruturas como esgotos, agua, iluminação, limpeza e manutenção dos espaços públicos. Faltam também uma serie de serviços sociais como a policia, bombeiros, clínicas etc. Talvez também se deveria deixar de lhes chamar "bairros de lata" e perceber que o problema não está nas casas.

  6. Nuno says:

    Parabéns pelo post!

  7. Clara Boléo says:

    Miguel, só hoje, 5 de Março, vi o teu «texto». Fiquei muito calada e pensativa. Tinha visto o Milagre em Milão, na Casa da Achada (obrigada, Eduarda!), há pouco tempo e dei mais atenção aos bocados do progama Arquitecturas sem Arquitectos do Feldman/Manuel Graça Dias. É absolutamente incrível. Agradeço aos 2 terem-me ajudado a pensar de um modo diferente estas questões.
    Obrigada, Miguel, também pela tua coerência e persistência nestes temas.
    Clara Boléo

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