FÔLEGOS E CONSTÂNCIAS
4 January, 2010 by Ana Barata

Estes dias costumam ser de balanço. Do que se fez e não devia ter sido feito, mas também do que se devia ter feito e não se fez. Fazemos análises e fazemos propósitos. Rectificamos intenções e recobramos forças. Com a chegada de um novo ano, ganhamos um esperançado fôlego para nos dedicarmos ao que faz sentido.
Este ano foi especialmente fértil em balanços fora de época. O país e os escrutínios a isso obrigaram. Sobre a cidade e sobre a Alta muito se disse, muito se discutiu e foram feitos muitos propósitos e promessas também.
Balanços? Cada um fará o seu. Fôlegos? É preciso querer aproveita-los. Propósitos? O meu é o de não desistir daquilo e daqueles em que acredito, independentemente dos fôlegos que tiver.
E isso faz-me lembrar que há quem não desista, por maiores que sejam as contrariedades e sem ter qualquer calendário político. É muitas vezes um trabalho discreto, mais discreto do que deveria, mas é constante, próximo, adaptado às circunstâncias e às necessidades, focado nas pequenas conquistas para conseguir grandes mudanças.

Já ouviram falar do Grupo Comunitário da Alta de Lisboa?
Nasceu em 2005. O Projecto da Alta tinha começado a sair do papel e originara grandes transformações no território das antigas Musgueiras. A par de uma nova realidade urbanística, surgia uma nova realidade social, o desafio de construir uma nova cidade de raiz, de acolher novos e diferentes moradores, de encontrar uma harmonia, um ritmo, uma identidade. Para os antigos e os novos moradores. Tudo estava a mudar. E em tempo de mudança, é preciso voltar a olhar, reorganizar, adaptar, afinar.
Várias instituições locais resolveram juntar-se para agir de forma integrada e promover o desenvolvimento do território em várias vertentes. Não poderiam chegar a tudo, mas havia muito para fazer e, juntos, conseguiriam fazer mais e melhor.
O ponto de partida foi o diagnóstico social da zona elaborado pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa a rogo do Programa K’Cidade. Da reflexão que fizeram sobre este estudo, definiram as suas prioridades de intervenção concertada que resultaram em três eixos: o Emprego, a Educação e a Coesão Social.
Em busca de uma identidade e de uma nova pertença, organizaram-se actividades comunitárias, actividades ambientais e de apropriação do espaço público, exposições, a recolha de memórias com a Comunidade e a elaboração de dois sites (este e este) de Memórias da Alta.
Para combater o absentismo e o insucesso escolar, fazem-se formações parentais, formações aos técnicos de educação em articulação com as escolas, workshops temáticos e ateliês diversos com crianças e jovens.
Na área do Emprego, foi no seio do Grupo Comunitário da Alta de Lisboa que surgiu a ideia de responder a uma necessidade de formação profissional dos jovens, de qualificação e de reconhecimento/validação de competências. Surge assim, em 2006, uma candidatura conjunta ao Programa Escolhas na área da formação profissional, abraçada em parceria por 6 instituições locais. O trabalho desenvolvido em 3 anos foi bem avaliado e permitiu ganhar, no mês passado, um novo projecto para os próximos 3 anos. Desta feita, a Alta contará com mais um importante parceiro, uma Escola Profissional. Além da formação profissional, é dinamizada uma rede para a empregabilidade em articulação com empresas e instituições e incentiva-se o empreendedorismo.
O Grupo Comunitário da Alta de Lisboa tem a riqueza da diversidade. É um fórum onde se juntam entidades públicas e privadas, ONGs, IPSS e Associações, Misericórdias, Associações de Moradores, Empresas, Movimentos Cívicos, Clubes e grupos informais. Actualmente, com cerca de 30 membros, todos estão ou podem estar representados: o Município, a Freguesia, a Saúde, a Educação, os Moradores, a Segurança, o Património… É isto que é tão rico e que revela ter tanto potencial: a possibilidade de concertar vontades para Fazer Bem Feito.
Depois de cinco anos de consolidação, o Grupo Comunitário pretende fazer-se ouvir. Porque são vozes conhecedoras, porque são muitas vozes e porque, por sua vez, representam ainda mais vozes. Se souber actuar como grupo de pressão, poderá funcionar de forma mais eficaz em prol da Comunidade e dos interesses da Alta. É justo!
Em Setembro último, o Grupo Comunitário apresentou uma proposta de revisão do PUAL, onde foram identificadas algumas das necessidades mais urgentes do território. A proposta foi feita no âmbito de um processo de participação pública promovido pela CML. Pelo que sei, aguarda resposta…
Sobre o trabalho de cada um dos membros do Grupo Comunitário da Alta de Lisboa, faço o propósito de falar sobre ele aqui, no Viver, para que todos o possam conhecer. Todos fazem muito, independentemente do fôlego que têm. Mais um propósito…
Um bom ano de 2010!


