kaput
13 December, 2009 by Carlos Moura-Carvalho

De acordo com o Público de sexta-feira passada, a região de Lisboa só concretizou 5 % dos 300 milhões de euros de apoios europeus ao seu dispor.
Isto é, até 30 de Novembro, a execução validada (apurada com base na entrega de facturas relativas às despesas dos projectos apoiados) foi de 16,1 milhões de euros, o que representa apenas 9,06 % dos 177,7 milhões de euros atribuídos a Lisboa pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder) e somente 5,25 % de 306,7 milhões de euros que a União Europeia tem para atribuir até 2013.
São percentagens vergonhosas.
Entre as candidaturas aprovadas este ano pela POR LISBOA e que se mantêm com um grau de execução de zero por cento está o projecto de regeneração do centro histórico da Mouraria. Outro tipo de projectos de gestão activa de espaços protegidos e classificados, como a rede de visitação e interpretação do Parque Natural Sintra/Cascais, da agência municipal Cascais Natura, também não foi executado.
Salvam-se, no meio disto, as escolas e os projectos de apoio ao sector empresarial e público, em que 17 % dos fundos comunitários atribuídos (74,7 milhões de euros) já foram executados até Novembro. É um número muito baixo, mas mesmo assim, melhor que tudo o resto.
– Burocracia
– Desleixo
– Incompetência
– Incapacidade de concretização.
Serão razões que poderão explicar esta vergonha. O grave é que não tem consequências. Existem problemas, projectos, dinheiro, candidaturas e projectos aprovados, mas depois … pura e simplesmente não são concretizados. As instituições ou desistem, ou não estão preparadas para depois executar e fazer obra, até porque uma parte do dinheiro será seguramente nacional, ou se atrasam, adiam.
Sejam quais forem as razões e as explicações, seguramente pertinentes – se as coisas se mantiverem – uma coisa é garantida: os fundos comunitários não executados, vão-se perder. E muitos outros projectos, que poderiam ser desenvolvidos, também se vão perder. E muito ficará por mudar, modernizar e melhorar.
E isto numa altura em que, como nunca, ouvimos a toda a hora: “o País precisa de investimento”.
No processo de candidatura a estes fundos, que nalguns casos são de 80% do custo total dos projectos, são apresentados documentos e feita prova da capacidade financeira para executar os projectos. É um elemento importante na decisão final.
Não se percebe, assim, como isto acontece. Ou os elementos entregues na fase de aprovação do apoio são falaciosos. Ou, então, estão correctos e é uma mera incapacidade de avançar, de executar, de arriscar, de levar em frente, de fazer.
Estou convencido que é a segunda hipótese. Todos nós, no dia à dia, nos deparamos com “empatas”, “burocratas”, “picuinhas”, que se preocupando com o detalhe, com a perfeição, com o “mas…”, não decidem, não concretizam, não avançam. Adiam. Todos nós, a toda a hora, nos desesperamos com burocracias que ao invés de proteger, visam cansar quem quer fazer. São tantas as protecções, as cautelas, o receio de que nada corra mal, que tudo esteja previsto, que só um super-homem consegue chegar ao fim.
Esta falta de execução dos apoios comunitários aprovados não é mais do que o espelho de uma forma de estar e de viver que nos é particular. É um fado, que teimamos em não conseguir vencer.
Por isso é mais fácil falar de projectos, do futuro, dos outros. Quando o melhor, o mais estimulante, o mais gratificante é fazer, hoje, agora e já.
Cada vez há, felizmente, mais gente a perceber que não podemos continuar a adiar. E às vezes até nos supreendemos quando encontramos alguém eficiente. Alguém que não complica. Que ajuda. É, apesar de tudo, um consolo.
Pena é que, entretanto, os fundos comunitários vão acabar. E muito ficará por fazer, por muito tempo.



Isto é uma tragédia, Carlos. Um amigo meu que se dedica à agricultura biológica candidatou-se a fundos comunitários para desenvolvimento do projecto.
As candidaturas são muito exigentes. Foram pedidos estudos de viabilidade, documentação de todas as soluções técnicas aplicadas no cultivo, plantação e distribuição da mercadoria, foram exigidas garantias por escrito de comercianetes exteriores de estarem interessados e quererem aduirir a produção.
Um dossier pesado, rigoroso e de difícil elaboração. Só possível para quem está mesmo empenhado e leva a sério o assunto.
A proposta de financiamento tem prazos rigorosos, impostos pela CE, e garante 80% do financiamento com fundos comunitários, se e só se o Estado Português avançar com os restantes 20%. Não existe sequer hipótese de ser o próprio empreeendedor a avançar com os 20%. Calculo que seja uma forma de garantir um selo de qualidade.
O meu amigo fez tudo, cumpriu todos os prazos. O Governo não cumpriu os prazos, nem sequer na avaliação das propostas. Não deu resposta em tempo útil a ninguém, e houve milhões de euros de fundos comunitários que podiam estar a ser investidos em Portugal que foram desperdiçados.
Esse meu amigo meteu-se na candidatura acreditando que tudo iria correr bem, apesar de todos os avisos dos colegas que tinham a experiência do ano anterior em que o Governo não tinha dado também resposta em tempo útil.
No Parlamento só me lembro de ver o Paulo Portas denunciar isto. Poucos mais se indignam, a Comunicação Social continua imbecil, a fazer notícias baseadas em conversas de facebook.
É realmente uma tragédia, Tiago. Passamos a vida a queixarmo-nos que são precisos apoios para fazer projectos. Depois, eles existem, mas para se ter acesso a eles, é preciso vencer o gigante da burocracia. E, quando mesmo assim, se consegue vencer o gigante…eis que falta um outro e fatal obstáculo – a inércia.
Até dói… Perdem-se projectos, oportunidades, confiança, vidas.
E presumo que ninguém foi responsabilizado pela falta de cumprimento dos prazos que levaram à perda desses milhões…