Vladimir Horowitz e Scriabin
14 November, 2009 by Tiago Figueiredo

Vladimir Horowitz (1903 – 1989) foi considerado o grande virtuoso do piano do Séc. XX. Nascido na Ucrânia, Horowitz era dotado de uma técnica insuperável e tornou-se conhecido pela forma apaixonada com que abordava o repertório, empolgando o público, apesar de algumas reservas dos críticos mais elitistas, que não lhe perdoavam a excentricidade estilística e a leitura demasiado pessoal, muitas vezes fugindo às que se supunham ser as intenções do compositor. Arrastava multidões para onde quer que fosse tocar e tornou-se uma pop star, transbordando a fama para lá do público da música clássica.
Horowitz sofria de depressões profundas, crises de confiança que o fizeram por diversas vezes interromper a carreira e limitar as apresentações públicas. Chegou a submeter-se a tratamento com electro-choques para debelar estes problemas.
Mas esta introdução de nada serve sem o ouvirmos. Proponho duas versões, espaçadas por umas décadas, do mesmo estudo de Scriabin.
Uma peça difícil, de grande lirismo e dramatismo, com uma construção romântica típica:
Exposição do tema [início – 41”]
Ponto de viragem, interrogação [42” – 1’16”]
Reexposição do tema – Climax [1’17” até ao final]
Momentos fascinantes na interpretação de Horowitz, os diminuendos da passagem entre a Exposição e o ponto de viragem e os aos 1’11” e 1’37”. Este dois últimos são uma técnica de conseguir prolongar um grande crescendo para o clímax. Como se estivesse a escalar uma montanha, encontra-se momentos-chave para fazer um diminuendo súbito sem perder a tensão da música, como se chegássemos a um planalto para repousar uns segundos, continuando então a caminhada. A sensação psicológica é que a música está continuamente a crescer, chegando ao clímax com uma energia imensa, contida, em enorme pressão, que explode nesse ponto para depois desanuviar no final da obra.
Horowitz regressou à Pátria em 1986, no degelo conseguido por Gorbachev, após 61 anos de afastamento por razões políticas. Foi um regresso emocionante e emocionado. Horowitz, com 83 anos, no fim da vida, de regresso a casa, e um povo que via nele um exemplo de mérito, sonho e prestígio.
Voltou a tocar Scriabin, o mesmo estudo. A Exposição é mais calma, mais madura, mais contemplativa. As subtilezas do crescendo da gravação anterior não existem, mas o contraste do clímax com a exposição é maior, tornando-se assim ainda mais emocionante. Foi um concerto extremamente simbólico para todos, dado o período histórico que a União Soviética estava a atravessar. Respirava-se liberdade, esperança e alívio.



Excepcional!…
É impressionante a diferença entre os dois registos. Um cheio de força, de revolta, de angústia. O outro, emocionante, deslumbrante, livre, sentido.
Excelente post Tiago.
Que bom: mais uma peça musical e uma lição de música!
[ porque hoje é sábado 😉 ]
Gostei mais da 2ª versão, menos crua. E a expressão de Horowitz, no final, linda e comovente.
Outra que se conta do Horowitz:
No início do Séc. XX, Rachmaninoff escrevia o seu 3º concerto para piano e fazia sucesso em tornée pelos Estados Unidos. Rachmaninoff para além de um excelente compositor era considerado o maior pianista vivo da época. As gravações existentes, apesar da qualidade de som muito débil, revelam-nos uma capacidade mágica de criar música através dos dedos, com uma frescura e expontaneidade como se estivesse a ser composta naquele preciso momento.
O 3º concerto era, e ainda é, considerado como uma das provas de fogo de qualquer pianista. Na época seria ainda mais, por haver menos virtuosos do que hoje em dia.
Quando surgiu Horowitz, 30 anos mais novo, Rachmaninoff teve oportunidade de o ouvir tocar o tal 3º concerto. E diz-se, então, que Rachmaninoff, de lágrimas nos olhos, sincera e generosamente comovido, terá exclamado: "Não preciso mais de tocar este concerto. Este jovem toca-o melhor do que alguma vez o consegui fazer."
Não sei se é verdade, nem sei como foi esse concerto. Mas ouvi finalmente há pouco tempo a gravação mais antiga que conheço do Horowitz a tocar o 3º. Uma forma muito mais enérgica do que as versões gravadas posteriormente, já bastante mais velho.
Aqui fica. A reexposição do 1º tema, aos 6 minuto e a forma como atinge o climax é frenética.
[youtube PoG8a6WRACQ http://www.youtube.com/watch?v=PoG8a6WRACQ youtube]