Dona Emília

6 July, 2009 by  

No meu bairro existe uma Dona Emília igual a muitas outras Emílias. Nasceu em 1921, quando as ruas de Alfama ainda recebiam as crianças de pé descalço e as roupas molhadas eram transportadas na cabeça das mulheres. Nunca foi à escola, nem sofreu por causa disso. Os sonhos ancorou-as às circunstâncias que tinha para poder ser feliz. Conheceu o mar, o sol do meio-dia, a ternura das danças, o cheiro da relva cortada e as provocações da juventude. Nunca viajou, nem sofreu por causa disso, basta-lhe a graça de se saber postal num bolso de um turista qualquer.

Há 86 anos que vive no bairro, sai a rua para ir à missa, à mercearia e de quando em quando aos convívios da junta. A minha Emilia vive na cave de um prédio, uma toca de gente que divide apenas com as memórias. Há 30 anos que se devia ter reformado das tarefas de porteira do prédio onde habita recheado de inquilinos que não lhe conhecem a história.

Os muitos filhos que teve perderam-se na periferia da vida a tentar ser alguém. Não conhece os netos mas sabe que os há. A Dona Emilia tem o peso da idade e a jovialidade de quem acredita que apenas vale o momento que se tem. Acredita em Deus por que não sabe duvidar e dúvida dos homens porque a vida lhe ensinou que é o mais acertado.

Quando me demoro a encontrar a Dona Emilia, ficou com o pânico de quem perde uma criança num banho de multidão. Pela velha ordem das coisas, sei que um dia, a Dona Emilia voltará a descalçar-se para galgar de pés nus a rua da paz. Até lá fica a antecipação da saudade, de ver perder ao bairro o seu mais humano postal.

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