Competitividade ou Coesão Social?
18 June, 2009 by Pedro
Ainda que sendo uma facilitação intelectual sintetizar a História da humanidade em ciclos – como abarcar toda a diversidade e heterogeneidade humanas acontecendo em simultâneo em meia dúzia de conceitos generalistas? – esta é uma acção que nos permite ter uma noção – genérica, generalista – do nosso passado, das nossas raízes. Ao entendermos o passado podemos perceber o presente e percepcionar o futuro.
Ou assim deveria ser.
Analisando esses ciclos, tenho a sensação de que eles são círculos, voltando-se a cada “n” gerações às mesmas percepções do mundo, às mesmas angústias, aos mesmos desejos. Com maior conhecimento científico, com maior desenvolvimento técnico, com maior corpo de reflexão filosófica, com maior e mais diversa produção artística… – mas, no âmago, as mesmas percepções, angústias, desejos.
Somos seres humanos e, basicamente, sofremos as mesmas pulsões que atingiram os nossos antepassados.
Lembrei-me desta lenga-lenga que poucos de vós tiveram paciência para seguir, quando ouvia há uns dias a discussão sobre reabilitação urbana na RTP1. As queixas dos proprietários de prédios devolutos em pré-ruína que se sentem ameaçados pela hipótese de expropriação são as mesmas dos proprietários de lotes em ruína no pós-terramoto, ameaçados de expropriação pelo novo plano de urbanização da Baixa. A expectativa de apoios do Estado à recuperação, reabilitação ou reconstrução, essa é endémica e bem nacional.
Também as políticas de cidade são circulares, baseando-se, quase sempre, em palavras-manifesto, ouvidas num sussurro de assessor, num intervalo para café de conferência ou num artigo de revista internacional.
E são circulares porque, para marcar a superioridade, cada candidato eleito tem de impôr a diferença em relação ao antecessor e, sendo o número de diferenças e opções partidárias finito, fatalmente ter-se-à de regressar à origem.
Em que param as modas em Lisboa, neste momento? Entre que Cila e Caribdis navega a nossa nau Catrineta de corvos à ilharga?
Pelas conversas, pela postura, pelo ar dos tempos, parece-me que entre “Competitividade” e “Coesão Social”, com a primeira hesitante com a morte do neo-liberalismo mas apoiada pelo triunfo da Europa sem fronteiras.
Só a “competitividade” trará a Lisboa desenvolvimento (leia-se verbas), diz-se. Mas em que consiste esta competitividade? Em mais vantagens para quem, vindo de fora, se decida aqui instalar. Presumo que as grandes empresas (não se deslocaram já para Madrid?), os grandes eventos mundanos (desportivos e não só), o turismo de luxo.
À custa de quê se fará esta “competitividade”? Pelo que se vê, do fecho das áreas mais paradigmáticas da cidade à habitação, com a proliferação de hoteis; da aniquilação da diversidade de usos, decidindo-se arbitraria e administrativamente, a implantação maciça de espaços “turísticos” (Praça do Comércio) ou terciários (a futura sede da Agência Europeia de Segurança Marítima no Cais do Sodré) a que se vem juntar a recente onda de fusões, concentrações e relocalizações de organismos públicos (por exemplo, a sua saída maciça da Baixa, sendo a mais recente a do tribunal da Boa-Hora), sem a menor consideração pelas consequências económicas que tais actos implicam nos particulares nem o estudo dos efeitos que tais alterações implicam a nível urbanístico (nomeadamente de circulações e de densificação/desertificação de zonas da cidade).
Sob o manto dinâmico da competitividade esconde-se assim a dura realidade de uma cidade em continuada deriva. Uma cidade que observa, em permanente paradoxo, boquiaberta e desinteressada, a sangria de habitantes que vem sofrendo desde há trinta anos. Uma cidade bipolar com, face às infra-estruturas existentes, excesso de actividade diurna e carência de actividade fora dos horários de trabalho.
A dura realidade é que não será a propalada “competitividade” que devolverá a qualidade de vida aos cidadãos de Lisboa cada vez mais afastados dos locais conviviais, das zonas enobrecidas pelas vistas, pela patine, pela acumulada sabedoria dos anteriores ocupantes. A cidade tornada “competitiva” tornar-se-á uma cidade hostil para os excluídos economicamente dos privilégios que essa competitividade possibilitará (que não haja engano: também a classe média se verá excluída).
Uma cidade minoritária não é uma cidade, antes uma montra-museu, frente à qual, perfilados, se posicionarão empregáveis e inativos, sonhadores e ociosos, pobres e remediados, todos à espera da sua migalha, todos à espera da sua vez.
Uma cidade assim não merece viver, não pode ser vivida. Será, no seu futuro agonizante, uma cidade de muros e cercas, de paranoia securitária.
Como as praias de resorts de luxo em países de terceiro mundo, como nos shopping centers da América Latina, como nos bairros brancos na África do Sul, cercadas por segurança privada e autóctones aspirantes (a quê?).
A quem servirá?
Se, pelo contrário, observarmos o custoso (a todos os níveis: económico, político e social) caminho da coesão social, talvez antevejamos um melhor futuro global. Apesar dos perigos do facilitismo ideológico, da inércia da maioria, é da cidade tricotada socialmente, vivenciando em cada bairro a diversidade das gentes e dos usos, que podemos esperar maior – aqui sim – competitividade. Uma cidade onde a rua ofereça aos passantes a tentação de parar; onde no comércio local se aperceba o conselho certo e o produto procurado; onde seja fácil a deslocação, porque próxima, entre emprego e residência; onde a mudança ocorra naturalmente porque a diversidade de oferta assim o permite, será uma cidade de agrado, uma cidade chamariz. Uma cidade de gente e não de contas. Uma cidade “encaminhada” e não uma cidade dirigida por gabinetes ou CEOs.
Uma utopia? Depende de qual dos circulos ou dos ciclos queiramos adoptar. Se os do nosso passado se os do presente dos outros. Se eu estiver certo nas premissas que escrevi no princípio, talvez seja o tempo de emigrar. Se me quiserem provar errado, então o tempo é de batalhar pela mudança. Batalhar, pôr mãos à obra, intervir, trocar tempo de sofá por tempo de dádiva.






