Sumário – ensinar no Liceu Passos Manuel

20 May, 2009 by  

A propósito das repetidas discussões sobre qualidade de ensino, qualidade do sistema, qualidade de professores, alunos e pais, eficácia de metodologias, culpados e vítimas, vale a pena ler o relato na primeira pessoa de quem passa por uma escola que já não é o que era.

O Liceu Passos Manuel chegou a ter 2000 alunos no meu tempo, já lá vão 20 anos. O declínio foi chegando, consequência de vários factores. Menor taxa de natalidade, mas também desertificação do centro de Lisboa.

Sumário, por Leonor Areal.

Comments

6 Responses to “Sumário – ensinar no Liceu Passos Manuel”
  1. PedroCG says:

    Li só o mês de Maio e parei porque comecei a sentir algo como uma náusea. Não pela professora, coitada, louvo-lhe a coragem de ter optado por uma profissão tão mal-vista tanto pelos queridos (ia a escrever grunhos mas não me apeteceu ler os múltiplos protestos que se seguiriam pela minha falta de sensibilidade) dos pais, quanto pelos mimosos dos filhos e pela adorável senhora ministra.

    O que me indispôs foi esta salada de má-criação, de ausência de responsabilidade, de falta de valores que passa de pais para filhos, da sociedade para o sistema educativo. Lembrei-me da minha experiência escolar e de ter ido para a rua uma vez por ter dito em voz baixa (a professora era uma boa lip-reader) "ok chefe". Sim, foi no tempo do Matusalém ( no do Marcelo Caetano também) e no ensino particular, mas com os meus amigos do público a disciplina era a mesma.

    Não estou interessado em discutir méritos teóricos da disciplina férrea ou da vivência equalitária. O que me interessa são os resultados: que cidadãos está este sistema de ensino a formar? Temos uma primeira aproximação com os pais destes meninos que se recusam a obedecer à professora. Para além da falta de valores sociais e comportamentais, saberão estes jovens quando adultos ter um mínimo de participação na sociedade que integram? Terão um mínimo de consciência política? Saberão ser bons trabalhadores, bons educadores?

    Tiago, era assim há 20 anos? Batiam nos profs? Mandavam os contínuos pastar? Era assim? Por onde andam na vida os teus colegas? São carne para canhão ou safam-se bem? Se calhar estou a ver tudo mal, conta lá.

    • Tiago says:

      Havia de tudo, Pedro. Normalmente as turmas da manhã eram bastante melhores que as da tarde. Dependia muito de professor para professor, a disciplina que era imposta dentro da sala de aula.

      Tive uma professora de Português do 7º ao 9º ano que desde a primeira aula, sem levantar a voz, do alto dos seu 1,50 m nos fez perceber que não havia abébias. E não havia. Foram três anos de aulas com respeito. Não sei se era grande prof de Português, mas era admirável aquela autoridade eficaz e rara. A mesma turma tinha comportamentos diferentes conforme os profs.

      Havia outros profs bons mas que não conseguiam combater o ruído dentro da sala, o que implicava que a matéria ia sendo dada. Quem ouvia, ouvia, quem não queria ouvir, não ouvia.

      E depois os outros, os que não tinham nem vocação nem talento para estar à frente de uma turma. Desgraça total, desrespeito grunho, como dizes.

      O universo de alunos era ainda muito heterogéneo, com comportamentos muito diferenciados. Mas arrisco-me a dizer que, pelo menos nas turmas da manhã, uns 60% estava lá porque queria, uns 20% estava mas se não estivesse também não lamentavam, e outros 20% estavam a mais, a perturbar.

      Os bad boys famosos do Liceus era quase todos das turmas da tarde, que se cruzavam nas disciplinas menos importantes.

      Naquela altura tínhamos aulas de manhã e pelo menos 3 tardes livres. E quando havia aulas à tarde eram só duas horas.

      Tínhamos por isso muito tempo para fazer outras coisas. Quando revejo o meu percurso escolar lamento não ter estudado mais, nem ter estado com atenção nalgumas disciplinas. Houve cadeiras que me passaram completamente ao lado. Ter positiva dependia de conseguir escrever razoavelmente nos testes, mesmo sem saber patavina da matéria.

      Os meus amigos daquele tempo, os 6 ou 7 que lhes ainda sigo as pisadas, são hoje felizes, e fazem profissionalmente o que gostam. Dois deles estão no Viver e mudaram radicalmente de profissão há pouco tempo. Num jantar de saudades que fizemos há pouco tempo contaram-me que o Rui Sérgio, um dos grunhos-mor do nosso tempo, gajo com a mania que era mau, é hoje carteiro. Gostava de voltar a falar com ele e ver se lhe passou a parvoeira qeu parecia crónica. Senão, temo pelo destino das nossas cartas.

      O panorama que a Leonor Areal descreve no Sumário não é o que tive quando lá andei. É muitas vezes pior. Conheço a Leonor e sei que é uma pessoa dedicada e competente, como foi a mãe, Directora da minha escola primária.

      O que me angustia no Sumário é a sensação de impotência perante este tsunami de grunhice instalada em alunos e respectivos pais. No país, no fundo. Não sei quando foi a mudança. Lembro-me de um ano depois de ter saído do Passos ter lá voltado para falar com um ex-professor, no início do ano, e ter visto os alunos mais velhos a praxar os putos do 7º, recém entrados. Todos pintados, cenas de humilhação pública, dentro dos corredores, em pleno Liceu. Nunca tinha visto aquilo assim. Havia no meu tempo umas parvoíces, mas nada de mais.

      Fui a correr ao Conselho Directivo falar com quem lá estava. Ainda nos conhecíamos bem. Mostrei-me estupefacto com a desordem e com a falta de mão que eles tinham naquilo. Que não podia ser, que as praxes continham abusos e coações escondidas por trás daquele suposto ritual de integração. Encolheram os ombros. Desistências. Impotências. Incompreensíveis naquele tempo. Foi de um momento para o outro, era fácil intervir e estancar a desordem.

      São erros destes que deixam marcas negativas para o futuro. O resto, a continuação daquela descida aos infernos, não sei.

  2. José carlos ramalho says:

    A Professora de português tinha um FIAT 600 e dava pelo nome de Margarida Leon.

    • Isabel Martins says:

      É mesmo. Já não me lembrava do nome dela. Uma ótima professora de Português. Isabel Martins (da tua turma do Liceu Passos Manuel)

  3. Inês M. says:

    olá. sou uma aluna do 10º ano na Escola Secundária Rainha D. Leonor, em Alvalade, que está a pensar mudar para a Passos Manuel por conveniência (por ser mais perto de casa). O meu maior medo é o ambiente da escola, se este é ou não desagradável, se há histórias de violência (nomeadamente assaltos, droga) ou histórias de bullying. não sou uma pessoa extrovertida e faladora, tendo alguma dificuldade em fazer amigos…
    se me pudesse fornecer informações sobre o ambiente, tipos de alunos da escola, etc etc, agradeceria.

  4. AAA says:

    sim, o ambiente da escola não é agradável, há histórias de violência e de bullying…

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!