Ruas que falam
10 May, 2009 by Tiago Figueiredo

Há uns dias dei com isto na Rua da Academia das Ciências. Não sei se sabem, mas é costume as pessoas passarem nesta rua da Freguesia das Mercês e sentirem um misto de encanto, curiosidade e algumas também uma pontinha de inveja. Um dos lados, uma fila inteira de prédios, não quis ter porta na rua, preferindo ter como morada a das traseiras, a Travessa do Arco de Jesus. Onde deve ter havido em tempos um arco, mas que agora já não há.

Num dos muros de um prédio recentemente restaurado, resolveram pintar este desenho. Desconfio que os próprios inquilinos ou donos do prédio (não tenho a certeza de quem lá vive, apesar de uma intuição me dizer que os conheço). Mais uma vez, foi uma opção diferente das três habituais – deixar em ruína, deixar vandalizado com tags, ou pintar de uma só cor – como naquele mural da ZDB. E o resultado é muito agradável.


Dois prédios ao lado, o muro coberto de azulejos bancos desde há muitos anos tem um interesse histórico. Resiste uma daquelas frases políticas típicas do início dos anos 80, quando quando havia APU, AD, uma dívida pesada ao FMI, e o Sá Carneiro ainda não tinham morrido aqui perto, em Camarate.




Isto demonstra uma regra: as áreas cobertas com arte tendem a inibir a vandalização do espaço.
Já repararam que os pilares do viaduto do Eixo N/S sobre o Lumiar estão todos grafitados e cheios de posters, que aliás também são uma espécie de vandalismo efectuado por empresas conceituadas da nossa praça?
E que os pilares do viaduto da 2ª circular sobre o Campo Grande, ou do viaduto do Eixo N/S sobre o parque de estacionamento em frente ao Zoo, raramente são vandalizados e se mantêm "limpos" há longos anos?
A diferença: estes 2 últimos estão revestidos por azulejos com gravuras temáticas (cenas de baile e animaizinhos, se bem me lembro).
A diferença de tratamento nos pilares diz também muito acerca da consideração política que as freguesias limítrofes de Lisboa (apesar de serem das mais populosas) merecem aos poderes públicos – não são mediáticas, logo…
Veja-se a falta de arranjos exteriores que se verifica na área intervencionada no Lumiar para a implantação do viaduto da Norte-Sul: o rearranjo viário que espera por um projecto desde então, um qurteirão centralíssimo transformado em parque de estacionamento clandestino, um ex-armazém de pneus cortado ao meio à medida das necessidades da empreitada e agora abandonado, um ar de abandono geral que, a par da poluição do viaduto também contribui para o espírito depressivo das gentes.
Com este desprezo por parte do Estado, será de admirar que o desprezo de alguns se manifeste também?