Reabitar Lisboa (IX) – Turismo
11 May, 2009 by Pedro
(continuação)
2. A AUSÊNCIA DE MICRO-POLOS DE INTERESSE TURÍSTICO
O que fariam das idiossincrasias de Lisboa os povos mais expeditos a aproveitar comercialmente potenciais turísticos?
Guardadas as devidas diferenças sociais e culturais, parece-me que a melhor atitude será a de aprender com os melhores. Que fariam então os “melhores”, de Lisboa? Identificariam o que há de único na cidade e torna-lo-iam numa máquina de fazer dinheiro tanto para os particulares quanto para o município.
E o que tem – ou teve – Lisboa para oferecer, para além do estafado pitoresco de Alfama, da inevitável monumentalidade dos Jerónimos ou do clima?
Coisas tão práticas de apostar e desenvolver como, por exemplo, a culinária, a História, os eléctricos, os cemitérios românticos.
Eis algumas sugestões para cada um destes capítulos:
Culinária
Incentivar a definição de um “corpus” de culinária tradicional lisboeta;
Promover a realização de concursos sectoriais anuais do tipo “o melhor…”, especialmente nos sectores da doçaria e dos petiscos (o melhor pastel de nata, as melhores sardinhas assadas, os melhores pasteis de bacalhau,
a melhor ginginha etc.);
Promover concursos para restaurantes,
tabernas;
História
Não só criar uma rede de edifícios “notáveis” pelo nascimento, uso ou passamento de figuras de relevo como, em paralelo, promover a edição de memorabilia correspondente em postos de venda fixos ou móveis situados nas imediações (por exemplo, um mapa onde se possam assinalar as visitas, postais, imans, biografias, obra);

Em Lisboa, as homenagens quedam-se em pequenos gestos. Perdida numa parede do Rossio, esta lápide é o máximo que a CML se permitiu fazer para relevar a figura de Alfredo Guisado; a curiosidade dos poucos que olham fica por matar: quem foi, o que escreveu, onde está a sua obra?
Aproveitar a memória das duas cercas – “moura” e “fernandina” – e a existência no presente de alguns dos seus troços para criar pontos notáveis da cidade velha – assinalar o percurso nos pavimentos com materiais diferentes, criar iluminação nocturna especial de modo a aumentar a frequência dos locais ao anoitecer (com vantagem para a restauração local),

As antigas cercas da cidade, seguindo o traçado aproximativo de Vieira da Silva: a vermelho a (dita) Cerca Moura; a amarelo a Cerca Fernandina.
possibilitar o acesso aos cubelos (torres) existentes,
fomentar a edição de guias;
Promover espectáculos multimédia regulares assinalando eventos relevantes para a cidade (a conquista da cidade e o episódio de Egas Moniz ou o atentado a D. José por exemplo), recriações de espaços (a judiaria junto ao Chafariz d’El Rei, a Mouraria) ou acontecimentos (o terramoto e maremoto);
Alargar as escavações do sítio do teatro romano e promover o seu uso, quer teatral, quer circense (com parcerias com o Chapitô, por exemplo).
Eléctricos
Quantas capitais têm um sistema de transporte tão original como Lisboa teve com a sua rede de eléctricos?
Erro estratégico coerente com a época, de vistas curtas e completamente subordinada aos critérios de prioridade automóvel e , a anulação e subsequente destruição dos carris da maioria das linhas de eléctricos foi um crime de lesa-turismo que urge anular.
É urgente recuperar para a cidade a maioria das linhas de eléctricos dos bairros mais antigos, bem como algumas das circulares (Carmo/Campo das Cebolas). Sendo um investimento vultuoso, dever-se-à repensar todo o sistema de circulação viária, definindo prioridades não baseadas em dogmas, antes orientadas para a realidade dos públicos-alvo. Uma vez que em muitos troços já não existem as infra-estruturas, torna-se possível redesenhar algumas dessas linhas, resultando-as mais eficazes, atraentes, “consumer oriented”.
Finalmente, é imperiosa a manutenção da imagem “original” dos veículos, mesmo considerando as exigências de conforto dos utentes.
Cemitérios Românticos
Ainda que podendo ser considerado macabro, o culto da memória da morte tem um elevado potencial turístico, de que é exemplo maior o cemitério “Père Lachaise” em Paris.
Um cemitério como o dos Prazeres, com a sua estatuária, arquitectura e peculiaridades (o maior mausoléu privado da Europa, o antigo jazigo de Pessoa, as vistas) ou os reclusos cemitérios alemão e inglês podem constituir o centro de um turismo de especialistas ou amadores interessados na temática. A introdução de percursos guiados, de elementos de apoio à descoberta e interpretação – política já iniciada, ainda que incipientemente pela CML – será um bom princípio.
Já os cemitérios inglês e alemão, são cápsulas do tempo, primorosos jardins perdidos que merecerão, não uma promoção de visitas intensas, antes de tesouros a descobrir. Conhecei-os? Pois não. Lisbon’s best kept secrets.


















Tem toda a razão. Estas sugestões fazem-me lembrar as "London walks", o guia Zagat e os blue dots.
As London walks e, tanto quanto sei, estas caminhadas acompanhadas de um guia funcionavam noutras cidades também. Havia um pequeno livrinho (tipo borda-d'agua) com um resumo das caminhadas e pontos de interesse a visitar durante a mesma. No livro denotava-se ainda o ponto de encontro, o horário e o título da caminhada e claro o preço a pagar ao guia e o grau de dificuldade. Conheci Londres e Roma assim. (Em Londres sei que tudo isto era gerido por um casal que contratava peritos como guias)
O Guia Zagat é um guia que tem o nome dos restaurantes e um sistema de pontuação para comida, atendimento e decoração. Lembro-me de quem me ofereceu o primeiro e de todos os anos comprá-lo em Janeiro e de fazer adendas ao meu! (Era um guia feito por críticos anónimos e publicado por uma empresa familiar)
os blue dots era uma pequena placa colocada na fachada de cada edifício com interesse cultural, com o nome da pessoa que ali tinha vivido, o período em que ali tinha vivido e em que tinha vivido e uma nota das obras mais significativas. (Não sei se esta iniciativa era da cidade ou Nacional mas certamente privada não era)
Coisas simples que qualquer pessoa pode iniciar. Basta espírito de iniciativa e apoio ao empreendorismo.
Enquanto houver subsídios para a malta ficar em casa a ver bola nada acontecerá! 🙁
boa malha Pedro! há algo muito simples q juntaria a isto tudo e q é mto simples. Mudar as placas com os nomes de rua. A "sinalética toponímica" :p (a expressão não existe fui eu que inventei e é horrível) lisboeta é péssima. Que tal criarem umas plaquinhas maiores com letrinhas maiores hein? Comparem as placas de Londres com as nossas.
Eu não as acho assim tão más: são muito "pombalinas" e parecem-me muito em sintonia com a imagem da cidade (ok, a imagem da Baixa, uma imagem setecentista se assim a posso denominar). Não me lembro das placas de Londres mas lembro-me das de Paris e de Madrid (especialmente a da zona mais antiga junto à Plaza Mayor) e elas não são maiores – são, sim, características, únicas. Não sei se é por estar habituado, mas em Lisboa nunca tenho problemas de identificação da rua onde estou (excepto, naturalmente, na Alta 🙂 ) ao contr´´ario de alguns dos países por onde passei.
No entanto, e pensando nas novas urbanizações, tens razão porque, em edifícios altos, as placas se perdem – muitas vezes, a modernidade do objecto não deixa espaço para a fixação da placa. Hum… problema complexo – criam-se várias placas conforme a época da rua, muda-se tudo e faz-se uma borrada nos bairros mais antigos… Assemelha-se à história dos bancos e dos candeeiros, com a cacofonia presente em que cada cabeça arranja uma solução alternativa para o seu cantinho.
Bolas, António, esta precisa dum post autónomo! 😉
podem ser very typical mas a verdade é que são minúsculas…:@
Vi no seu post uma pequena figura com a marcação das duas muralhas que circundavam Lisboa que me interessou.
Estou a fazer uma tese de mestrado sobre a Mouraria e raramente encontrei informação cartográfica onde se sobrepusessem as duas muralhas de Lisboa. Será que me podia facultar o dito mapa? É que fazendo o save do vosso site, não fica com uma resolução suficientemente boa para eu conseguir distinguir as ruas.
Agradecida, PG