E como vai ser quando fôr em Lisboa?

Enquanto não ocorrer um sismo a sério na região de Lisboa, vamos continuar todos – os técnicos, principalmente – a agir como se isso não se vá passar no nosso tempo de vida.
Partindo do princípio que a partir de 1983 a regulamentação que então entrou em vigor é suficiente para evitar vítimas mortais nos edifícios construídos sob a sua égide e considerando que as medidas de majoração (obrigatórias) poderão ser suficientes para cobrir eventuais deficiências de concepção e de construção, podemos considerar que – a menos de um sismo estatisticamente não contabilizado – os edifícios com menos de 25 anos conferem um razoável grau de segurança a quem os ocupa.
Restam os outros. O que lhes acontecerá?
Acredito que os edifícios de betão armado sofrerão danos com alguma gravidade, dependendo o grau dos mesmos de condições difíceis de identificar sem ensaios ou estudos mais aprofundados, como sejam as ligações entre peças estruturais, a distribuição das massas no edifício ou eventuais diferenças de rigidez nos vários pisos (por exemplo, o “Bairro das Estacas” com os pisos térreos vazados e os edifícios assentes em pilotis muito esbeltos).

Bairro das Estacas, junto à Av. Roma (Horácio Novais, António Passaporte;fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)

Edifício com piso térreo vazado após um sismo: rotura nas ligações viga/pilar (fonte: EERI 2000)
Recuando no tempo, é uma profunda preocupação.
Antecessores dos edifícios de betão armado “puros”, os edifícios conhecidos por “de placa”, isto é, com lajes de cimento apoiadas em paredes resistentes de alvenaria (como alguns do Bairro de Alvalade – Av. da Igreja) não terão garantidas ligações resistentes a esforços horizontais como são os produzidos por acções sísmicas.
Mais antigos, os edifícios ditos “gaioleiros” (que da “gaiola” pombalina já só terão a ironia do nome), construídos grosso modo, na segunda metade do século XIX até aos anos 30/40 do século XX são um desastre de soluções construtivas, num avolumar de abastardamento proporcional à distância temporal do sismo de 1755 a que foram construídos. Má construção, péssima conservação, inexistentes reforços horizontais. Uma mistura perigosíssima só disfarçada pela relativa paz sísmica vivida neste últimos 250 anos.
Dos edifícios pombalinos reza a história… do brilhantismo da sua concepção estrutural. O que a história omite é que serão muito poucos os que preservam intacta essa identidade. Vãos abertos para montras maiores, paredes interiores demolidas para alargamento dos espaços – principalmente no piso térreo – paredes estruturais derrubadas (como eu vi, numa cave da Rua Augusta), aumento de pisos, constituem um impressionante catálogo do que não se deve fazer em regiões de risco sísmico elevado. E, no entanto, lá estão, à vista de toda a gente, muitas licenciadas ao longo dos tempos.

Edifícios da Baixa com alterações ao projecto inicial. À esq., 4 pisos acrescentados; à dir. quarteirão onde é visível a diferença de cérceas original/alterada
Finalmente as zonas históricas. Edifícios pós-terramoto, construídos muitas vezes com os salvados dos prédios derrocados, pelos artífices sobrantes das intervenções na zona nobre e fiscalizada da Baixa. Edifícios de fracos recursos para populações com poucas exigências, com mais de 2 séculos de incúria, intervenções abastardantes e uso intensivo. A agravar, um subsolo desconhecido, instável, em alguns casos enfraquecidos por nascentes subterrâneas. A agravar ainda mais, ruelas estreitas, caminhos rapidamente cortados pelo acumular de escombros.

Alfama. Edifício com grau elevado de risco estrutural, adquirido pela CML para reabilitação, obras suspensas há muito
Um futuro muito negro se não se intervier. E o que fazem a Câmara e o Governo? Limitam-se a treinar o minuto seguinte. Cuidar dos feridos e enterrar os mortos. Tomando como uma inevitabilidade as perdas de vidas e bens.
Haverá mais a fazer tendo em conta os custos envolvidos e a exiguidade orçamental? Porventura não. Mas não será um bocadinho exagero andar a apoiar com dinheiros públicos obras de recuperação de fachadas e coberturas, ignorando necessários reforços estruturais? Não será este um acto objectivo de fraude por parte do Estado ao avalizar como habitável um imóvel que se sabe terá reduzidas hipóteses de garantir a preservação de vidas e bens em caso de sismo?
Alternativas? Em alguns casos demolir e refazer. Em alguns reforçar sem considerar os custos. Na maioria, prevenir. Em todos, avisar. Para que os proprietários possam agir (ou não) em consciência. Para que todos saibam ao que vão.
NOTA: O conjunto de edifícios utilizado para a montagem do título é um dos mais bem apetrechados de Alfama para resistir a esforços sísmicos. Será talvez o exemplo mais aproximado da perfeição do como deverá ser encarada e concebida a reabilitação do edificado na cidade. É, igualmente, um exemplo perfeito de como os custos envolvidos numa boa recuperação de edifícios coevos (que terão de incluir o seu reforço estrutural) ultrapassam em muito o custo da obra nova. Fica a ironia registada.



isto é das coisas que mais tenho medo!