Ditadura em Democracia
21 April, 2009 by Pedro

Confesso o estímulo intelectual que me provocam alguns aspectos dos próximos actos eleitorais.
Para a Assembleia da República, como decidirão os portugueses que se declaram no presente tão desencantados com o Governo – abster-se-ão? Votarão na oposição ou canalizarão o seu voto de protesto para um pequeno partido radical (radical?)?

(Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril)
Funcionará a eleição para o Parlamento Europeu como wishfull thinking com os eleitores a votar no partido que gostariam que estivesse em condições para ser alternativa ao actual Governo sem medo de errar uma vez que, vox populi, “esta não serve para nada”?

(Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril; Foto; Paixão Esteves)
E, finalmente, estarão os lisboetas tão desmemoriados – ou tão fartos de António Costa – que tornem possível o retorno do Hades ao triplo ex-presidente (de clube, de câmara, do governo) Santana Lopes?

(Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril)
Estes jogos intelectuais, não servem por si só, no entanto, para sumo deste post; são apenas modo de aclarar a pluma. O que eu quero mesmo é voltar ao tema do apelo a uma frente de esquerda para as eleições à Câmara de Lisboa.
Da opinião – coerente e irónica – de Helena Roseta, já o Tiago aqui falou. Sá Fernandes disse de sua justiça em artigo no Público da passada semana – e desde que o li penso em como estamos rodeados de fragilidades.
Frágil é o pensamento e a estratégia política de maior parte da nossa esquerda. Frágil é a nossa democracia que vive de papões e dragões e dinossauros excelentíssimos. Frágil é o sistema partidário que nem pelo interior nem pelo exterior parece ter capacidade para se renovar.
Relembremos os factos: partindo da aritmética elementar da soma de votos nas últimas eleições, várias vozes (iniciadas na esquerda mais totalitária) defenderam uma solução frentista de esquerda como resposta possível ao “perigo” da vitória da “direita unida”.
Mas que profundo disparate. Mas que menoridade de pensamento. Mas que fascistoide estratégia.
Primeiro, um ponto prévio: os eleitores têm memória, têm espírito crítico, têm a noção de como está a cidade, de como esteve, de como deveria estar. Temer a vitória de Santana é considerar que a) se Santana tiver a maioria dos votos é porque a maioria dos eleitores é uma cambada de parvos ignorantes ou b) a eleição de Lisboa é como um campeonato de antigamente em que apenas um só jogo Sporting-Benfica decidia o campeão – sendo as restantes equipas apenas pano de fundo democrático para descanso federativo.
Agora os erros.
É um erro estratégico, porque ao diabolizar Santana está-se a dar-lhe força e a torná-lo bandeira de quem não quer votar numa proposta de esquerda para a cidade. Não existem candidaturas fora da esquerda para além da de Santana? Então e o nóvel MEP?
Não leram Maquiavel, não aprenderam nada com o livrinho vermelho? Já Mao dizia, ser atacado pelo inimigo não é uma coisa má, antes uma coisa boa. Se consideram que os lados são estanques, que os eleitorados não se misturam, porque não publicitar uma candidatura que, a ter êxito, causará muito mais danos nas hostes do inimigo dos que nas próprias? Uma candidatura que, a avaliar pelos envolvidos e pelo manifesto apresentado, poderá constituir uma adição importante à gestão política e estratégica da capital? Vistas curtas, vistas curtas.
É um erro democrático. Insistir em amontoar ideias num cadinho amorfo em nome de uma pretensa vitória moral – do Bem contra o Mal – é prestar um mau serviço à heterogeneidade política que uma democracia deve forçosamente comportar. As ideias não se fundem – progridem em conjunto e procuram a súmula. Não são anuláveis em nome do combate político.
É um erro para a cidade. Porque uma candidatura frentista, tendo por objectivo a derrota “do outro”, se esgota no momento da vitória e o que fica no rescaldo da vitória é o vazio de uma ideia coerente para a cidade. Como aconteceu na década de 90 com a coligação PS-PCP (constituída com o objectivo de derrotar a perigosa candidatura direitista de… Marcelo Rebelo de Sousa), o que fica são compartimentos estanques de gestão dos diversos pelouros, com um caminho autónomo, sem diálogo com os pelouros vizinhos. A reabilitação a não comunicar com o urbanismo e os dois a não pensarem com o planeamneto estratégico, a gestão dos bairros sociais a ignorar o ambiente e espaços verdes. Nunca uma gestão coerente, antes uma viagem feita aos repelões, com fogachos mais panfletários que reais.
Ao contrário do que possa parecer, um entendimento pós-eleitoral entre partidos e movimentos que se candidataram com ideias e programas definidos permite uma partilha de poder baseada no diálogo e no respeito pelas posições de cada um, já referendadas, criando plataformas de acordo e princípios de decisões em comum.
Um melhor rumo, uma melhor cidade.


