Alfama velha (III) – A graça de S. João da Praça
28 April, 2009 by Pedro

No final dos anos 90, um munícipe dirigiu-se ao Gabinete Local de Alfama para participar que o chão do seu restaurante estava a abater. Mobilizados os técnicos, investigado o local, comprovada a existência de patologias que indiciavam problemas graves na estabilidade do prédio (na fotografia o mais baixo ao centro), formou-se uma task force para resolver o caso. Sabendo como tudo neste tipo de construção se encontra numa situação de interdependência, a primeira medida tomada foi a de estender o estudo à envolvente – prédios do mesmo quarteirão, rua e respectivo subsolo e edifícios fronteiros, bordejando a mesma artéria.
O trabalho foi fascinante. Sendo uma zona de fronteira entre a Alfama mais antiga, com lotes mais pequenos e, consequentemente, fogos reduzidos e de baixa qualidade e a zona da Sé, oitocentista, de lotes maiores e maior standart – logo de construção mais cuidada -, a área constituiu um observatório precioso sobre os vários modos de ocupação do espaço ao longo do tempo, os modos de (muitas vezes mal) construir, a apropriação da arquitectura pelas diversas populações.
Rapidamente se concluiu que, ao problema principal – o chão que abatia – se juntavam as más condições de conservação de todos os edifícios, de pouco a muito graves. A determinação da causa primeira foi simples: uma pequena escavação no passeio fronteiro revelou a existência de uma “locca” (gruta) com um diâmetro de cerca de 8 metros a menos de 1 metro de profundidade! Um buraco sob os pés dos passantes, em crescimento contínuo provocado pela passagem das águas provenientes de algumas das muitas nascentes subterrâneas da colina a que se juntavam os efluentes do esgoto vizinho, totalmente fracturado.
Sob o largo identificou-se igualmente a existência da mãe de água do Chafariz d’El Rei, uma estrutura abobadada onde chegavam algumas levadas de nascentes da colina. Tenho pena de não ter conservado as fotografias, era (é) um espaço inesperado de encontrar no meio da cidade. Também ele se encontrava em muito mau estado, com uma fissura mais larga que uma mão travessa, fruto de assentamentos diferenciais da base das paredes, indiciadores de que o movimento de erosão continuava muito para além da “locca”.

A mãe de água do Chafariz d'El Rei (4) fica sob o largo limitado pelos edifícios 1, 2 e 3. (foto: Microsoft Visual Earth)
Cerca de um ano depois, se não me falha a memória , as obras de reabilitação da conduta avançaram, aproveitando-se a oportunidade (a obrigatoriedade também ajudou…) para a análise arqueológica do subsolo. As conclusões foram interessantes… para os entendidos. Para mim ficou o respeito pelos homens e mulheres que arriscavam o pescoço a trabalhar a 4/5 metros de profundidade, sem grandes medidas de protecção (ai se fosse agora com a ASAE!…).
E os edifícios? Resolvida que ficou a origem do problema, o que aconteceu aos edifícios?

Os três edifícios em maior risco: 1 - Obras de remodelação efectuadas pouco tempo antes com andares vendidos em propiedade horizontal; 2 - Edifício em grave risco de aluimento, moradores realojados; 3 - Edifício demolido, moradores realojados; 4 - Chafariz d'el Rei
Os 3 em estado mais crítico (e que se vêm também na primeira foto) foram comprados pela CML, os moradores realojados, as obras começadas… e estamos em 2009. O largo continua entaipado. Quanto à mãe de água, o acesso está bloqueado. Desconheço como se fará a monitorização no futuro.

Traseiras do edifício 2 (a entrada para a mãe de água fica à direita das portas visíveis)



Que história surreal! E a ideia da gruta de 8 metros de diâmetro com 4 de profundidade, com edifícios por cima é arrepiante. Consegues explicar como é que aquilo não cai?
Boa Tarde
Os edificios não foram comprados pela CXML mas sim expropiados e esta nunca mais se preocupou com os inquilinos que ai viviam , pois os meus pais moravam no nº 16 da Travessa São João da Praça a porta que aparece com o boneco verde e ainda hoje lutam para voltar ao Bairro que tanto amam