Alcobaça
20 April, 2009 by Pedro
Eu confesso: desde pequenino que são as memórias gastronómicas que mais marca me deixam do passado. Inevitável que das idas em procissão a Fátima, muito ainda de calções, o que me ficou tenha sido a lembrança das paragens à ida no Corações Unidos de Alcobaça e do cheiro e do bem que me sabia o seu Frango na Púcara.
Adiante. Muitos anos depois, outros interesses, outros olhares, outros tempos e Alcobaça passou a ser sinónimo desse Mosteiro tão cheio de uma leitura ascética do mundo, atenuada posteriormente pela pobrezinha intervenção barroca na fachada.

Procurem distanciar-se do bruá turístico, da poluição contemporânea do resto da cidade, da aldrabice do bilhete cobrado à entrada e que nem a metade do espaço nos dá acesso e imaginem-se num tempo de temor ao divino, de impotência perante a natureza, do horror da morte e do mal. Onde o refúgio do Homem residia unicamente entre as paredes de Deus

dessas paredes ainda despidas do orgulho tardo-gótico do arquitecto que as soube libertar das leis do mundo e elevá-las ao nível do vôo dos anjos.
Eu sei que uma catedral medieval era tudo menos o espaço de recolhimento silencioso que hoje gostamos de imaginar. Quase feira, túrgida de pecadores, peregrinos, refugiados, arraia-miúda, burgueses incipientes, terratenentes, todos em busca, todos em inquietude espiritual. Local de comércio de indulgências, de submissão de humilhados e ofendidos à pretensa superioridade dos homens de Deus. Era. Mas era igualmente um livro das histórias divinas só intuidas no latinório dos frades.

E da aproximação ao divino. Quando deixava os olhos correr pelas ascéticas colunas, para onde correria o espírito de homens e mulheres senão para o céu, para o Paraíso que um dia seria a recompensa das agruras do presente?
E os frades?

Teriam tempo para a vida espiritual, por entre o frenesim da reconquista, do perigo dos ataques muçulmanos, das preocupações da ocupação e da gestão do território?
No claustro, no refeitório, a regra de Cister impor-se-ia. O que lhes passaria pela cabeça no meio destas colunatas,

face ao leitor, ouvindo a palavra do Senhor seu Deus?

Estariam – como eu – em espiritual deleite pelas subtis fragâncias do frango longamente apurado nos saberes sibaritas dos irmãos cozinheiros ou, pelo contrário, degustavam absortos o conteúdo da malga, enquanto prosseguiam em espírito o diálogo com Deus pedindo perdão pelos pecados terrenos que carregavam?




Que bom, Pedro. Gostei de voltar ao Mosteiro e senti-lo na tua viagem. Obrigado.
Nem de propósito.
Estive no Mosteiro na semana da Páscoa e recordei também as viagens que costumava fazer com os meus pais, em miúda.
Os poisos eram sempre os mesmos, Pombal, Caminha, mas os passeios eram variados e de Alcobaça só me lembrava das fachadas da Catedral.
Reparei que para além do restaurante para turistas, há a cada esquina um centro de estética, spa e massagens.
Vive-se bem em Alcobaça! (também depois de tanto trabalhar para agradar turistas, é preciso relaxar um bocado) 😉