Respondo porém duvido

17 July, 2008 by  

Vivemos num país de Pinóquios Oficiais, não por lhes crescer o nariz de cada vez que lhes sai uma mentira pela boca fora (lá se ia o resto das florestas tropicais para acrescentos em madeira exótica) mas por terem a cara de pau de dizer as mais extraordinárias coisas sem que ninguém lhes caia em cima a exigir explicações.

Ainda estou a remoer os notáveis argumentos de ministra e secretário de estado a propósito da melhoria de conhecimentos dos alunos do secundário expressa na subida das médias de exame. Ontem, dei uma vista de olhos a várias provas do 12º ano e pude comprovar à custa de quê essa subida de conhecimentos surgiu. Mais preocupante é o nível que é esperado de quem se apresta ou a entrar no mundo do trabalho ou a entrar no escasso clube (de acordo com as estatísticas europeias) dos licenciados portugueses.

Só alguns exemplos:

1. Prova de Francês – “Iniciação” (o que, presumo, significará para alunos com 3 anos de Francês)
a) Fotografia da montra de uma livraria, com a seguinte legenda (traduzindo) “A sopa dos livros” ; Livros antigos compra-venda

Pergunta por escolha múltipla: “A sopa dos livros é
a)uma biblioteca;
b) um restaurante;
c) uma livraria;
d) uma papelaria”

Se o exame fosse feito para crianças do 4º ano… Não será de esperar que um marmanjo com 18 anos saiba reconhecer a diferença entre uma montra e uma biblioteca ou que, quase só pela fonética, perceba que “livre” é “livro”? Que grau de dificuldade ou exigência de compreensão de um texto numa língua estrangeira é este?

É a pergunta inserida para cuidar que ninguém tenha um zero na pauta ou a expectativa de inteligência é tão baixa que – repito, são alunos com 18 anos – se tem de mastigar a pergunta até ficar nesta papa?

2. Prova de Português
a) “Com a afirmação «esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre» (linha 14), o autor quer dizer que
A. se sentia marcado para toda a vida por aquela frase e por aquela cena.
B. transportava consigo, sempre que viajava, um livro sobre David Crockett.
C. se lembrava daquela frase e daquela cena sempre que viajava.
D. tinha aquela frase gravada na pasta que usava em viagem.”

b) “A perífrase verbal em «e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linhas 1 e 2) traduz uma acção
A. momentânea, no passado.
B. repetida, do passado ao presente.
C. apenas começada, no passado.
D. posta em prática, no momento.”

Pelas alternativas em jogo e pelas frases das quais se procura perceber se o leitor as compreendeu, podemo-nos aperceber da imagem de iliteracia em jovens de 18 anos que os interrogadores têm dos alunos submetidos a exame.

No entanto, o mais extraordinário é este exemplo:

“O uso repetido do nome «David Crockett» (linhas 6, 7, 12-13, 16, 20, 24)
A. constitui um mecanismo de coesão lexical.
B. assegura a progressão temática.
C. constitui um processo retórico.
D. assegura a coesão interfrásica do texto.”

Repare-se como se duvida se um aluno percebe o que “ao longo dos anos fui publicando” quer dizer mas se espera que o mesmo saiba exactamente o que um “mecanismo de coesão lexical” ou uma “coesão interfrásica” querem dizer. Notável.

Mais dois exemplos, tirados do mesmo grupo de questões (assinalar como verdadeiro ou falso; “V” para verdadeiro e “F” para falso):

“O segmento textual «Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linhas 1 e 2) constitui um acto ilocutório directivo.”

“Em «molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma» (linhas10 e 11), as formas verbais «molhando», «tratando» e «vigiando» traduzem o modo continuado como a índia cuidava de David Crockett.”

No mesmo plano de dificuldade, saber indentificar essa personagem misteriosa que dá pelo nome de acto ilocutório e se o gerúndio traduz ou não uma acção continuada. (Estou a imaginar um examinando a pensar “lá que é uma cena ilocutória, claro, tá-se a ver agora se vigiando é só uma vez ou mais…”).

Ainda mais um: “O conector «Porém» (linha 22) introduz uma relação de oposição entre o que anteriormente foi dito e a ideia exposta posteriormente.” É aceitável que ainda se pergunte o significado de “porém” a alguém que fala e escreve e lê português há pelo menos 12 anos?

Com este grau de exigência/facilitismo que leitores de textos poderemos esperar encontrar nos serviços públicos e privados de aqui a alguns anos? Se a nossa relação com os serviços públicos são o que são hoje em dia, como será no futuro conseguir o licenciamento de uma obra, ver atendida uma reclamação de impostos ou esperar que um governante/autarca resolva os problemas sob seu pelouro?

Comments

5 Responses to “Respondo porém duvido”
  1. Anonymous says:

    Se bem me recordo a minha geração foi apelidada de “geração rasca” (daquelas manifestações em que se mostrava o rabo a Manuela Ferreira Leite..).

    Se calhar agora chama ignorante às gerações seguintes.

    Podemos encontrar textos do género pelo menos desde o inicio do século.

    Se calhar somos todos maus a avaliar o contexto em que outros vivem e se desenvolvem.

    em relação a mais este post sobre este assunto…em que ficamos?
    Afinal o exame era fácil ou dificil?

    Tinha perguntas fáceis e outras dificeis? dos 19 anos que estudei…sempre tive exames assim.
    Qual a novidade?

    miguel

  2. Anonymous says:

    Concordo Miguel. Gostaria de ver este pessoal a resolver o exame…

  3. Tiago says:

    Eu sou da mesma geração, a tal “rasca”, e nunca tive exames assim. Não com esta convivência entre perguntas obscuras e outras pueris. Se calhar é por isso que não preciso de perguntar qual a opinião do autor do post sobre os exames deste ano.

  4. Anonymous says:

    caro Tiago,

    O que chama “obscuro” tb costuma ser apelidado de “dificil” e o que refere como “pueril” é, normalmente, classificado como “fácil”.

    Não sei se apenas está a jogar com a semântica ou se tem outro objectivo.

    Se os exames que fazia não tinham perguntas fáceis e outras dificeis…como é que se distinguiam os alunos?

    Eram todas fáceis e tudo tinha 20? Todas dificeis e chumbavam todos?

    Como é que consegue avaliar estas perguntas ou a cosntrução global do exame? Conhece o exame todo e a correcção? o programa? os objectivos?

    Mais importante..é o Tiago especialista na construção de exames?
    É importante que seja, caso contrário pode estar a falar sobre um tema do qual só conhece uns “bitaites” que leu nuns jornais (provavlemente um pasquim chamado Público…) ou uns bloques.

    Não acredito que o Tiago o fizesse com tanta leveza.

    No que me diz respeito, reconheço não ter a formação e informação suficientes para avaliar correctamente a “qualidade” dos exames. Mas sei que não é com “bitaites” que formo uma opinião.

    Miguel

  5. Mr. Steed says:

    Miguel, desculpe lá a colherada mas aquilo que você está a fazer aqui também não se encaixa nessa actividade tão subestimada de “dar uns bitaites?” Porque serão os seus bitaites mais relevantes que os do Tiago?

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