Mendigos e Altivos
15 April, 2011 by Inês Rodrigues

Em Praga, há um estilo de mendigagem que nunca tinha visto antes. Para além dos familiares músicos e actuantes de rua (muitos, numa cidade turística como esta), e de outras abordagens menos ortodoxas e explícitas (mas também habituais), vêem-se muitos mendigos prostrados no chão de joelhos, cabeça baixa e encostada nos braços estendidos que seguram, tipicamente, um copo de plástico. A imagem é de clara abjecção, e o impacto é tremendo.
Albert Cossery, escritor do Cairo, diz (se não me engano pela voz de uma das personagens em “Mendigos e Altivos”) que um mendigo não deve entreter nem causar simpatia, mas provocar repulsa. Se havia um argumento delineado no livro, ele escapa-me agora (e falta-me o livro). Mas não é inatingível: há qualquer coisa no mendigar que suscita o desconforto no mostrar de uma situação estranha (e com um quê de repulsivo): estamos na posição em que nos pedem o que não têm sem ser por falta própria, e que nós, um igual número de vezes, não temos por mérito próprio; somos nós senhores desta dialéctica (não necessária, creio) em que podemos virar os olhos, escolher a quem damos, dignar atenção. Actos de entretenimento com estes propósitos acabam por justificar e esbater esta situação que não tem sentido, que é puro acaso e circunstância; como se merecêssemos todos louvores por termos nascido priveligiados em vez de na mais abjecta miséria, como se isto fosse devido a qualquer coisa pela qual temos direito. O mendigar chocante, de certa forma, é bem mais eficaz a fazer sentir esta bizarra injustiça.
Esta impressão dos mendigos de Praga não me é única. À procura de uma história, de uma qualquer justificação cultural para este estilo de pedinte, encontrei alguns comentários em blogs e afins. Os que li, expressavam o mesmo espanto impressionado, com algumas variações: um quê de “isto é que é um mendigo a sério, não é aquilo de se sentarem no chão à espera que lhe atirem dinheiro” (esta é quase verbatim). E depois este vídeo (e comentário), de uma arrogância e pretensa superioridade moral que me choca e repugna bem mais do qualquer imaginável e inspiradíssimo mendigo Cosseriano.


