duplas hélices
6 April, 2011 by Tiago Figueiredo
Em Melides existe um restaurante excelente cujo dono é daqueles personagens inesquecíveis, invulgares, provocadores e com imenso orgulho nos segredos gastronómicos da cozinheira que lá trabalha há anos. Um tipo de óculos, suspensórios e roupa preta que parece um clone do Mortadelo. Alguns anos atrás passei umas férias lá por perto e ia muito jantar ao Melidense. O bom gosto gastronómico do dono vai a par com o musical. E aqui começa a minha costela vaidosa a falar. Ficávamos até tarde a conversar, ele tinha discos fantásticos e gostava de me supreender com as escolhas. Fazíamos algum despique para adivinhar quem estava a tocar. Uma vez, pôs o melhor ar de desafio que conseguiu e disse “esta não acertas.” Ouvi alguns segundos. Saxofone, contrabaixo, piano, bateria… Não conhecia o disco, mas havia qualquer coisa de familiar. O saxofone em destaque fez-me disparar “Carlos Martins”. Arregalou os olhos e exclamou “desisto!” (Eu avisei quanto à vaidade…)
Há qualquer coisa de herança cultural no jazz português. Soa a português, não consigo explicar melhor. É como a comida. Uma sopa de tomate no Melidense só pode ser boa comida portuguesa. São imprintings, são assinaturas, feitios, idiossincrasias, difíceis de teorizar, mas que fazem acender luzinhas na memória, disparam evocações de outras experiências e ligações a um adn que vamos adquirindo culturalmente.
Lembrei-me disto porque há uns dias liguei o rádio no carro, não me lembro da estação sintonizada, tocava jazz, mas ia a meio da faixa. Era jazz, um trio de piano, contrabaixo e bateria. Tentei adivinhar. Só tive tempo de dizer que era português, a música acabou e o locutor desvendou o mais recente cd do Trio do Mário Laginha, variações sobre temas de Chopin.

Gosto imenso do texto de abertura e fiquei com vontade de escrever este post.

Gosto desta ideia de ir buscar pedacinhos da música do Chopin, como se fossem troços do código genético que se fundissem com os do Laginha (que por sua vez é feito de heranças várias). Gosto da separação entre aproveitar e reutilizar material em vez de travestir uma obra. E depois do gozo de ouvir o cd para descobrir que obras tinham inspirado cada faixa, acabam por ficar como preferidas as que têm esse material mais escondido. É como procurar parecenças familiares numa pessoa; os olhos são do pai, a boca é da mãe, as mãos são da tia mas o feitio é do diabo.
[audio:https://teste-viverlisboa.animoleve.com/wp-content/uploads/2011/04/01-Nocturno-Nº1-Op.15.mp3|titles=01 Nocturno Nº1 Op.15]
Mário Laginha Trio – Nocturno op.15 nº1
Sabe muito bem acabar as tardes numa esplanada com isto nos fones, a cruzar memórias de outras audições, recordar os colegas do Conservatório a estudar nas salas de piano, o tempero forte das migas do Melidense, o concerto que vi com o meu pai em 93, do Carlos Martins com a Filipa Pais novinha, uns 20 anos, linda de morrer, aqui atrás da igreja da Graça, mesmo junto à esplanada. Onde estou agora.



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