Cidades com gente

23 December, 2010 by  

Tinha uns 3 anos quando fui confrontado pela primeira vez com a morte. O vizinho do 2º esquerdo, um senhor que eu só conhecia de ver os meus pais cumprimentar nas escadas do prédio onde vivíamos, na rua Eduardo Coelho, e que me obrigava, como todos os “grandes”, a dobrar o pescoço para trás para lhe conseguir ver a cara.

Lembro-me da minha mãe chegar a casa nesse dia e dizer-nos “olhem… o vizinho do 2º esquerdo morreu.” e de eu perguntar o que era morrer e ficar angustiado com a sensação de finitude. De ficar aterrorizado, a seguir, quando percebi que isso também podia acontecer aos meus pais.

Outras mortes houve, nos anos que se passaram, que não interessa agora aqui contar. Lembro-as porque conhecia os meus vizinhos. Não no sentido de confraternizar nas casas, mas pelo simples facto de nos cruzarmos nas escadas, de nos cumprimentarmos, de estarmos por perto quando havia qualquer coisa urgente.

Fala-se da desumanização crescente das cidades. Muitas coisas contribuem para isso, algumas paradoxais, por um lado um claro sinal de melhoria de condições de vida, mas que fomentam a individualização das cidades. As casas são, felizmente, mais confortáveis. Temos televisão, às vezes mais do que uma, que nos permite passar serões “acompanhados”, e o frigorífico que nos liberta de ir todos os dias às compras. Temos os automóveis que nos poupam o percurso até aos transportes públicos, as garagens subterrâneas que nos convidam a ir de casa para o trabalho ou ao hipermercado sem ter de pôr um pé na rua. Projectos como “Prédios que falam” surgem como compensação do vazio sentido por muita gente nos novos bairros.

Mas nem é preciso inventar nada. O conceito de cidade que temos em Lisboa antiga funciona perfeitamente, como um sistema de causa-efeito. Prédios mais baixos, sem elevador, que nos fazem cruzar com os vizinhos. Sem garagem, que nos conduzam à rua, fomentando o comércio, preenchendo o bairro afectivamente.

Comments

7 Responses to “Cidades com gente”
  1. moradora says:

    Na verdade, como eu hoje com filhos doentes vindos do hospital e que passamos na farmácia e no supermercado, o carro, as garagens, o elevador e não ter que contaminar ninguém meu vizinho soube bem!
    Quanto aos vizinhos conheço alguns e convivo com poucos. Mas é assim, tenho outros amigos e conhecidos noutras partes do planeta e isso é excelente!

  2. maria says:

    como eu me revejo,quando vim morar aqui na alta,senti uma enorme angustia,pois nao era de todo o meu ambiente,habituada como eu estava de me faltar açucar e ir pedir uma chavena a minha vizinha,de ver fogueiras acessas nas festas populares e todos do bairro juntos a comer e a beber,todos juntos,chego aqui e sinto uma desumanizaçao e indiferença e desconfiança da maior parte dos vizinhos,sentimentos de posse em que tornam as pessoas tao desagradaveis e materialistas,chego a dar graças adeus por nao encontrar quase ninguem pois se uns dizem umas saudaçoes entre dentes,outros apenas ficam mudos,e isso deixame francamente mal disposta,mas seja como for a todos desejo umas boas festas

  3. Eu percebo ao que o Tiago e a Maria se referem. Mas ainda assim tenho vizinhos 8de patamar e não só) a quem peço açucar e ovos e os nossos filhos brincam na casa uns dos outros ao final do dia.

  4. pmd says:

    Somos os dois e os colegas de escola do meu filho. São afinal talvez mais do que imaginam a Maria e o Tiago.

    • Tiago says:

      Pedro, são muito mais do que dois. Não queira atribuir-me mais imaginação do que a que tenho, por favor. Conheço bem a Alta de Lisboa, tal como conheço bem muitos outros bairros de Lisboa, e sei que existe muita gente com vontade de humanizar os prédios e as ruas. Só estava a dizer é que há características arquitectónicas e urbanísticas que fomentam mais o contacto entre pessoas e a utilização do espaço público do que outras.

  5. moradora says:

    Curioso terem sido sempre os vizinhos a dar o alerta.
    Durante muitissimos anos da minha vida foram os vizinhos a minha família.

    http://www.publico.pt/Local/homem-de-80-anos-enco…

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!