ALÉMFADO
7 October, 2010 by Tiago Figueiredo

Que enganos se escondem nos purismos… Na música há quem defenda que Mozart e Bach não se possam tocar com instrumentos modernos, construídos depois do seu tempo, com sonoridades diferentes das que os compositores ouviam e, supostamente (digo eu), para as quais compunham. Na fotografias muitos se insurgem contra o uso de photoshop. Há décadas, vaticinou-se o fim do cinema quando se conseguiu aliar som à película. Há ainda quem tenha horror à reabilitação de prédios nos bairros históricos modificando interiores, atraindo uma população de maiores posses do que a autóctone.
Já tenho ouvido pessoas dizer que não gostam de fusões, que este projecto do João Vasco não lhes interessa porque o Fado puro é como a Amália cantava. Gostava de ouvir como reagiram ao seu surgimento os que conheceram o fado antes da Amália. Há uns dias, estava com João aqui em casa a falar disto, e ele, à janela com Alfama e o Tejo ao fundo, explicou-me: “Não é um disco de Fado, nem de música clássica ou contemporânea, nem sequer Jazz, mas acaba por ser tudo isto ao mesmo tempo.”
Eu não oiço fado neste disco. Oiço música, e isso é que me interessa. A inspiração é o fado, vários compositores foram convidados a recriar o ambiente em novas obras para piano, e o resultado será lançado em CD no próximo Domingo, 10/10/10, no Museu do Fado às 17h30, em recital.
Eu fiz dois videoclips com muito prazer e orgulho por estar neste barco. Mais informação sobre o projecto em www.alemfado.com



Ah, pois, isso dos prédios é muito bonito, mas se pegassem nas bobines (?) de qualquer coisa para gravar por cima outra música qualquer, apagando o que lá estava…(Mau exemplo, acho que a RTP se fartou de fazer disso noutros tempos.)
E é esse o problema com a «reabilitação» caríssima: «atrair» outras pessoas que não os «autóctones», «com posses maiores», faz com que uma série de gente tenha sérios problemas em continuar nos sítios onde cresceu.
(Hum, desculpa lá contaminar a belíssima música com imprecações, mas estavas mesmo a pedi-las.)
Eu acho que a reabilitação pode conciliar tudo, João, não tem de gentrificar no pior dos sentidos. E edifício devolutos à espera de população no centro de Lisboa não faltam.
Podemos ocupá-los, com o auxílio da Polícia Municipal, e pagar 50 cêntimos por metro quadrado aos parasitas — a começar pelos da CML, há ali um giro a 100 metros, na Rua dos Anjos.
O problema é que não estão «à espera» de «população», e sim «à espera» de mais-valias (mas só se forem verdadeiramente escandalosas, que as outras não interessam.
E eu não estava a falar em gentrificar ao contrário, eu estava a falar de ti mesmo, por exemplo. (Podia ir à procura do link, mas não tenho pachorra.)
Essa dos parasitas tem muito que se lhe diga, João. Eu sei que não consigo voltar a viver numa casa de 5 assoalhadas como vivi até aos 25 anos, que a oferta é escassa e a preços incomportáveis, mas também sei que uma renda de 100€ (e estou a fazer o cálculo muito por cima) durante décadas é incompatível com reabilitação e manutenção do edificado.