globalização
2 August, 2010 by Tiago Figueiredo

“Há muitos anos que não tinha esta qualidade de vida, com uma esplanada a 100 metros de casa.”, constato enterrado numa das cadeiras, enquanto olho para o recorte da cidade no céu. “A SGAL cá de baixo é melhor que a lá de cima,”, responde o amigo com quem estou, “esta parte da cidade já tem mais idade. As azelhices da Câmara aqui não fazem tanto estrago. Os que vão para uma cidade em construção têm de esperar meio século até começarem a ver qualquer coisa assim.”

Olhamos à volta. Está um casal com dois filhos na mesa à frente, falam francês. O filho choraminga por um brinquedo que a irmã quer só para ela. A mãe dá um ralhete salomónico, o pai diz ao filho para se fazer homem. Soa pouco convincente, em francês. Ao lado, um Modigliani, completamente alheado da leitura em voz alta que a namorada lhe faz do guia de Lisboa, despe mentalmente todas as mulheres que a vista alcança. Três alemães riem-se de não servirem cerveja em recipientes com mais de 20 cl. Falam alto e de vez em quando soltam gargalhadas que fazem virar as cabeças em redor, como se no momento seguinte algo grandioso fosse acontecer. Dois casais eslavos, de meia idade, sentam-se junto a nós. Parecem falar russo, mas é ligeiramente diferente. Não se consegue perceber se estão zangados ou apenas a conversar sobre o que viram.

E também há muita gente sozinha, a ler. Livros, jornais, revistas, guias. A frequência desta esplanada é essencialmente composta por turistas. Há alguns portugueses, claro, mas fazem parte das classes gentrificadoras do bairro ou por lisboetas que vêm em passeio. Turistas cá dentro, portanto. Os preços praticados não são para todos. 1,5€ por uma imperial, 1,2€ por uma água. Há umas tascas e outros locais onde a população nascida no bairro se junta, mas isto ficará para mais tarde.

Há sítios onde se sente muito mais a globalização do que outros. Aqui na Graça, como em tantos outros bairros de Lisboa antiga, a heterogeneidade da população vem de há muitos anos, é visível nas ruas, nos cafés, mercearias e bancas de jornais, mas talvez esta esplanada seja uma micro-geografia local, algo elitista a um determinado nível. Ou rejeitada pela população local, há que perceber.

A verdade é que isto nunca foi de um povo só, um lugar tão bonito é desejado por muita gente e já houve quem se chateasse a sério com isso.

Agora anda tudo mais calmo, aparentemente. Dá tempo para sentar, ligar o iPod feito na China, ouvir Ravel tocado por um russo, ler uma tradução de um romace argentino. E fazer uma pausa no fim de um capítulo, olhar o céu e sonhar com viagens, aventuras e conhecer o mundo.




muito obrigada. pelas imagens acompanhadas de palavras ou mesmo que seja ao contrário e as palavras venham acompanhadas de imagens – é a minha lisboa, ainda que seja a colina em frente 😉
saí de lisboa há exactamente uma semana. e estou cheia de saudades. agora ainda mais.
bjs
era a minha esplanada de todos os dias… quase que dava para ir de pantufas e de pijama tomar café ao domingo 🙂
as saudades das noites ate as 2h da manha a beber cervejas no verao e cafezinho no inverno,tanta gente de tanta nacionalidade,mas todos juntos no mesmo sitio a compartilhar aquele por do sol magnifico por cima do tejo,muito bem descrito pelas suas palavras aquela esplanada parabens